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15/10/18

HISTÓRIA DE ROMA: AS RELIGIÕES NO IMPÉRIO - O CRISTIANISMO



HISTÓRIA DE ROMA: O CRISTIANISMO

«Eles devem o seu nome a um certo Cristo que foi condenado à morte por Pôncio Pilatos, no reinado de Tibério.» já nesta primeira referência ao cristianismo, devido a Tácito, se percebe a razão por que a doutrina cristã era mais forte do que os sistemas religiosos concorrentes.
Havia outras religiões com a sua origem num acontecimento de origem divina ocorrido na noite dos tempos. Mas Cristo era «o Filho do Homem»; o milagre da sua ressurreição deu-se durante o reinado de Tibério, no proconsulado de Pôncio Pilatos. A grande promessa de uma beatitude eterna para aqueles que seguissem Cristo causou nos espíritos muma impressão irresistível. Além disso, havia outra coisa que deve ter exercido uma influência muito mais profunda do que hoje podemos imaginar: Jesus podia regressar à Terra a todo o momento «para nela julgar os vivos e os mortos». A força visionária do Apocalipse de S. João e a inabalável convicção dos evangelistas elevaram a fé dos primeiros cristãos a um ponto tal que lhes permitia ultrapassar todos os perigos terrestres. O Mestre estava sempre perto do crente, e não só no exercício do culto, como no seio da comunidade. O cristianismo oferecia o «poder do Espírito Santo» e a proximidade de Deus; as outras religiões de mistério apenas facultavam uma experiência religiosa efémera, só possível, de tempos a tempos, por intermédio de «operações sacramentais».
Santo Agostinho chamou a atenção para o facto de a religião cristã nunca ter deixado de existir desde a origem do género humano.
Cristo proclamara por várias vezes a sua fidelidade à lei dos Hebreus. O primeiro mandamento de Jesus é também o de Israel: «Amarás pois o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder». É o maior e o primeiro mandamento. A lei do amor ao próximo fora formulada no tempo de Moisés; Cristo deu-lhe simplesmente um aspecto mais positivo: «Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós próprios… O meu mandamento é que vos ameis uns aos outros como eu vos amei a vós.»
O que Jesus censurara aos fariseus e provocara o ódio destes era o seu excessivo apego à letra da lei e a sua falta de profundidade espiritual. Deus de quem tinham feito uma entidade longínqua e vingadora, foi apresentado por Jesus como o Pai infinitamente bom e preocupado com o mais ínfimo de todos os seus.
Os apóstolos escolhidos por Cristo tinham começado imediatamente as suas pregações.
O sinédrio judaico, que pretendera e conseguira que Jesus Cristo fosse condenado, tentou opor-se à difusão da sua religião e organizou perseguições. O diácono Estêvão foi selvaticamente lapidado pelos Judeus poucos meses após o Cálvário. Foi o primeiro mártir.
Entre os perseguidores dos primeiros cristãos distinguia-se um judeu chamado Saul pelos seus irmãos de raça e Paulo pelos greco-romanos. Um dia quando se dirigia a Damasco converteu-se milagrosamente e desde essa altura tornou-se um dos mais ardentes propagandistas da fé cristã. Fundou em Corinto uma comunidade que depressa haveria de ter em Roma uma comunidade-filha. Quando veio a Roma, veio como prisioneiro, enviado pelas autoridades romanas em Jerusalém, a fim de ser julgado pelo imperador, após nosw judeus ortodoxos terem ameaçado lapidá-lo por haver introduzido pagãos no templo.  Segundo a tradição Paulo morreu mártir, tendo sido decapitado. S. João, o autor do quarto Evangelho, do Apocalipse e de três epístolas, evangelizou sobretudo na Ásia Menor. Foi preso e supliciado no reinado de Domiciano, mas morreu de morte natural em Éfeso, já de avançada idade. Além de se referirem aos apóstolos, os escritos do Novo Testamento mencionam o nome de dezenas de eclesiásticos e de laicos que, sob a direcção de bispos instalados nas grandes cidades, difundiram a doutrina de Cristo.
O Império Romano oferecia um terreno quase preparado para a expansão do cristianismo. A pax romana permitia a livre circulação por todos os lugares e por toda a parte os homens esperavam da religião alguma coisa mais que as cerimónias de um culto oficial em que nem mesmo acreditavam aqueles por quem era celebrado. As religiões orientais, centradas no Além, tinham conhecido uma grande voga em Roma e no império.
O cristianismo correspondia às aspirações da alma humana, à sua inquietude perante a morte, ao seu desgosto em face das torpezas morais do paganismo. Como proclamava a igualdade dos homens perante Deus, encontrou os seus primeiros adeptos entre aqueles a quem a sociedade humilhava – os pobres - e aqueles a quem ela considerava como animais – os escravos. Estes últimos tomaram, acaso pela primeira vez, no exercício do culto e na vida comunitária, consciência da sua dignidade humana. A base da doutrina é a mensagem de Cristo dirigida a todos os homens, ricos ou pobres, escravos ou livres. A salvação é oferecida a todos.
Foi por isto que os primeiros cristãos recusaram com uma firmeza quase sobre-humana, trair o seu Senhor, e Salvador. Os oprimidos impressionaram-se. O martírio era o seu triunfo, a alegria de poderem sofrer com e por Cristo e a perspectiva de uma beatitude eterna tornaram-nos insensíveis a todas as dores.
Assim a nova religião operou maravilhas. E o facto causou nos pagãos uma impressão indelével. Segundo a expressão de Tertuliano “o sangue dos mártires foi a semente da Igreja”. Uma força interior habitava estes mártires: a que é dada pela Fé e pelo amor ao próximo. A religião cristã dava esperança e consolação a todos aqueles que se dobravam sob o peso das dificuldades da sua existência e das suas faltas. Quando se sabe quanto os oprimidos tinham de sofrer nesse tempo, compreende-se o atractivo de uma religião que permitia a estes infelizes elevarem-se a uma nova visão do mundo e lhes dava uma razão de viver e de morrer.
Em contrapartida, durante muito tempo, os ricos e os poderosos permaneceram cépticos relativamente ao cristianismo. O preceito «ama o próximo como a ti mesmo» não os atraía.

