Mensagem de boas vindas

Bem Vindo ao blog Campo da Forca. Apontamentos pessoais também abertos a quem os quiser ver.

16/12/20

FIGURAS DA HISTÓRIA DO ISLÃO 5 - ABD AL-MALIK, o construtor da Cúpula da Rocha

                                                                 ABD AL-MALIK


Muawiya foi o criador da monarquia árabe e o primeiro membro da dinastia Omíada. É um exemplo notável de poder absoluto qu8e não foi absolutamente corruptor, personificava a hilm, a sabedoria e a paciência do xeque árabe.

Muawiya expandiu os seus domínios para a Pérsia oriental, a Ásia central e o norte de África, tendo conquistado Chipre e Rodes e constituído uma armada que fez dos árabes uma potência marítima, atacava Constantinopla anualmente e, em certa ocasião, cercou a cidade, por terra e por mar, durante três anos.

Quando Muawiya morreu, em 680, o filho Yazid, um debochado, foi aclamado, mas logfo a seguir teve de se confrontar com duas rebeliões, na Arábia e no Iraque, que deram origem à segunda guerra civil do islão. Hussein, neto do profeta, rebelou-se a fim de vingar a morte do pai, Ali, mas foi decapitado em Karbala, no Iraque; este martírio deu origem ao grande cisma do Islão, que divide os sunitas (que constituem a maioria), dos xiitas (o partido de Ali).

Contudo, com a morte de Yazid, em 683, os exércitos sírios foram buscar Marwan, seu parente já velho e homem capcioso, que morreu em 685. Em Abril de 685, Abd al-Malik, foi aclamado Califa em Damasco mas teve um império pouco sólido: Meca, o Iraque e a Pérsia foram controlados por rebeldes.

Abd al-Malik tivera uma educação brutal: aos dezasseis anos, chefiava um exército que atacou os bizantinos, e assistiu ao homicídio de seu primo o califa Othman.

Abd al-Malik tinha o objectivo de criar um império islâmico unido na sequência da segunda guerra civil, no centro do qual estaria a Síria-Palestina. Inicialmente, Meca estava fora do seu controlo, ao contrário do que se passava com Jerusalém, cidade pela qual tinha imensa reverência. 

Abd al-Malik projectou uma construção para o cimo da Rocha que assinalava o local onde ficava situado o Paraíso de Adão, o altar de Abrãao, o sítio onde David e Salomão fizeram os planos para o Templo, por onde Maomé viria a passar na sua Viagem Noturna. Assim estava a reconstruir o Templo judaico em homenagem ao islão, a verdadeira revelação divina. O santuário seria uma cúpula com 20 metros de diâmetro, sustentada por um cilindro apoiado sobre paredes octogonais. A beleza, a força e a simplicidade eram sem rival. Abd al-Malik reservou sete anos de rendimentos do Egipto à construção da Cúpula da Rocha. A mensagem da Cúpula era uma mensagem imperial; estava a afirmar a grandiosidade e a permanência da dinastia Omíada perante o mundo islâmico, e é possível que se não tivesse chegado a conquistar a Caaba, tivesse feito de Jerusalém a sua nova Meca.

A construção da Cúpula, concluída em 691/2, transformou para sempre a face de Jerusalém, erigindo a sua espantosa visão no alto da montanha que domina a cidade – no local que os bizantinos tinham desprezado – Abd al-Malik conquistou o contorno celeste da cidade para o islão. A cúpula propriamente dita era o céu, a ligação da arquitectura humana a Deus. A cúpula dourada, a decoração sumptuosa, o mármore branco, eram tudo elementos destinados a assinalar o novo Éden e local do Juízo Final, que teria lugar quando, no fim dos tempos, Abd al-Malik e a sua dinastia omíada entregassem o reino a Deus.

Pouco depois de concluída a Cúpula, os exércitos de Abd al-Malik reconquistaram Meca e retomaram a jihad com vista à difusão do reinado de Alá contra os bizantinos; o Comandante expandiu este colossal império para ocidente, em direcção ao norte de África, e para oriente, em direcção a Sinde (o actual Paquistão).

Abd al-Malik defendia a existência de um império universal com um só monarca e um só Deus e foi a pessoa que mais contribuiu para fazer evoluir a comunidade de Maomé para aquilo que é hoje o islão.

13/12/20

FIGURAS DA HISTÓRIA DO ISLÃO 4- MUAWIYA

MUAWIYA: O César árabe

Muawiya era filho dum aristocrata de Meca que tinha chefiado a oposição a Maomé. Quando Meca se rendeu ao islão, Maomé nomeou Muawiya, ainda criança, seu sucessor e casou-se com a irmã dele.

Após a morte de Maomé, Omar nomeou o jovem Muawiya governador da Síria, província a que pertencia Jerusalém.

Muawiya era competente mas apreciador de folguedos. O Emir dizia dele, numa espécie de elogio retorcido, que Muawiya era o «César dos árabes».

Muawiya reinou em Jerusalém durante quarenta anos, primeiro como governador da Síria, depois como monarca do vasto império árabe, que se expandia para oriente e para ocidente com uma rapidez espantosa.

Contudo, no meio de tanto sucesso, eclodiu uma guerra civil, a propósito da sucessão, guerra que quase destruiu o islão, dando origem a um cisma que ainda hoje o divide:

Em 644, Omar foi assassinado, tendo-lhe sucedido Othman, primo de Muayima; Othman reinou durante mais dez anos, odiado pelo seu nepotismo, tendo sido, também ele, assassinado. Por sua morte, Ali, que se tinha casado com Fátima, a filha de Othman, foi escolhido para o cargo de Comandante dos Crentes. Muawiya exigiu-lhe que castigasse os assassinos, mas o novo comandante recusou-se a fazê-lo. Receando perder o controlo da Síria, Muawiya avançou para a guerra civil, da qual saiu vencedor. Ali foi morto no Iraque e assim terminou o reinado do último dos chamados Califas Justos.

