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15/10/18

HISTÓRIA DE ROMA: AS RELIGIÕES NO IMPÉRIO - O CRISTIANISMO



HISTÓRIA DE ROMA: O CRISTIANISMO

«Eles devem o seu nome a um certo Cristo que foi condenado à morte por Pôncio Pilatos, no reinado de Tibério.» já nesta primeira referência ao cristianismo, devido a Tácito, se percebe a razão por que a doutrina cristã era mais forte do que os sistemas religiosos concorrentes.
Havia outras religiões com a sua origem num acontecimento de origem divina ocorrido na noite dos tempos. Mas Cristo era «o Filho do Homem»; o milagre da sua ressurreição deu-se durante o reinado de Tibério, no proconsulado de Pôncio Pilatos. A grande promessa de uma beatitude eterna para aqueles que seguissem Cristo causou nos espíritos muma impressão irresistível. Além disso, havia outra coisa que deve ter exercido uma influência muito mais profunda do que hoje podemos imaginar: Jesus podia regressar à Terra a todo o momento «para nela julgar os vivos e os mortos». A força visionária do Apocalipse de S. João e a inabalável convicção dos evangelistas elevaram a fé dos primeiros cristãos a um ponto tal que lhes permitia ultrapassar todos os perigos terrestres. O Mestre estava sempre perto do crente, e não só no exercício do culto, como no seio da comunidade. O cristianismo oferecia o «poder do Espírito Santo» e a proximidade de Deus; as outras religiões de mistério apenas facultavam uma experiência religiosa efémera, só possível, de tempos a tempos, por intermédio de «operações sacramentais».
Santo Agostinho chamou a atenção para o facto de a religião cristã nunca ter deixado de existir desde a origem do género humano.
Cristo proclamara por várias vezes a sua fidelidade à lei dos Hebreus. O primeiro mandamento de Jesus é também o de Israel: «Amarás pois o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder». É o maior e o primeiro mandamento. A lei do amor ao próximo fora formulada no tempo de Moisés; Cristo deu-lhe simplesmente um aspecto mais positivo: «Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós próprios… O meu mandamento é que vos ameis uns aos outros como eu vos amei a vós.»
O que Jesus censurara aos fariseus e provocara o ódio destes era o seu excessivo apego à letra da lei e a sua falta de profundidade espiritual. Deus de quem tinham feito uma entidade longínqua e vingadora, foi apresentado por Jesus como o Pai infinitamente bom e preocupado com o mais ínfimo de todos os seus.
Os apóstolos escolhidos por Cristo tinham começado imediatamente as suas pregações.
O sinédrio judaico, que pretendera e conseguira que Jesus Cristo fosse condenado, tentou opor-se à difusão da sua religião e organizou perseguições. O diácono Estêvão foi selvaticamente lapidado pelos Judeus poucos meses após o Cálvário. Foi o primeiro mártir.
Entre os perseguidores dos primeiros cristãos distinguia-se um judeu chamado Saul pelos seus irmãos de raça e Paulo pelos greco-romanos. Um dia quando se dirigia a Damasco converteu-se milagrosamente e desde essa altura tornou-se um dos mais ardentes propagandistas da fé cristã. Fundou em Corinto uma comunidade que depressa haveria de ter em Roma uma comunidade-filha. Quando veio a Roma, veio como prisioneiro, enviado pelas autoridades romanas em Jerusalém, a fim de ser julgado pelo imperador, após nosw judeus ortodoxos terem ameaçado lapidá-lo por haver introduzido pagãos no templo.  Segundo a tradição Paulo morreu mártir, tendo sido decapitado. S. João, o autor do quarto Evangelho, do Apocalipse e de três epístolas, evangelizou sobretudo na Ásia Menor. Foi preso e supliciado no reinado de Domiciano, mas morreu de morte natural em Éfeso, já de avançada idade. Além de se referirem aos apóstolos, os escritos do Novo Testamento mencionam o nome de dezenas de eclesiásticos e de laicos que, sob a direcção de bispos instalados nas grandes cidades, difundiram a doutrina de Cristo.
O Império Romano oferecia um terreno quase preparado para a expansão do cristianismo. A pax romana permitia a livre circulação por todos os lugares e por toda a parte os homens esperavam da religião alguma coisa mais que as cerimónias de um culto oficial em que nem mesmo acreditavam aqueles por quem era celebrado. As religiões orientais, centradas no Além, tinham conhecido uma grande voga em Roma e no império.
O cristianismo correspondia às aspirações da alma humana, à sua inquietude perante a morte, ao seu desgosto em face das torpezas morais do paganismo. Como proclamava a igualdade dos homens perante Deus, encontrou os seus primeiros adeptos entre aqueles a quem a sociedade humilhava – os pobres - e aqueles a quem ela considerava como animais – os escravos. Estes últimos tomaram, acaso pela primeira vez, no exercício do culto e na vida comunitária, consciência da sua dignidade humana. A base da doutrina é a mensagem de Cristo dirigida a todos os homens, ricos ou pobres, escravos ou livres. A salvação é oferecida a todos.
Foi por isto que os primeiros cristãos recusaram com uma firmeza quase sobre-humana, trair o seu Senhor, e Salvador. Os oprimidos impressionaram-se. O martírio era o seu triunfo, a alegria de poderem sofrer com e por Cristo e a perspectiva de uma beatitude eterna tornaram-nos insensíveis a todas as dores.
Assim a nova religião operou maravilhas. E o facto causou nos pagãos uma impressão indelével. Segundo a expressão de Tertuliano “o sangue dos mártires foi a semente da Igreja”. Uma força interior habitava estes mártires: a que é dada pela Fé e pelo amor ao próximo. A religião cristã dava esperança e consolação a todos aqueles que se dobravam sob o peso das dificuldades da sua existência e das suas faltas. Quando se sabe quanto os oprimidos tinham de sofrer nesse tempo, compreende-se o atractivo de uma religião que permitia a estes infelizes elevarem-se a uma nova visão do mundo e lhes dava uma razão de viver e de morrer.
Em contrapartida, durante muito tempo, os ricos e os poderosos permaneceram cépticos relativamente ao cristianismo. O preceito «ama o próximo como a ti mesmo» não os atraía.