12/09/18

As Religiões no Império Romano


As Religiões no Império Romano

A primeira religião oriental que chegou a Roma foi a do culto da deusa Cibele e do seu amante Átis – um par divino da mesma natureza que os deuses adorados em templos na Grécia minóica. Cibele, chamada a grande mãe, simbolizava a fecundidade e a força da natureza. Quando do pânico criado pela segunda guerra púnica, o Senado decidiu que o velho Panteão romano precisava de reforços. Foram consultados os livros sibilinos e, em seguida, enviou-se uma embaixada ao rei de Pérgamo, na Ásia Menor. O potentado aceitou, como um favor especial feito aos Romanos, enviar a Roma o velho símbolo do culto primitivo de Cíbele, uma pedra meteorítica preta, a qual foi colocada, primeiramente, no templo da Vitória, no monte Palatino, mais tarde, os Romanos construíram um templo em honra desta deusa. A importação de uma nova religião era um sinal dos tempos, os romanos começavam a adquirir um horizonte internacional. Mas o Senado tomou o cuidado de impedir que os cidadãos romanos participassem no verdadeiro exercício deste culto – na realidade, demasiado exótico e que era preferível reservar para sacerdotes vindos da Frígia. Com efeito, os fiéis eram aspergidos com o sangue das vítimas que deviam purificar o homem dos seus pecados e torná-lo imortal.

De uma natureza completamente diferente era o culto de Ísis, «a mais civilizada das religiões bárbaras». Tinha também a sua origem em antiquíssimas crenças religiosas referentes às ceifas e à alternância das estações. Ísis era oriunda do Egipto. Entrou cedo em Roma. O seu grande santuário de Roma foi construído durante o reinado de Calígula. No centro do culto encontrava-se Ísis, a deusa mãe que tinha ao colo o seu filho Osíris. O culto prestado a Ísis tinha grandeza, com os seus sacerdotes barbeados e envergando vestes de imaculada brancura. Pela penitência e pela purificação (de natureza material, é certo), o ritual místico conduzia à comunhão com a divindade e a uma espécie de ressurreição espiritual.