Em Julho de 661, os homens mais importantes do império árabe reuniram-se no Monte do Templo, em Jerusalém, e nomearam Muawiya Comandante dos Crentes.

Os autres cristãos classificam o reinado de Muawiya como um reinado de justiça, paz e tolerância e os judeus chamaram-lhe «amigo de Israel».

Muawiya foi o criador da monarquia árabe e o primeiro membro da dinastia Omíada.

Quando Muawiya morreu, já depois dos oitenta anos, Yazid, o seu herdeiro, um debochado, foi aclamado Comandante dos Crentes, mas logo a seguir teve de se confrontar com duas rebeliões, na Arábia e no Iraque, que deram início à segunda guerra civil. Hussein, neto do profeta, rebelou-se a fim de vingar a morte de seu pai, Ali.


09/12/20

FIGURAS DA HISTÓRIA DO ISLÃO - 3 - Omar, O Justo

                                                                OMAR, O Justo

Omar, o corpulento Comandante dos Crentes, que na sua juventude fora praticante de luta, era um asceta implacável, que andava sempre com um flagelo; contava-se que quando Maomé entrava numa sala, as mulheres e as crianças continuavam a rir-se e a conversar, mas quando viam Omar calavam-se imediatamente.

Foi Omar que começou a coligir o Corão, que criou o calendário muçulmano e que constituiu grande parte da legislação islâmica, impondo às mulheres regras muito mais rigorosas que as impostas pelo Profeta.

De acor5do com as fontes muçulmanas tradicionais, depois de Omar entrar em Jerusalém, Sofrónio escoltou o comandante sarraceno ao Santo Sepulcro, na esperança de que o visitante admirasse a perfeição e a sacralidade do cristianismo, e até talvez mesmo de que se convertesse; quando o muezzin de Omar convocou os militares para a oração,  o patriarca convidou-o para rezar ali mesmo; Omar, porém, ter-se-á recusado e sabendo que Maomé tinha venerado David e Salomão, ordenou a Sofrónio que o levasse ao santuário de David: assim dirigiu-se com os seus guerreiros para o Monte do Templo, encontrando-o contaminado com «uma pilha de excrementos que os cristãos ali tinham depositado para ofender os judeus»; auxiliado pelos seus militares, Omar começou a afastar os detritos, a fim de abrir uma clareira onde pudesse rezar. Omar cumpriu em Jerusalém o desejo de Maomé: passar por cima do cristianismo e recuperar aquele que era um lugar santo desde os tempos antigos, fazendo dos muçulmanos os herdeiros legítimos da sacralidade judaica e ignorando os cristãos.

Foram bastantes os judeus que então aderiram ao islão, e é provável que alguns cristãos também o tenham feito. Nunca saberemos exactamente o que foi que se passou naquelas primeiras décadas, mas as disposições – pouco rígidas – que vigoravam em Jerusalém e noutras cidades dão a entender que terá havido um surpreendente nível de entrosamento entre os membros dos três Povos do Livro.

Inicialmente, os conquistadores muçulmanos não tiveram dificuldade nenhuma em partilhar os lugares de culto com os cristãos e diz a tradição que enquanto não dispuseram dum lugar próprio no Monte do Templo, os primeiros muçulmanos começaram por rezar dentro ou ao lado da igreja do Santo Sepulcro.

Também os judeus, depois de sofrerem séculos de repressão por parte dos bizantinos, acolheram bem os árabes. O interesse de Omar pelo Monte do Templo fez aumentar as esperanças dos judeus.

Terá havido cristãos e judeus nos exércitos muçulmanos.


08/12/20

FIGURAS DA HISTÓRIA DO ISLÃO - 2 Khalid Ibn Walid

 O Islão – 2ª parte

KHALID IBN WALID – A Espada do Islão

Em 632 Maomé morre e sucede-lhe o seu sogro, Abu Bakr, proclamado Emir (Comandante dos Crentes).

Nota: todos os sucessores de Maomé usariam o título de Comandante dos Crentes. Posteriormente, os chefes de Estado seriam os Khalif rasul Allah (Sucessores do mensageiro de Deus) – ou seja, Califas.

Khalid era um dos aristocratas de Meca, membro da nobreza que combatera Maomé, mas após se converter, foi recebido pelo profeta de braços abertos e a quem este chamou a Espada do Islão.
Era o melhor general de Abu Bakr e foi incumbido de derrotar os bizantinos. 
A Vitória decisiva sobre as legiões do imperador Heráclio deu-se na batalha de Jarmuque, a 20 de Agosto de 636, quando o emir Omar já tinha sucedido a Abu Bakr.


Em seguida a Pérsia também caiu nas mãos árabes.


Na Palestina só Jerusalém se aguentava ainda, sob a chefia do patriarca Sofrónio, que chamava aos árabes "sarracenos". 

Os árabes convergiram para esta cidade a quem chamavam Élia.
Para os árabes a guerra por Jerusalém não era travada apenas com vista ao saque. «A Hora está próxima», diz o Corão. O militante fanatismo dos primeiros muçulmanos assentava na convicção da iminência do Juízo Final. O Corão não o afirmava, explicitamente, mas eles sabiam, pelos profetas judaico-cristãos, que o apocalipse teria lugar em Jerusalém: ora se a hora estava a chegar, eles tinham de tomar a cidade.

Khaled e outros generais juntaram-se em torno das muralhas, mas aparentemente não terá havido grandes combates. Como Sefrónio recusasse render-se sem obter uma garantia de tolerância por parte do próprio Comandante dos Crentes, tiveram de mandar ir Omar de Meca. De acordo com o Corão, Omar terá proposto a Jerusalém uma Aliança - dhimma - de Rendição, que permitia aos cristãos a liberdade de culto, pagando estes um imposto de submissão - o jizya. Os árabes entraram assim em Jerusalém.