12/09/18

As Religiões no Império Romano


As Religiões no Império Romano

A primeira religião oriental que chegou a Roma foi a do culto da deusa Cibele e do seu amante Átis – um par divino da mesma natureza que os deuses adorados em templos na Grécia minóica. Cibele, chamada a grande mãe, simbolizava a fecundidade e a força da natureza. Quando do pânico criado pela segunda guerra púnica, o Senado decidiu que o velho Panteão romano precisava de reforços. Foram consultados os livros sibilinos e, em seguida, enviou-se uma embaixada ao rei de Pérgamo, na Ásia Menor. O potentado aceitou, como um favor especial feito aos Romanos, enviar a Roma o velho símbolo do culto primitivo de Cíbele, uma pedra meteorítica preta, a qual foi colocada, primeiramente, no templo da Vitória, no monte Palatino, mais tarde, os Romanos construíram um templo em honra desta deusa. A importação de uma nova religião era um sinal dos tempos, os romanos começavam a adquirir um horizonte internacional. Mas o Senado tomou o cuidado de impedir que os cidadãos romanos participassem no verdadeiro exercício deste culto – na realidade, demasiado exótico e que era preferível reservar para sacerdotes vindos da Frígia. Com efeito, os fiéis eram aspergidos com o sangue das vítimas que deviam purificar o homem dos seus pecados e torná-lo imortal.

De uma natureza completamente diferente era o culto de Ísis, «a mais civilizada das religiões bárbaras». Tinha também a sua origem em antiquíssimas crenças religiosas referentes às ceifas e à alternância das estações. Ísis era oriunda do Egipto. Entrou cedo em Roma. O seu grande santuário de Roma foi construído durante o reinado de Calígula. No centro do culto encontrava-se Ísis, a deusa mãe que tinha ao colo o seu filho Osíris. O culto prestado a Ísis tinha grandeza, com os seus sacerdotes barbeados e envergando vestes de imaculada brancura. Pela penitência e pela purificação (de natureza material, é certo), o ritual místico conduzia à comunhão com a divindade e a uma espécie de ressurreição espiritual.