Mais tarde, sobretudo no século III, apareceram por todo o Império Romano algumas divindades masculinas. Estava-se no tempo dos imperadores-soldados, um período de guerras permanentes; a situação prestava-se bastante ao aparecimento duma crença própria para impressionar as legiões. A forma mais simples dessa crença, estabelecida para agradar aos imperadores-soldados, era o culto do Sol Invictus, o Sol invencível. Esta divindade toda poderosa e triunfante, que estendia a sua mão sobre Roma e as suas legiões, estava identificada com o imperador. Não pode chamar-se ao culto do Sol Invictus uma religião no sentido mais elevado do termo (que pressupõe uma relação entre o crente e a divindade), mas antes um compromisso entre a religião de estado e a propaganda imperial. Desde César que os grandes senhores do império eram, após a sua morte, adorados como deuses; no entanto os Romanos resistiram tanto quanto foi possível, à divinização em vida dos imperadores.
No Oriente a situação era diferente. Os Egípcios, por exemplo, não podiam levar a sério um soberano que não fosse, ao mesmo tempo, um deus. Ignorar esta tradição teria sido uma grave falta política. Quanto mais cosmopolita se tornava o Império Romano, mais os Orientais e as ideias orientais penetravam nas províncias ocidentais e até em Roma e mais o culto do imperador ganhava terreno. No século III já ninguém protestava, nenhum velho romano fazia ouvir a sua irritada voz. Nesta época o culto do imperador era muito mais do que uma manifestação de ambição autocrática. O império atravessava uma crise. A adoração votada ao chefe do estado como se fosse uma divindade exprimia a submissão. Décio e Diocleciano não podiam permitir-se a mínima tolerância para com esses sectários chamados cristãos e que se recusavam a adorar a imagem do imperador. Por isso o i9mperador divinizado veio a acrescentar-se às divindades que o cristianismo tinha de combater.

Um outro deus-soldado, Mitra, impôs-se igualmente aos homens desse tempo, e de uma maneira também diferente. Mitra estava muito próximo do Sol Invencível e o seu culto foi favorecido pelos imperadores, a partir de Cómodo. Quis a sorte, ironicamente, que fosse um imperador perverso e sádico a dar à religião de Mitra a sua posição predominante em Roma.
Mitra chegou, sem dúvida, ao mundo romano através da Pérsia, o país de Zaratrusta. Os persas viram nele o intermediário entre as potencias celestes de Ormuzd e as potencias maléficas de Arimânio. É por isso que Mitra está próximo do homem no combate entre o bem e o mal. O mito conta que Mitra foi um poderoso guerreiro e caçador que combateu o deus-sol e, em seguida, se tornou seu amigo. Na aurora do mundo capturou o grande touro que simboliza aquele. Sacrificou o touro por ordem do deus-sol; desta oferenda saíram o novo mundo e todos os seres vivos.
Os adeptos de Mitra eram obrigados a lutar do lado do bem contra o mal; a sua doutrina ensinava as boas obras e o perdão. A iniciação na comunidade Mitra comportava sete graus e cada um deles possuía o seu cerimonial próprio. Um ritual impressionante e característico fazia do impetrante o soldado da divindade. A cerimónia terminava pela entrega duma coroa – a distinção honorífica mais apreciada dos legionários -, que devia ser recusada. A honra cabia ao deus. O culto de Mitra facultava a estes soldados mal educados um ideal cavalheiresco. O sentido do dever e a disciplina eram exaltados como as virtudes mais perfeitas. O programa religioso do culto de Mitra tinha um pronunciado carácter viril.

Como se comportavam os velhos deuses olímpicos na época imperial? Oficialmente mantinham a sua posição privilegiada; nos veneráveis templos antigos conservavam-se como os guardas da tradição. Mas já não preenchiam essa função na vida religiosa do povo, enquanto as classes dirigentes há muito procuravam o seu suporte espiritual nos sistemas filosóficos, como sejam as doutrinas dos cépticos, dos epicuristas e dos estóicos.
Baco – o Dionísio dos Gregos – era uma excepção, não como deus do vinho, mas como representante de todos os aspectos vivos e férteis da natureza. O culto de Baco conciliava-se perfeitamente com as novas religiões orientais. Tinha o princípio da expressão pessoal dos sentimentos místicos; pela êxtase, o iniciado podia aproximar-se da divindade.