04/12/20

FIGURAS DA HISTÓRIA DO ISLÃO – 1 Maomé

 Maomé

O pai de Maomé morreu antes de ele nascer e a mãe quando ele tinha apenas seis anos. Foi adoptado pelo tio, que era comerciante.

Foi instruído no cristianismo por um monge, tendo estudado as Escrituras judaicas e cristãs e venerado Jerusalém com um dos mais nobres santuários do mundo.

Quando Maomé tinha vinte e poucos anos, uma viúva rica de nome Khadija, muito mais velha do que ele, contratou-o para gerir os seus negócios, acabando por se casar com ele.

O casal vivia em Meca, onde se encontrava a Caaba, com a respetiva pedra negra, que era o santuário de um deus pagão.

Tal como acontece com outros grandes profetas, há dificuldade em avaliar as razões pessoais do seu êxito.

A Gruta de Hira, para onde Maomé gostava de se retirar a meditar, ficava à saída de Meca; diz a tradição que, em 610, o Arcanjo São Gabriel lhe apareceu nessa gruta, confiando-lhe numa revelação que Deus o tinha escolhido como seu mensageiro e seu profeta.

Maomé começou a pregar. Naquela sociedade militarizada a tradição literária não era escrita; pelo contrário, consistia em poemas intensos, transmitidos por via oral. O Profeta tirou partido desta tradição poética; com efeito as 114 suras (capítulos) do Corão (Recitação) foram recitadas antes de serem compiladas. Esta obra é um compêndio de poesia de grande beleza e obscuridades sagradas, repleto de normas precisas e de perturbantes contradições.

Maomé era um visionário que pregava a submissão (o islão) a Deus com vista à salvação universal, mas também os valores da igualdade e da justiça e as virtudes de uma vida pura, acompanhadas por rituais e regras fáceis de aprender, que abarcavam os diversos momentos da vida e da morte.

Maomé acolhia bem os convertidos, respeitava a Bíblia e considerava que David e Salomão, Moisés e Jesus eram profetas, mas que a sua própria revelação ultrapassava todas as anteriores.

Os discípulos de Maomé estavam convencidos de que certa noite, quando estava a dormir ao lado da Caaba, o Profeta teve uma visão, o Arcanjo Gabriel acordou-o e montaram ambos em Buraq, um corcel negro de rosto humano, empreendendo uma Viagem Nocturna rumo ao «Santuário Longínquo», onde Maomé foi encontrar os seus «pais» (Adão e Abraão) e os seus «irmãos» (Moisés José e Jesus), antes de subir ao céu por uma escada. O Corão não refere Jerusalém nem o Templo, mas os muçulmanos consideram que este Santuário Longínquo era o Monte do Templo.

Maomé dizia de si próprio que era um mensageiro ou Apóstolo de Deus, e não possuía quaisquer poderes sobre-humanos; com efeito, a Isra – a Viagem Nocturna – e a Miraj – a Subida ao céu – foram os únicos actos milagrosos do Profeta.

Quando a mulher eo tio morreram, o Profeta e os seus discípulos mais chegados deram início à Migração (a Hijra) em direcção a Yathrib, que veio a ser a Madinat un-Nabi (Medina), a cidade do Profeta.

Foi aí, em Medina, que Maomé juntou os seus primeiros devotos, os Emigrantes, aos novos discípulos, os Ajudantes, constituindo uma nova comunidade, a umma; estávamos em 622, o ano que dá início ao calendário islâmico.

Em Medina criou a primeira mesquita, adoptando o Templo de Jerusalém como sua primeira qibla (o ponto de orientação da oração), rezava ao pôr-do-sol de sexta-feira, jejuava no Dia da Expiação, proibiu o consumo de carne de porco e instituiu a prática da circuncisão.

A unicidade do Deus de Maomé impedia-o de aceitar a Santíssima Trindade do cristianismo, mas há outros rituais que foram herdados dos conventos cristãos - como a prostração sob re o tapete onde se reza - ; o Ramadão assemelha-se à Quaresma, e é possível que os minaretes das mesquitas se tenham inspirado nos pilares dos monges estilitas. Apesar de tudo isto, o islão tinha muitas características específicas.

Maomé criou um pequeno Estado com leis próprias, mas não foi bem acolhido, nem em Medina nem em Meca; o pequeno estado tinha de se defender e de conquistar, de maneira que a luta – a jihad – era simultaneamente o domínio interior e uma guerra santa de conquista.

O Corão promovia a destruição dos fiéis, ou a tolerância, se eles se submetessem.

Devido às tribos judaicas que se recusavam a aceitar as revelações de Maomé e o seu controlo sobre elas, Maomé transferiu a quibla (o ponto de orientação da oração) para Meca e rejeitou o judaísmo.

Maomé, em 630, conseguiu finalmente capturar Meca, difundindo o monoteísmo pela Arábia por via das conversões e da força. Esforçando-se por viver uma vida recta, na antecipação do Juízo Final, os discípulos de Maomé foram também assumindo um estilo cada vez mais militarizado.

Conquistada a Arábia, Maomé tinha agora diante de si os impérios do pecado; os seus principais colaboradores eram os seus primeiros discípulos, mas o Profeta não tinha dificuldade nenhuma em acolher, com igual entusiasmo, antigos inimigos e o+portunistas de talento.

Entretanto, a tradição islâmica narra diversos factos da sua vida: tinha muitas mulheres – mas a sua favorita era Aisha, a filha de Abu bakr, que era seu aliado – e numerosas concubinas, entre as quais se contavam belas mulheres judias e cristãs; e teve filhos, nomeadamente uma filha de nome Fátima.