Mais tarde, sobretudo no século III, apareceram por todo o Império Romano algumas divindades masculinas. Estava-se no tempo dos imperadores-soldados, um período de guerras permanentes; a situação prestava-se bastante ao aparecimento duma crença própria para impressionar as legiões. A forma mais simples dessa crença, estabelecida para agradar aos imperadores-soldados, era o culto do Sol Invictus, o Sol invencível. Esta divindade toda poderosa e triunfante, que estendia a sua mão sobre Roma e as suas legiões, estava identificada com o imperador. Não pode chamar-se ao culto do Sol Invictus uma religião no sentido mais elevado do termo (que pressupõe uma relação entre o crente e a divindade), mas antes um compromisso entre a religião de estado e a propaganda imperial. Desde César que os grandes senhores do império eram, após a sua morte, adorados como deuses; no entanto os Romanos resistiram tanto quanto foi possível, à divinização em vida dos imperadores.
No Oriente a situação era diferente. Os Egípcios, por exemplo, não podiam levar a sério um soberano que não fosse, ao mesmo tempo, um deus. Ignorar esta tradição teria sido uma grave falta política. Quanto mais cosmopolita se tornava o Império Romano, mais os Orientais e as ideias orientais penetravam nas províncias ocidentais e até em Roma e mais o culto do imperador ganhava terreno. No século III já ninguém protestava, nenhum velho romano fazia ouvir a sua irritada voz. Nesta época o culto do imperador era muito mais do que uma manifestação de ambição autocrática. O império atravessava uma crise. A adoração votada ao chefe do estado como se fosse uma divindade exprimia a submissão. Décio e Diocleciano não podiam permitir-se a mínima tolerância para com esses sectários chamados cristãos e que se recusavam a adorar a imagem do imperador. Por isso o i9mperador divinizado veio a acrescentar-se às divindades que o cristianismo tinha de combater.

Um outro deus-soldado, Mitra, impôs-se igualmente aos homens desse tempo, e de uma maneira também diferente. Mitra estava muito próximo do Sol Invencível e o seu culto foi favorecido pelos imperadores, a partir de Cómodo. Quis a sorte, ironicamente, que fosse um imperador perverso e sádico a dar à religião de Mitra a sua posição predominante em Roma.
Mitra chegou, sem dúvida, ao mundo romano através da Pérsia, o país de Zaratrusta. Os persas viram nele o intermediário entre as potencias celestes de Ormuzd e as potencias maléficas de Arimânio. É por isso que Mitra está próximo do homem no combate entre o bem e o mal. O mito conta que Mitra foi um poderoso guerreiro e caçador que combateu o deus-sol e, em seguida, se tornou seu amigo. Na aurora do mundo capturou o grande touro que simboliza aquele. Sacrificou o touro por ordem do deus-sol; desta oferenda saíram o novo mundo e todos os seres vivos.
Os adeptos de Mitra eram obrigados a lutar do lado do bem contra o mal; a sua doutrina ensinava as boas obras e o perdão. A iniciação na comunidade Mitra comportava sete graus e cada um deles possuía o seu cerimonial próprio. Um ritual impressionante e característico fazia do impetrante o soldado da divindade. A cerimónia terminava pela entrega duma coroa – a distinção honorífica mais apreciada dos legionários -, que devia ser recusada. A honra cabia ao deus. O culto de Mitra facultava a estes soldados mal educados um ideal cavalheiresco. O sentido do dever e a disciplina eram exaltados como as virtudes mais perfeitas. O programa religioso do culto de Mitra tinha um pronunciado carácter viril.

Como se comportavam os velhos deuses olímpicos na época imperial? Oficialmente mantinham a sua posição privilegiada; nos veneráveis templos antigos conservavam-se como os guardas da tradição. Mas já não preenchiam essa função na vida religiosa do povo, enquanto as classes dirigentes há muito procuravam o seu suporte espiritual nos sistemas filosóficos, como sejam as doutrinas dos cépticos, dos epicuristas e dos estóicos.
Baco – o Dionísio dos Gregos – era uma excepção, não como deus do vinho, mas como representante de todos os aspectos vivos e férteis da natureza. O culto de Baco conciliava-se perfeitamente com as novas religiões orientais. Tinha o princípio da expressão pessoal dos sentimentos místicos; pela êxtase, o iniciado podia aproximar-se da divindade.