O que caracterizava então as religiões populares da época imperial, contra as quais o cristianismo tinha de lutar? O que é que lhes permitia impor-se aos espíritos? O que é que as diferençava do culto prestado aos deuses do Olimpo?
Em primeiro lugar eram religiões de mistério. Numa religião de mistério os fiéis formam uma comunidade fechada e os novos adeptos penetram nela após iniciação segundo um cerimonial particular. A iniciação comporta várias fases e atinge o seu ponto culminante no contacto pessoal com a divindade. O homem procura nestas religiões de mistério o meio de se elevar acima do terrestre, de ultrapassar a morte, de se garantir a vida eterna. Um culto é sempre enobrecido pelo desejo de eternidade, mesmo num culto de natureza tão grosseira como o prestado a Cibele. Na antiga religião, o reino de Hades não podia atrair ninguém. Mas a própria morte não punha termo ao alegre cortejo de Dionísio; a alma humana que, durante a sua vida terrestre, se tinha consagrado a Dionísio podia esperar uma participação no poder divino e, assim, vencer a morte.
Existiam outras religiões de mistério, outras vias que conduziam à vida eterna. Havia muitas pessoas que confiam em Hermes, o guia das almas. Os velhos mistérios gregos de Elêusis que se ligavam às deusas do trigo Deméter e Cora (Perséfona) atraíram grandes multidões durante toda a antiguidade. Sila, Cícero e os melhores imperadores romanos contavam-se entre os seus iniciados. Outros, ainda, faziam de Orfeu o seu profeta. Os restos dos sarcófagos dos séculos II e III que chegaram até nós, mostram-nos o desejo de imortalidade representado por mil símbolos. O norte-africano Apuleio, romancista dos últimos tempos da Antiguidade e fervoroso adorador de Ísis deixou-nos um esplêndido exemplo de lenda baseada no desejo de imortalidade surgido nessa época, na história de Amor e Psiqué. Amor, o deus do amor, ama Psiqué, uma princesa mortal. Os dois amantes estão separados e Psiqué tem de empreender uma viagem longa e perigosa, mas o amor fá-la triunfar de todas as privações até poder reunir-se ao seu apaixonado em núpcias celestes. Psiqué significa «calma»; em centenas de sarcófagos encontramos a pequena Psiqué a voar ao encontro de Amor, simbolizando assim o amor, um sentimento que para os romanos, vencia todos os perigos, mesmo amorte, e fazia a alma humana participar na vida eterna.
(Carl Grimberg)

– Os primeiros cristãos –


HISTÓRIA DE ROMA: A RELIGIÃO
– Os primeiros cristãos –
Na descrição feita por Tácito das perseguições ordenadas por Nero contra os primeiros cristãos encontra-se a primeira referência dos historiadores antigos ao cristianismo. Data de cerca do ano 100 e começa assim:
«Nenhum recurso humano, nem larguezas principescas, nem cerimónias expiatórias faziam recuar o boato infamante segundo o qual o grande incêndio fora ordenado. Por isso, para desfazer a acusação, Nero considerou culpados e infligiu refinados tormentos àqueles que se tornaram detestados pelas suas abominações e a quem o vulgo chamava cristãos. Este termo vem de Cristo, a quem, no tempo de Tibério, o procônsul Pôncio Pilatos entregara ao suplício. Imediatamente reprimida, esta detestável superstição ressurgiu, não só na Judeia, onde nascera o mal, mas também em Roma, onde tudo o que há de medonho e vergonhoso no mundo acorre e encontra uma numerosa clientela.»

Quando menciona estes «crimes» cometidos pelos cristãos, Tácito torna-se, sem dúvida, intérprete dos boatos que circulavam em Roma, segundo os quais as comunidades cristãs sacrificavam homens no decurso das suas cerimónias rituais e lhes comiam a carne; estas horríveis narrativas provinham duma má interpretação, por parte dos pagãos, da doutrina cristã e, em particular, da presença na eucaristia do corpo e do sangue de Jesus.
Não há fontes mais antigas a respeito do maior movimento espiritual do mundo; e o facto não é devido exclusivamente às destruições provocadas pelo tempo. A razão é simples: durante muito tempo, os cristãos foram considerados uma pequena seita religiosa sem importância. Aliás, as suas fileiras eram constituídas por sobretudo por humildes pescadores e outras pessoas de condição modesta, pouco habituadas a manejar a pena. Durante esse período, a doutrina cristã e a história das comunidades transmitiram-se oralmente. Quando foi preciso fixar um ou outro ponto do Novo Testamento, era geralmente utilizado um grego muito elementar, que era a língua veicular mais corrente.
Esta simplicidade foi reforçada pelo estilo concreto, imagístico e realista das narrações evangélicas. A sua linguagem é tão simples e clara que pode ser compreendida por todos. No decorrer dos tempos, este «livro popular» tornou-se o livro de todos os povos. Nenhum outro foi publicado com tão grande número de exemplares nem traduzido em tantas línguas.
No reinado do imperador Tibério, Jesus da Nazaré levou a sua mensagem a multidões atentas nas margens do lago de Genesaré; profetizava um reino que «não seria deste mundo», mas que uniria todos os povos da Terra numa fraternidade espiritual. Somente alguns anos depois da morte do Mestre, que se julga ter ocorrido por volta dos anos 30, é que o Evangelho chegou à cidade das sete colinas.
Num mundo de crueldade e desprezo pela pessoa humana – muito particularmente pelos escravos e gladiadores – levantou-se subitamente uma voa «Ama o próximo como a ti mesmo!»
Quem teria podido supor então que a perniciosa superstição dos pobres cristãos, como dizia Tácito, se iria estender um dia a quase todo o mundo romano e marcar na história do mundo o início de uma nova era? Durante muito tempo, o cristianismo, para o romano médio, não foi mais que uma dessas numerosas religiões orientais que invadiram o país ao mesmo tempo que o helenismo e, inicialmente, uma das menos notáveis.
(Carl Grimberg)