Em 632, Maomé morre, com cerca de sessenta e dois anos; sucede-lhe o sogro, Abu Bakr, que foi +proclamado Emir al-Muminin (Comandante dos Crentes). Após a sua morte, o reino de Maomé vacilou, mas Abu Bakr conseguiu pacificar a arábia, após o que se voltou para os impérios bizantino e persa, que os muçulmanos consideravam ser efémeros, pecaminosos e corruptos. O Comandante mandou vários contingentes de guerreiros montados em camelos atacar o Iraque e a Palestina.

09/10/20

A GUERRA CIVIL AMERICANA

 




 










A Guerra Civil Americana (1861-1865) foi uma tragédia.  

O ruir duma civilização, o Sul, a confederação, o reino do algodão.  

A imagem desse mundo agonizante foi-nos deixada por Margaret Mitchell (1900-1949), nascida e criada no Sul, no seu romance “Gone with the Wind” (“E tudo o Vento Levou”). 

Os sofrimentos causados pela guerra e pela derrota, a horrível carnificina dos campos de batalha, os saques impiedosos, as destruições, as cidades em chamas, as epidemias, a miséria, a fome, a morte de uma sociedade aristocrática e o nascimento, sobre as suas ruínas, duma completa anarquia. 

 Mas, para além do horroroso massacre, a guerra trouxe também uma auréola romântica: canções de guerra como “Marching through Geogia” “Tramptramptramp” ou “Dixie”, inspirou escritores em muitos romances e poetas naquela que é a melhor poesia bélica da América, levou Hollywood a ultrapassar a mediocridade e criou padrõrs de patriotismo, coragem e firmeza, revelando grandes soldados como Lee e Jackson, Grant e Shermann e também o maior herói nacional americano: Abraão Lincoln. 

 

Antecedentes 

A nação americana, na primeira metade do século XIX, trilhou o seu caminho para um futuro que parecia cada vez mais belo, mas também mais difícil. Arroteavam-se novos territórios e nasciam novos estados e novas cidades. A América, cerca de 1850, nos estados do Norte, era o estridor das máquinas; no Sul era imensos campos de algodão e canções de escravos negros; no Middle West, terra dos colonos, era o ruído dos machados nas florestas, o longo cortejo de carros de bois a caminho do Oeste e os combates selvagens contra os Índios, que lutavam pela sobrevivência  

O Norte estava nas mãos duma geração para quem o dólar era um deus, o trabalho um culto e para quem a obtenção de fortuna representava a virtude e o patriotismo. No Norte, apesar dos seus ideais democráticos, abriu-se um fosso entre ricos e pobres: os operários das fábricas, explorados de maneira impiedosa pelos patrões, constituíram, ao fim de pouco tempo, um proletariado miserável que trabalhava durante longos dias por um salário ínfimo. O Norte passou a ser o país dos Ianques, um povo de energia esfuziante, de desmedido espírito de empreendimento, um povo mergulhado na adoração fundamental do triunfo e que tinha por divindades a Bíblia, a Constituição americana e o dólar. 

O Sul, considerado pelos Ianques, adormecido, atrasado, quer no espírito, quer nas obras. No Sul dominava o algodão que representava, só ele, dois terços de todas as exportações americanas. Os grandes plantadores dominavam a vida pública nos estados meridionais. 

Industrial o Norte era uma região de grandes cidades; o Sul assentava na agricultura. 

Os Ianques eram democratas, os Sulistas tinham atitudes e instituições aristocráticas. 

Os escravos foi o problema principal que fez estalar a guerra. Após 1830, o movimento abolicionista do Norte quis suprimir a escravatura por a considerar irreconciliável com os ideais democráticos e a moralidade cristã. O Sul respondeu que os nortistas não tinham que se imiscuir nos seus negócios e afirmavam que bem mais escandalosa que a escravatura era a maneira como se tratavam os operários brancos nos bairros do Norte. 

Os antagonismos entre o Norte e o Sul agravavam-se a pouco e pouco. 

Os estados do Norte exigiam para a sua indústria um sistema protecionista e o Oeste, em plena expansão, seguia-lhe o exemplo. Os do Sul, quase desprovidos de indústria e grande importador, não queriam ouvir falar de direitos de importação. 

O Norte e o Sul formavam como que duas nações bem diferentes. Por isso os do Sul puseram-se a sonhar com a independência. 

Um dos mais perigosos pontos de atrito consistia em saber se os novos estados admitidos na União à medida que novos territórios eram conseguidos pela expansão a Oeste. No fundo atrás do problema da escravatura, escondia-se a luta pelo poder e pelo dinheiro. 

Em 1820 decidira-se que uma linha um pouco ao norte do paralelo 36 seria a fronteira entre os estados esclavagistas e os estados «livres». Em 1850 a grande expansão territorial que se seguiu à guerra contra o México conferiu ao problema toda a sua acuidade, revelando-se necessária uma nova regulamentação. 

Sob protestos furiosos dos Sulistas, decidiu-se que, apesar da sua situação a sul do paralelo 36, a Califórnia seria admitida na União como estado «livre». 

Em 1854 surge novo compromisso a propósito do Kansas e do Nebrasca. Isso deu origem à formação do Partido Republicano refundido em luta com o velho Partido Democrata com vista a exigir a estrita limitação a escravatura.  

Em 1859 John Brown fez uma tentativa infeliz de golpe de estado. Nesta época, tão rica em exaltações apaixonadas, uma tempestade emocional ultrapassou tudo o que até então se vira. John Brown, um fanático anti-esclavagista, organizou uma revolta de escravos na pequena cidade de Harpers Ferry. Conseguiu aí ocupar o arsenal do exército federal. O governo ficou alarmado e toda a nação profundamente chocada. Recrutaram-se tropas que poucas dificuldades tiveram em obter a rendição de John Brown que, julgado mais tarde, foi condenado à morte e enforcado. 

John Brown passou a ser o profeta dos abolicionistas. 

Em 1859 Abraão Lincoln pronunciou o célebre discurso «Uma casa dividida não pode sobreviver». 