12/03/18

GRANDES ACONTECIMENTOS DA HISTÓRIA - A REFORMA PROTESTANTE

A REFORMA

O século XVI foi marcado, no plano religioso, por uma cisão muito grave no seio do Cristianismo: a Reforma.
Esta separação implicou para uma parte da Europa o afastamento da obediência ao papa e aos dogmas da Igreja de Roma.
Os antecedentes da Reforma estão na natural perturbação nas consciências católicas provocada com a deslocação do papado para Avinhão a que se seguiu o Grande Cisma do Ocidente, no mal estar económico e social proveniente da Guerra dos Cem Anos e da peste negra que a todos afectou e nos muitos abusos e maus exemplos dos quadros directivos da Igreja.
Os papas viviam como autênticos príncipes laicos, preocupando-se mais com a diplomacia italiana e a guerra constante, onde muitas vezes intervinham, do que com os problemas espirituais da Cristandade.
No período renascentista, Alexandre VI, Júlio II e Leão X, apaixonados pela arte, protegiam os artistas e sustentavam cortes faustosas, luxos que mantidos com os numerosos impostos eclesiásticos que eram cada vez mais mal recebidos.
Os mais altos cargos da Igreja, que implicavam importância política e rendimentos consideráveis, nem sempre eram convenientemente preenchido. Disputavam-nos os reis, os príncipes e os grandes senhores que neles queriam colocar familiares e amigos. Era também vulgar os bispos e os abades acumularem várias dioceses ou abadias sem nelas residir. A simonia (venda de bens espirituais) era igualmente habitual. O baixo clero, mal dirigido e abandonado, era ignorante e rude.
Os humanistas, cujo movimento estava em grande crescimento e que no século XVI se estendia a toda a Europa, reagiam contra a teologia ensinada nas universidades. O humanismo cristão sonhava com uma religião purificada e simples, liberta de rituais. só a Bíblia e sobretudo os Evangelhos deveriam de servir de base  à meditação pessoal que conduziria a uma fé mais viva e confiante.
A perspectiva dos humanistas encontrava eco em grande número de consciências. A necessidade de uma vasta reforma era de todos sentida e desejada.


13/05/17

Prisca Theologica



A Igreja Católica, uma das maiores instituições que floresceram no âmago da civilização ocidental foi durante cerca de treze séculos a grande responsável pelo lento progresso da humanidade.
A partir do final do século XIV, o esforço secular, humanista e intelectual da Renascença, produziu aquilo a que Engels chamou «a maior revolução progressista que a Humanidade já viveu» dando origem a uma nova era de humanismo e reforma, juntamente com o interesse pela ciência, pela medicina e pela filosofia, amplamente auxiliada pela invenção, no séc. XV, da prensa móvel e da impressão de livros (somente em século e meio, de 1450 a 1600, o número de livros existentes no mundo, passou de menos de trinta mil, todos eles escritos à mão, para mais de cinquenta milhões de livros impressos).
Opondo-se ao pensamento humano em ascensão, caminhava o Catolicismo iníquo. A igreja Romana amordaçava com determinação a expressão pública das ideias radicais e perseguia energicamente os autores de qualquer filosofia diferente. Embora sustentassem a proliferação de um conhecimento teológico autorizado entre as classes privilegiadas e cultas, num sentido mais lato, os chefes da igreja eram instintivamente anti-intelectuais e deliberadamente obscurantistas. Para que os cardeais continuassem a preservar acerrimamente a sua existência terrena privilegiada, quanto menos os leigos soubessem, melhor.
Poucos duvidam que no princípio, a fé cristã se tenha pautado pela lisura, mas as aspirações humanas depressa foram corrompidas pela instituição e a Igreja afundou-se rapidamente num atoleiro de corrupção.
Quando os filósofos começaram a aprofundar os seus estudos do funcionamento do universo e a «ciência» indutiva substituiu o raciocínio dedutivo, tornou-se claro que a ortodoxia da Igreja fornecia modelos inadequados e paradigmas duvidosos, tornando irreconciliável o que era observável e quantificável com a teologia apresentada.
Esta incompatibilidade entre os pensadores do fim do renascimento e os teólogos cristãos ortodoxos tem as suas raízes em tempos mais antigos, remontando o conflito aos primórdios do predomínio cristão: ao primeiro Concílio de Niceia.
No ano 325, o Imperador Constantino, o mentor da civilização ocidental, viu-se imerso no conflito teológico, inundado por questões doutrinárias, tendo que se defrontar com um dos maiores desafios da sua governação. A causa de tudo isto foi apenas uma. A doutrina escrita da fé cristã fornecera um modelo para o estabelecimento de uma Igreja e autorizara os líderes cristãos a encontrarem as bases para uma nova sociedade num ambiente político extremamente frágil, criado pelo rápido declínio de Roma. Porém os bispos da Igreja, homens extremamente poderosos neste novo mundo cristão, debatiam entre si alguns dos princípios basilares da fé, questões que não estavam claramente definidas nos Evangelhos, nem haviam sido expostas em termos adequados nos textos sagrados desta doutrina. E, neste mundo instável, as questões da doutrina religiosa podiam revelar-se incendiárias, podendo mesmo desencadear uma hecatombe global que consumiria indistintamente imperadores, reis e papas.
Deste modo, num enorme esforço de conservação do seu domínio sobre o tecido político e religioso do seu tempo, Constantino convocou uma imensa assembleia com padres da Igreja e políticos regionais com o propósito de solucionar o problema a favor do Cristianismo, uma doutrina definida por ditames muito estritos que de facto enterraria as questões difíceis e responderia às que encerravam menores dificuldades. Desta forma, um consenso travaria o avanço rápido para a separação entre a Igreja e o Estado e atrairia os rebeldes para um tipo comum de veneração.
Foi então em 325 da nossa era que muitos dos que são hoje considerados os pressupostos fundamentais da Igreja foram idealizados e concebidos para os homens por outros homens que se faziam substituir a Deus. Em Niceia os seus membros foram ao âmago da doutrina e da religião cristã. A consequência mais importante extraída da apreciação dos inúmeros pontos doutrinários  ao longo de muitas sessões de debate foi a enorme influência que teve no percurso do cristianismo e por meio dele, nas vidas e nas ideias de muitos pensadores conceituados desde o século IV até aos nossos dias.
Os membros do concílio decidiram sobre a verdadeira natureza de Deus.
Na tentativa de conceberem uma noção inteligível de Deus, redigiram a sua própria teologia, para que fosse simultaneamente académica e de fácil entendimento pelos que não tinham instrução. Esta doutrina, a par do conceito da Santíssima Trindade, foi criada e votada. Deste modo, ficou determinado que o único Deus era Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai , ou «soberano», transcende todos os limites finitos e é imortal e omnipotente. Jesus Cristo tornou-se muitíssimo mais importante do que um mero profeta com poderes conferidos por Deus e ascendeu ao estatuto de «Filho de Deus», ou de «Palavra feita carne», divindade encarnada. O terceiro elemento, o Espírito Santo, representa a centelha divina em todos os crentes, e é outra forma de expressar a fé ou santidade. Deste modo, para os Católicos, a Eucaristia tornou-se uma transubstanciação genuína na qual a carne e o sangue do próprio Jesus são consumidos.