Em 1860 Abraão Lincoln foi eleito presidente dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. Lincoln era detestado no Sul. A sua eleição provocou a ruptura. Os sulistas decidiram não aceitar a sua presidência, pelo que abandonaram a União, uns após outros. 

Primeiro a Carolina do Sul em Dezembro de 1860 e depois, no princípio do ano seguinte, seis outros estados – o Mississipi, a Flórida, o Alabama, a Jórgia, a Luisiana e o Texas. 

Proclamaram-se, em conjunto, Estados Confederados da América (CSA) e escolheram Jefferson Davis como seu presidente. 

Lincoln entrou e funções a 4 de Março de 1861. O seu discurso inaugural é um dos mais conhecidos: “Não somos inimigos, mas amigos”. Tratava-se de um apelo aos estados do Sul, mas também aos do Oeste e aos do Norte, a toda a América. Aqui se encontra o fulcro de toda a sua política durante os quatro anos em que foi presidente: presidente de todos os Estados Unidos e não apenas da União, que só agrupava os estados setentrionais. Lincoln recusou-se sempre a considerara a secessão como inevitável e fez o possível para evitar que o retorno do Sul ao seio da comunidade americana se tornasse difícil. Nunca pronunciou uma palavra dura contra os sulistas rebelados. Conhecia-os melhor e compreendia melhor as ideias que professavam do que qualquer outro político do Norte. 

 

O início da Guerra 

O primeiro tiro soou a 12 de Abril de 1861, em Fort Sumter, na Carolina do Sul. Encontravam-se aí concentradas tropas da União. Os confederados puseram cerco à pequena praça-forte. Após longas hesitações Lincoln decidiu não enviar reforços aos sitiados, mas apenas provisões. 

 Os confederados decidiram bombardear a posição e tomá-la pela força. 

A partir daquele momento tornava-se impossível recuar. Lincoln pediu ao Congresso 75.000 voluntários por 3 meses. Pedido que o Sul considerou uma declaração de guerra. A Virgínia, a Carolina do Norte, o Tenessi e o Arkansas recusaram-se a dar um só homem e juntaram-se à Confederação. 

Agora, todos haviam tomado partido e as posições estavam definidas: 22 estados contra 11, 22 milhões de homens contra 9 milhões. Os Azuis e os Cinzentos puseram-se a caminho dos campos de batalha. Começava a guerra civil. 

Os estados do Sul julgavam poder deixar a União e fundar a sua própria nação; laboravam num grave erro. 

Os estados do Norte esperavam, por seu lado, uma guerra rápida e uma vitória fácil; subestimavam gravemente os recursos humanos e o poder do Sul. 

A Guerra da Secessão duraria quatro longos anos, estender-se-ia a imensos territórios no Sul e no Oeste, exigiria operações gigantescas e a formação de muitos generais, pois havia então poucos estrategos competentes na América. Esta foi talvez a causa dos massacres pois chefes mais bem preparados teriam, sem dúvida, poupado milhares de vidas. 

À primeira vista, a luta era muito desigual. No princípio das hostilidades, o Norte possuía uma enorme pois dispunha da quase totalidade das indústrias siderúrgicas e do armamento e controlavam quase dois terços do crédito bancário do país. O Sul não possuía nenhuma indústria digna desse nome, nenhum grande exército, nenhuma frota. Tudo isto teve de ser criado enquanto a guerra se desenvolvia. Em contrapartida, os sulistas dedicavam-se à sua causa com uma convicção ardente e os seus generais ultrapassaram durante muito tempo, as qualidades do comando adversário. O Sul não possuía ferro mas tinha Robert Lee. Foi em grande parte, devido ao general Lee, ao seu génio estratégico, à força e à nobreza do seu caráter, que os Sulistas conseguiram resistir durante quatro intermináveis anos. 

O Norte lançou a primeira ofensiva em Julho de 1961. O objectivo era conquistar Richmond, a capital da Virgínia e que se tornara também a capital da Confederação. A cidade situava-se a 160 km de Washington (a capital da União) e a 30 Km desta cidade corria um pequeno rio chamado Bull Run.  Foi aí que, num dia de julho de 1861, o exército nortista pôs-se em movimento para o seu primeiro ataque. Nessa noite Lincoln recebia um telegrama que dizia “O nosso exército bate em retirada. A batalha está perdida. Salvai Washington e o resto das nossas tropas”.  

 

STONEWALL JACKSON 

Enquanto os Nortistas, vencidos na batalha de Bull Run , refluíam em grande confusão a Washington, um oficial Sulista escrevia a toda a pressa algumas linhas à sua mulher “Eu comandava o centro. Outras unidades do nosso valente exército mereceram grandes louvores, mas Deus quis dar à minha brigada o papel mais importante. Digo isto apenas para te informar - não me compete a mim cantar a minha própria glória.” 

O autor destas linhas, então primeiro-tenente, chamava-se Thomas Jackson. Durante a batalha de Bull Run, um dos seus amigos gritara aos seus homens, para os encorajar “Vede Jackson! Dir-se-ia uma parede de pedra!”. O futuro general sulista passou a ser conhecido por «Stonewall Jackson». 

 Ler a bíblia e estudar as campanhas de Napoleão eram as principais actividades de Stonewall Jackson antes de partir para o combate pela liberdade do Sul, como principal e melhor adjunto do general Lee. Capaz de se concentrar num problema, Jackson não se deixava seduzir por distrações que considerava inúteis e perigosas. Não fumava, não bebia, não jogava. Taciturno e introvertido, mostrava-se muito exigente com os seus soldados, que nem por isso gostavam menos dele, admiravam-lhe a coragem, a resistência, a rapidez de análise das situações. Jackson conseguia o respeito de todos os soldados devido à sua imaginação quase miraculosa quando se tratava de enganar o inimigo e de alcançar uma brilhante vitória. Os homens de Stonewall Jackson sentiam-se orgulhosos do seu general, sentimento que as gerações futuras partilhariam. 