Esta posição radical ficou conhecida como a doutrina de homoousios (de uma única substância) e foi gerada a partir do argumento pseudo-intelectual dos teólogos do século IV, ansiosos por encontrarem uma definição de Deus. A questão muito debatida da natureza de Deus ocupara o centro da discussão entre os bispos. De um lado estava o Bispo de Alexandria, Atanásio, de trinta anos, que pregava a ortodoxia, ao passo que uma opinião muito diferente era defendida por Ário, um sacerdote rebelde de Alexandria, à época com setenta e sete anos de idade. Ário criara a seita do Arianismo, edificada em torno do homoiousos (de substância idêntica), que rejeitava a noção de que Cristo era da mesma substância de Deus, e declarava que a encarnação de Jesus não era um aspecto de Deus, mas que o Filho, enquanto que divino e idêntico a Deus («de substância idêntica»), fora criado por Ele. Ário disse de Jesus Cristo "Houve um tempo em que ele não existiu". Constantino, permitiu que o concelho deliberasse a favor de Eutanásio e da sua doutrina e de então em diante, o Arianismo passou a ser concebido como doutrina oposta aos ensinamentos cristãos oficiais. Muitos ignoraram esta decisão e, de facto, o Arianismo floresceu nos primeiros dois séculos seguintes ao Concílio de Niceia, mas, por volta do século VI, os seus adeptos foram marginalizados e perseguidos quase até à extinção e o Arianismo tornou-se secreto, sendo rapidamente encarado pelos Católicos como a maior doutrina herética.
Durante a época medieval a Igreja de Roma tornou-se cada vez mais política e mundana, fundindo o espiritual com o secular por forma a que o papa se tornasse tanto o chefe de um estado soberano como um líder espiritual. Para financiar ambições pontifícias, a Igreja comprometeu amplamente a teologia, e quando a sua doutrina fabricada se revelou inadequada, os cardeais forçaram a interpretação das escrituras até ao limite.
Talvez a expressão mais evidente disto seja a utilização cada vez mais generalizada das «indulgências» para encherem os cofres do Papa. Através do sistema das indulgências, os pecadores podiam pagar a absolvição dos seus pecados e sucessivos papas perverteram de tal modo este processo que, na época da Reforma, este simples artifício tornara-se já uma importante fonte de rendimento do Vaticano. O frade Johann Tetzel, viajou pela Europa a vender indulgências à populaça a partir de uma banca instalada na praça de cada cidade que visitava. Até vendeu indulgências absolvendo pecados antes mesmo de serem cometidos. Com este artifício, um assassino podia receber a absolvição antes mesmo de cometer aquele acto criminoso.
Mas nem todo o dinheiro ganho com este negócio (que passou por inúmeros soberanos) foi usado no financiamento das aspirações políticas dos papas; muito deste «ouro dos pecadores» voltou a encher os cofres papais esvaziados com os gastos feitos em festins orgiásticos, especiarias raras, sedas finas e no serviço de prostitutas especializadas. Com isto, as indulgências do papa e dos seus cardiais preferidos de Roma foram pagas pelas indulgências do campesinato, apesar de todo este espectáculo deplorável ser sancionado por Deus.
À medida que se assistia a uma escalada desenfreada desta hipocrisia, Erasmo, um académico católico profundamente honesto, escreveu uma série de ataques mordazes dirigidos ao clero e revelou a clara disparidade entre «Verdade» e doutrina oficial. O seu livro «Elogio da Loucura» tornou-se tão popular que depressa foi traduzido em pelo menos uma dúzia de línguas.
A Santa Sé cimentara longamente a sua posição privilegiada mantendo os laicos na absoluta ignorância. Todos os textos religiosos, incluindo a Bíblia e o livro de orações, estavam disponíveis apenas em latim, sendo esta a língua usada nos serviços religiosos e na redacção de todos os documentos oficiais. Isto significava que a ampla maioria do povo não fazia a mais pequena ideia do que era dito na igreja ou transmitido pela sua doutrina.
De repente, na prosa de Erasmo, eram colocadas questões delicadas e em vernáculo e, com elas, a suspeição ao clero. Instigados por intelectuais e por membros do baixo clero, como Lutero e Calvino, os leigos começaram a pedir o esclarecimento da situação. A Igreja, inicialmente indolente e demasiado confiante ficou tão surpreendida que quase entrou em colapso. Apercebendo-se do perigo que a ameaçava, a Igreja reagiu com medidas drásticas com o objectivo que a Reforma de Lutero alastrasse a todo o norte da Europa. Numa tentativa de reeducação das massas, foi constituída, em 1534, por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus ou Jesuítas. O Concílio de Trento teve lugar em 1545 e reuniu-se depois, a intervalos irregulares, a fim de delinear a política papal para anular os ataques teológicos. Essa assembleia constituída por altas esferas da hierarquia da Igreja, decretaria o julgamento de Galileu, quase um século mais tarde e através da sua actuação arrastaria a Europa para a pior guerra religiosa da história, a Guerra dos Trinta Anos, iniciada em 1618.
Mas a decisão política mais controversa, tomada para conter a crescente vaga de protestantismo, pensamento científico e heresia, foi a criação da Inquisição Romana, instituída pelo papa Paulo III, em 1542, revitalizando a Inquisição Papal, instituída em 1231 por Gregório IX, com o objectivo de eliminar os Albigenses (ou Cátaros) e que já realizava o seu trabalho sangrento desde o século XIII. O seu dever oficial era investigar e reeducar, trazer almas perdidas de novo para a Santa Madre Igreja; mas, na verdade, a Inquisição era uma terrível arma de vingança, um mecanismo para matar. Esta organização exterminou mais de um milhão de homens, mulheres e crianças (à época, uma em cada duzentas pessoas existentes na Terra).
Paulo III decidindo ressuscitar a antiga instituição, deu-lhe corpo e conferiu-lhe poderes ainda mais draconianos, voltando forçando deliberadamente a interpretação das Escrituras para desculpar a enorme quantidade de castigos, que incluíam a confiscação de todas as terras e bens, prisão celular em isolamento e praticamente todos os tipos de crueldade física e mental. Grupos de investigadores treinados viajavam pelos diversos reinos da Europa a recolher informação sobre hereges suspeitos. O medo antecedia-os, e valiam-se de técnicas psicológicas subtis para o intensificar. Nos dias que antecediam a sua chegada eram afixados cartazes a anunciar a sua chegada iminente. O Inquisidor entrava na cidade acompanhado por uma procissão solene de monges encapuzados. Os espiões já tinham previamente identificado alguém detentor de conhecimentos heréticos e essas pessoas eram capturadas e levadas à presença do Inquisidor. A denúncia e a delação eram estimuladas. Se um transgressor conseguisse denunciar uma dúzia de suspeitos, os seus próprios pecados eram perdoados e era poupado à fogueira.
Para se fazer uma acusação de heresia bastava o testemunho de dois informadores. O suspeito ficava preso durante toda a fase de interrogatórios e a Inquisição nunca tinha pressa em terminar o seu trabalho. Muitas vítimas inocentes morreram no cárcere enquanto aguardavam que o Inquisidor avaliasse as suas confissões, outras eram torturadas até à morte, ou, desesperadas, confessavam crimes dos quais eram de facto inocentes e dos quais nada sabiam. Os informadores nunca eram identificados e os depoimentos que haviam feito em relação ao suspeito não eram revelados. Aos suspeitos era sempre recusado um advogado e as acções da Inquisição eram levadas a cabo no mais absoluto sigilo, assim, muitas vezes as vítimas simplesmente desapareciam.
Tal despotismo teve consequências na moldura social e política do mundo ocidental. Um retrato esclarecedor é o homicídio de cerca de 30.000 mulheres e muitas centenas de homens e crianças, entre 1500 e 1650. O crime destas vítimas não foi de facto nenhum. Apenas má sorte. Foram suspeitas de bruxaria, uma ironia bem amarga já que a Igreja rejeitava a noção do oculto.
Todavia, as seitas protestantes, na sequência da bem sucedida rebelião de Lutero, em muitos aspectos, não eram melhores do que os Católicos. À semelhança dos seus congéneres papistas, os líderes luteranos e calvinistas deixaram-se levar pelo interesse próprio e pela ilusão, e também eles se entregaram a orgias de violência e perseguições.
Uma das suas vítimas foi Miguel Servet, notável e talentoso médico que sustentou ideias religiosas perigosamente sinceras e as publicou em livro, em 1531, um tratado que clamava sem reservas o abandono do postulado conceito da Santíssima Trindade. Preso pela Inquisição vienense em 1533, conseguiu fugir para Genebra, o epicentro do Calvinismo, onde julgou encontrar refúgio. Mas Calvino também não gostou das suas ideias religiosas e em vez de refúgio, mandou que fosse preso, julgado e sentenciado à morte. Conta que a execução na fogueira o supliciou a uma morte muito lenta, tendo levado duas horas para o matar.
Mas semelhante crueldade foi apenas um aspecto como o extremo zelo religioso se tornou uma força destruidora. Extremistas de todas as comunidades religiosas mataram concidadãos seus, e a severidade e a paranóia impeliram nações inteiras para lutas violentas, rebeliões e finalmente a guerra.
Em 1562 eclodiram guerras civis em série, conhecidas como Guerras de Religião, que conduziram a um conflito europeu que durou 35 anos. Em Paris e noutras cidades importantes a fricção entre os Calvinistas franceses conhecidos por Huguenotes e os Cristãos originou um conflito que atingiu o seu clímax sangrento na dia do Massacre de S. Bartolomeu, a 24 de Agosto de 1572, quando cerca de setenta mil protestantes foram chacinados. A guerra civil levou mesmo ao assassínio do rei de França, Henrique III em 1589 e só em 1598 foi reposta uma certa ordem, com o Édito de Nantes, criado pelo corajoso e determinado Henrique IV, onde se declarava liberdade de consciência e igualdade de direitos legais e educacionais para os protestantes franceses.
Numa coluna, a devoção religiosa legou-nos obras magníficas. Enriquecem-nos os trabalhos de Giotto, Dante, Ticiano, Miguel Ângelo, Milton, Palestrina, Mozart, e muitos outros. Mas também temos de considerar a coluna dos débitos onde temos a caça às bruxas, os homens da Inquisição, as guerras religiosas, os atentados bombistas, as crianças mortas, o terrorismo.
O CONFLITO RELIGIOSO É TODAVIA RECRUDESCENTE.
PELO MUNDO FORA UMA FÉ CORRUPTA CONTINUA A ESPALHAR ANGÚSTIA.


(Apontamentos retirados e adaptados do livro "Giordano Bruno - O Filósofo Maldito", da autoria de Michael White)