Após a sua grande vitória de Chancellorville, a 2 de Maio de 1863, Jackson foi mortalmente ferido pelos seus próprios homens, a quem a noite e a confusão geral desnorteavam. 

 

Uma guerra a longo prazo 

A Guerra da Secessão durou quatro longos anos. 

No Verão de 1861, Lincoln recebeu do Congresso plenos poderes para constituir um exército de 500.000 homens. No Outono Lincoln anunciou o bloqueio de todos os estados meridionais e chegou o general McClellan para comandar os 500.000 soldados oferecidos pelo Congresso. O general iniciou de imediato a organização do exército da União. O general treinou com encarniçamento os seus homens, nas planícies de Potomac, mas demorou a conduzir as tropas para combate.  

Por outro lado, os 10.000 homens da Confederação, do exército de Lee, puseram-se a caminho, mal equipados, mas alegres. O inalterável bom humor dos Sulistas, sob os golpes mais duros, é um dos fenómenos mais notável desta guerra. Passaram o Potomac, marchando sem sapatos, sem chapéu, sem capotes – as estradas encheram-se de caminhantes, com os pés em sangue. De noite sofriam terrivelmente com o frio. 

Em Março de 1862, McClellan decidira-se por fim a pôr-se em campo e tomou posição próximo de Richmond, para a conquistar e acabar a guerra. 

Mas enquanto o general nortista esperava por ocasião favorável para atacar, misteriosos acontecimentos se desenrolaram noutros locais: 

No vale de Shenandoah, a oeste de Washington, instalara-se um exército da União a fim de defender a capital. Jackson Stonewall foi para aí enviado com o intuito de impedir a partida de reforços nortistas em direcção a Richmond. Mas este não gostava de desempenhar apenas o papel de cão de guarda, o ataque agradava-lhe muito mais. Após uma marcha relâmpago, lançou-se furiosamente sobre o exército nortista, que esmagou divisão após divisão. Feito isto, voltou a partir, a marchas forçadas, para o sul, chegando a Richmond mesmo a tempo de se juntar a Lee na famosa «Batalha dos sete dias». Nos fins de Junho de 1862. A luta terminou com uma brilhante vitória dos confederados, Richmond salvara-se e Washington compreendera como era precária a sua situação. McClellan teve de se retirar e deixar o Sul. 

O Sul pensava: “mais uma vitória, e os Ianques cairão de joelhos implorando a paz”. Esta nova vitória surgiu de facto: a segunda batalha de Bull Run, a 30 de Agosto, um dos mais brilhantes triunfos de Lee e Jackson. Os dois generais sulistas penetraram seguidamente na Marilândia, a fim de ameaçarem Washington e obterem assim uma paz ditada por eles. Foi então que a sorte os abandonou. 

Em Antietam, a 17 de Setembro (o dia mais sangrento da guerra) McClellam adquiriu vantagem. 

Todavia, o nortista não conseguiu acabar com Jackson e Lee, cujas tropas desapareceram em direcção ao sul. 

Entretanto, no Oeste, Ulysses S. Grant passava ao primeiro plano. 

 

Ulysses S. Grant 

O Oeste tinha muita importância, nomeadamente pelo domínio da navegação no Mississípi. Grant foi para aí enviado com a missão de fazer o melhor possível; mas, efectivamente depositavam-se nele poucas esperanças, dado que a sua reputação no exército não era das mais brilhantes. 

Em Fevereiro de 1862 conquistou o Fort Donelson, num afluente do Ohio. 

Em Abril, o duríssimo combate de Shilob, no Tenessi, proporciono-lhe uma vitória completa sobre um grande exército sulista. O até aí desconhecido general Grant tornava-se célebre nesse dia.  

O Norte ia fazer dele o seu herói.  

Antes os colegas haviam-no considerado sempre um falhado. Soldado de profissão, a sua carreira fora brutalmente interrompida após a guerra contra o México, pois o seu amor ao uísque forçara-o à demissão. Não possuía nenhum amigo e vivia ensimesmado na solidão. Os seus colegas do exército criticavam-no duramente, acusavam-no de expor sem necessidade a vida dos seus homens. Descreviam-no abertamente como o pior dos bêbados. Todavia, o presidente não fazia nenhum caso dessas acusações: “Não posso passar sem este homem. Ele bate-se.”  

As vitórias de Grant no Oeste e o grande triunfo de Antietam levaram Lincoln a proclamar solenemente a liberdade de todos os escravos. O texto concedia, a partir do dia 1 de Janeiro de 1863, a liberdade a todos os escravos que naquela data habitassem os estados em rebelião. Nos estados esclavagistas que não tivessem rompido com a União, os proprietários dos escravos seriam indemnizados pelas suas perdas. 

A abolição da escravatura influiu muito fortemente no futuro. A Inglaterra decidiu em definitivo ficar neutra e contrariamente às esperanças do Sul não se opor ao bloqueio das exportações de algodão apesar de um quinto da população inglesa viver então da indústria algodoeira e quatro quintos do algodão importado pela ilha provir da América. Os estados do Sul haviam cometido um erro ao contar, com optimismo, com a ajuda inglesa. 

Entretanto a luta continuava 

Em Dezembro de 1862, a batalha de Fredericksburg, na Virgínia, foi um novo triunfo para Lee e Jackson. As perdas, sobretudo entre os Nortistas, foram enormes- Fredericksburg pareceu-se mais com uma carnificina do que com uma batalha. 

Depois, a 2 de Maio de 1863, o famoso combate de Chancellorsville proporcionava uma nova vitória aos confederados e uma nova derrota esmagadora aos Ianques.  

Lincoln viveu então os seus dias mais sombrios e duvidou de si próprio. 

Entretanto, o general Jackson, gravemente ferido em combate, faleceu. 

Lee teve, pois, de continuar sozinho. Entrou na Pensilvânia, resolvido a esmagar de uma vez por sempre o exército da União. Washington temeu, mais uma vez, um cerco e ficou tomada de terror.  

Mas os Azuis não tinham chegado ainda ao limite das suas forças. Entraram em luta com o inimigo em Gettysburg 

A batalha de Gettysburg, em Julho de 1863, foi a mais célebre de toda a guerra. Ao fim de três intermináveis dias de luta, as tropas da União venceram e Lee bateu em retirada para o Sul. 

Mais tarde Lee confessaria: “com Jackson junto de mim, teria ganho em Gettysburg”. 

A guerra entrou numa viragem. Com Gettysburg e com Grant a coleccionar vitórias no Oeste. 

A 4 de Julho Grant telegrafou a Lincoln noticiando que o inimigo capitulara naquela manhã. O inimigo era a fortaleza de Vicksburg, que controlava o curso inferior do rio Mississipi. Todo o vale do Missisipi se encontrava, a partir de então, nas mãos da União. 

Meses mais tarde, Grant alcançou uma nova vitória em Chattanooga, no Tenessi. 

Em Fevereiro de 1864, Lincoln nomeava Grant comandante supremo das forças da União com o posto de tenente-general. O «major do uísque» obtinha a mais alta distinção do exército, um grau que ainda não fora atingido depois de George Washington. 

O fim do Sul aproximava-se a passos largos. Mas, antes dele, Robert Lee e Ulysses Grant, encontrar-se-iam, pela primeira vez, na «Batalha do Deserto», em Maio de 1864. Lee viu-se coagido a bater em retirada após várias tentativas desesperadas para para conter os assaltos de Grant. 

O Nortista escolheu seguidamente, a capital da Confederaçõ, Richmond, para objectivo da sua nova ofensiva. 

Simultaneamente, o homem que sucedera Grant no comando do exército do Oeste, o general Sherman, pôs-se em marcha em direcção ao Sul. Sherman ia tornar-se, no Sul, o mais detestado dos generais inimigos. Ele diziz “a guerra é um inferno”, querendo significar que a guerra devia ser um inferno se se quisesse obter resultados. Sherman possui o triste privilégio de ter conduzido, pela primeira vez na história da guerra moderna, uma luta impiedosa contra as populações civis. Via apenas uma coisa: o objectivo a atingir fosse por que meios fosse. Esse objectivo era a Geórgia, que ele invadiu em Maio de 1864 com 60.000 veteranos, para avançar em seguida sobre Atlanta. Por onde Sherman passava só se viam ruínas fumegantes, armazéns em chamas, destruição e morte. Foram precisos 4 meses para atingir Atlanta, que tomou de assalto, expulsando a população e incendiando a cidade. A 25 de Dezembro de 1864 telegrafava a Lincoln: “Posso oferecer-vos a cidade de Savannah como presente de Natal?” 

Na Primavera de 1865, nas Carolinas do Norte e do Sul, travavam-se as últimas batalhas. Lee teve de evacuar Richmond, dizendo “Nada mais me resta do que pedir ao general Grant para negociar, e ser-me-ia mil vezes mais agradável morrer”. 

O encontro dos dois comandantes supremos efectuou-se a 9 de Abril de 1865, no edifício do tribunal de Appomatox, na Virgínia. Lee, sempre muito correcto, envergava um uniforme de gala, novo e muito elegante; Grant, apareceu de camisa de flanela, com o colarinho bastante aberto. Os dois generais apertaram as mãos. Grant, de bastante bom humor, iniciou uma conversa sobre a guerra contra o México, na qual Lee combatera igualmente. Grant falou de mil e uma coisa, mas não pronunciava uma palavra sobre a capitulação. Lee teve de lhe recordar o fim do encontro e pedir que expusesse por escrito as suas condições. Mandou, em seguida, redigir uma carta em que dava o seu acordo às referidas condições, assinou-a, trocou algumas palavras com os oficiais presentes e montou a cavalo para se juntar às suas tropas.  

A capitulação era um facto consumado e a guerra da secessão estava terminada.  

 

O pós-guerra civil Americana 

A morte de Lincoln 

Abraão Lincoln foi reeleito presidente no Outono de 1864. 

O discurso de Lincoln, aquando da sua tomada de posse, em Março de 1865, iguala a qualidade da sua famosa mensagem de Gettysburg que tinha produzido em 19 de Novembro de 1863. 

Falou da guerra que todos haviam receado e que ninguém havia querido e terminou com algumas frases que se encontram gravadas na consciência de todo o povo americano. 

Lincoln queria chamar a si o Sul, de preferência a conquistá-lo, dar-lhe uma possibilidade de vencer a miséria em que o conflito o lançara. 

Em 14 de Abril de 1865, quando se encontrava com a sua esposa, num teatro, em Washington, um fanático sulista abriu caminho té ao camarote presidencial e assassinou-o com um tiro na cabeça.  

Sucedeu-lhe na presidência Andrew Johnson que, tal como Lincoln pretendera, desejava reconciliar-se com o Sul e lançar as bases dum futuro comum. A ruína dos aristocratas meridionais, que foi efectivamente uma consequência da guerra, era no ver de Andrew Johnson punição suficiente para o Sul. Não o entendeu assim o Congresso, dominado por um comité de 15 republicanos, chefiado por Thaddeus Stevens, que determinou a política do Norte triunfante. O Sul devia ser castigado, metido no bom caminho, tratado como um país conquistado, despojado de todo o poder político no seio dos Estados Unidos. 

O ódio dominava os cinco generais encarregados de «pacificar» cada região do Sul. Foi uma verdadeira ocupação militar. 

Mas o ódio ardia também no Sul oprimido. Contra o governo de Washington, contra as tropas de ocupação, contra os migrantes vindos do Norte e contra os colaboracionistas (conterrâneos que apoiavam as novas medidas político-económicas implementadas). 

Mas isso ainda não era o pior; a mais trágica consequência da guerra civil foi a aversão do Branco pelo Negro, sobretudo no Sul. Uma emenda à constituição federal atribuiu o direito de voto à população negra, certamente para assegurar a posição de força que o Partido Republicano ocupava. 

Mas os negros não tinham a possibilidade de o utilizar, visto que a maior parte deles era analfabeta. Os negros faziam da sua libertação uma ideia duma puerilidade absolutamente primitiva. Muitos julgavam poder viver, a partir daquela altura, sem trabalhar e que a sua vida passaria < ser um longo repouso, uma espécie de paraíso terrestre. A decepção foi evidentemente brutal. 

Estes anos foram terríveis para o Sul. Anos que não esqueceria nem perdoaria. Os campos de algodão ficaram incultos porque os proprietários não tinham dinheiro para contratar trabalhadores. A maior parte dos bancos meridionais fecharam com os cofres vazios. O tráfego ferroviário parou por falta de dinheiro para reparar as vias destruídas durante as hostilidades. Foram anos de miséria, de fome e de humilhação. 

Assim, no Sul esmagado, nasciam sociedades secretas que agrupavam os que não se satisfaziam com uma resistência passiva. 

Num dia de 1865, no Tenessi, alguns jovens, oficiais subalternos da Confederação, criavam o Ku Klux Klan (da palavra grega kuklos, que significa c´rculo), que dentro em pouco se estendeu a todo o Sul. 

Os membros reuniam-se de noite, usavam vestes vermelhas e brancas e o rosto tapado com uma cogula. 

Inicialmente tratava-se apenas duma espécie de divertimento brutal, para atemorizar os negros supersticiosos. 

Mas bem depressa a brincadeira se tornou coisa séria, quando a miséria aumentou, bem como o ódio profundo pelas autoridades de ocupação. Não passava um dia sem que um negro, um emigrante do Norte ou um colaboracionista, não fosse maltratado ou morto pelo misterioso K.K.K. A organização tomou um carácter declaradamente terrorista, forçando Washington a tomar sistemáticas medidas repressivas. 

O movimento foi dissolvido no princípio dos anos setenta, pouco antes da partida das últimas tropas federais. Desempenhara um papel importante contrariando os excessos mais violentos da repressão.  

Mas, desde então e até aos nossos dias, horríveis crimes têm sido cometidos a coberto daquelas três letras fatídicas. 

 

A reconstrução 

Aquilo a que os americanos chamaram «the black reconstruction», o período em que os Negros exerceram os seus direitos políticos no Sul sem para isso se encontrarem preparados, durou cerca de dez anos. A ele se seguiu a verdadeira reconstrução do Sul. 

Os estados meridionais foram readmitidos na União. Os Brancos readquiriram a sua posição dominante. Os generais do Norte abandonaram definitivamente o Sul. Os emigrantes do Norte seguiram as suas tropas. Os colaboracionistas foram liquidados. O Partido Democrático reapareceu com uma nova organização. A industrialização assentou a vida económica sobre novas bases. O Sul adquiriu, dentro de pouco tempo, uma posição dominante na União como produtor de algodão e de tabaco. Construíram-se novas fortunas, nasceu uma nova sociedade. 

Em 1869 o general Grant entrou na Casa Branca sem grande surpresa. 

A América tinha em Ulysses Grant um dos melhores generais, bem como – facto de que se iria aperceber pouco tempo depois – um dos piores presidentes. Grant não percebia nada de política, não possuía a mínima noção de economia. O general manteve-se completamente alheio às ideias novas que operaram na América transformações quase revolucionárias. Grant instalou-se na cadeira presidencial para gozar a vida e daqui resultou um turbilhão de escândalos. O presidente dos EUA esteve implicado em negócios suspeitos, sem que, aliás, isso o preocupasse. Uma vez fora da Casa Branca, Grant escreveu as suas memórias com toda a tranquilidade de espírito. A obra apareceu imediatamente após a sua morte, em 1885, e obteve grande êxito. Todo o bom patriota devia comprá-lo e todo o bom republicano devia mostrar que o lera. É que o presidente Grant encarnava, no Norte, o carácter triunfante dos republicanos, que tolerava todas as loucuras da especulação. 

 

Os reis do dólar 

Da guerra saiu uma paz que fazia do Norte o paraíso dos homens sem escrúpulos. 

«O mundo, após 1865, transformou-se num mundo de banqueiros». Entrou-se na «era da lantejoula», a era do orgulho, do luxo e do egoísmo provocante dos privilegiados da fortuna. 

É então que se criam as lendárias fortunas da América. 

A América entrava na «era dourada». 

Os homens que ascenderam ao poder económico, depois da guerra, queriam, por um lado, que que a sociedade deixasse ao indivíduo a maior liberdade possível e, por outro, que essa mesma sociedade protegesse os seus interesses pessoais de maneira mais eficaz. Mostravam-se nos negócios, isentos de todos os preconceitos, mas mostravam-se devotos na igreja. Veneravam o dólar, mas, se por acaso abriam algum livro, era, na maior parte das vezes, a Bíblia. 

Os próprios políticos lhes pareciam pessoas inferiores; do presidente ao mais insignificante funcionário, todos tinham de respeitar os industriais e interpretar as leis segundo as exigências do big business. 

O ideal dos Americanos, após a guerra civil, consistia na fortuna. 

A política não ocupa o primeiro lugar na história da América durante a segunda metade do século XIX. A história da América nessa época é a história, não dos seus presidentes, mas dos reis – os reis do dólar. 

A história da América de então é a história dos caminhos-de-ferro e o «Wild West». A história do petróleo e de John D. Rockefeller. A história de Andrew Carnegie, o rei do aço. A história do banqueiro  John Pierpont Morgan.