O que caracterizava então as religiões populares da época imperial, contra as quais o cristianismo tinha de lutar? O que é que lhes permitia impor-se aos espíritos? O que é que as diferençava do culto prestado aos deuses do Olimpo?
Em primeiro lugar eram religiões de mistério. Numa religião de mistério os fiéis formam uma comunidade fechada e os novos adeptos penetram nela após iniciação segundo um cerimonial particular. A iniciação comporta várias fases e atinge o seu ponto culminante no contacto pessoal com a divindade. O homem procura nestas religiões de mistério o meio de se elevar acima do terrestre, de ultrapassar a morte, de se garantir a vida eterna. Um culto é sempre enobrecido pelo desejo de eternidade, mesmo num culto de natureza tão grosseira como o prestado a Cibele. Na antiga religião, o reino de Hades não podia atrair ninguém. Mas a própria morte não punha termo ao alegre cortejo de Dionísio; a alma humana que, durante a sua vida terrestre, se tinha consagrado a Dionísio podia esperar uma participação no poder divino e, assim, vencer a morte.
Existiam outras religiões de mistério, outras vias que conduziam à vida eterna. Havia muitas pessoas que confiam em Hermes, o guia das almas. Os velhos mistérios gregos de Elêusis que se ligavam às deusas do trigo Deméter e Cora (Perséfona) atraíram grandes multidões durante toda a antiguidade. Sila, Cícero e os melhores imperadores romanos contavam-se entre os seus iniciados. Outros, ainda, faziam de Orfeu o seu profeta. Os restos dos sarcófagos dos séculos II e III que chegaram até nós, mostram-nos o desejo de imortalidade representado por mil símbolos. O norte-africano Apuleio, romancista dos últimos tempos da Antiguidade e fervoroso adorador de Ísis deixou-nos um esplêndido exemplo de lenda baseada no desejo de imortalidade surgido nessa época, na história de Amor e Psiqué. Amor, o deus do amor, ama Psiqué, uma princesa mortal. Os dois amantes estão separados e Psiqué tem de empreender uma viagem longa e perigosa, mas o amor fá-la triunfar de todas as privações até poder reunir-se ao seu apaixonado em núpcias celestes. Psiqué significa «calma»; em centenas de sarcófagos encontramos a pequena Psiqué a voar ao encontro de Amor, simbolizando assim o amor, um sentimento que para os romanos, vencia todos os perigos, mesmo amorte, e fazia a alma humana participar na vida eterna.
(Carl Grimberg)

– Os primeiros cristãos –


HISTÓRIA DE ROMA: A RELIGIÃO
– Os primeiros cristãos –
Na descrição feita por Tácito das perseguições ordenadas por Nero contra os primeiros cristãos encontra-se a primeira referência dos historiadores antigos ao cristianismo. Data de cerca do ano 100 e começa assim:
«Nenhum recurso humano, nem larguezas principescas, nem cerimónias expiatórias faziam recuar o boato infamante segundo o qual o grande incêndio fora ordenado. Por isso, para desfazer a acusação, Nero considerou culpados e infligiu refinados tormentos àqueles que se tornaram detestados pelas suas abominações e a quem o vulgo chamava cristãos. Este termo vem de Cristo, a quem, no tempo de Tibério, o procônsul Pôncio Pilatos entregara ao suplício. Imediatamente reprimida, esta detestável superstição ressurgiu, não só na Judeia, onde nascera o mal, mas também em Roma, onde tudo o que há de medonho e vergonhoso no mundo acorre e encontra uma numerosa clientela.»

Quando menciona estes «crimes» cometidos pelos cristãos, Tácito torna-se, sem dúvida, intérprete dos boatos que circulavam em Roma, segundo os quais as comunidades cristãs sacrificavam homens no decurso das suas cerimónias rituais e lhes comiam a carne; estas horríveis narrativas provinham duma má interpretação, por parte dos pagãos, da doutrina cristã e, em particular, da presença na eucaristia do corpo e do sangue de Jesus.
Não há fontes mais antigas a respeito do maior movimento espiritual do mundo; e o facto não é devido exclusivamente às destruições provocadas pelo tempo. A razão é simples: durante muito tempo, os cristãos foram considerados uma pequena seita religiosa sem importância. Aliás, as suas fileiras eram constituídas por sobretudo por humildes pescadores e outras pessoas de condição modesta, pouco habituadas a manejar a pena. Durante esse período, a doutrina cristã e a história das comunidades transmitiram-se oralmente. Quando foi preciso fixar um ou outro ponto do Novo Testamento, era geralmente utilizado um grego muito elementar, que era a língua veicular mais corrente.
Esta simplicidade foi reforçada pelo estilo concreto, imagístico e realista das narrações evangélicas. A sua linguagem é tão simples e clara que pode ser compreendida por todos. No decorrer dos tempos, este «livro popular» tornou-se o livro de todos os povos. Nenhum outro foi publicado com tão grande número de exemplares nem traduzido em tantas línguas.
No reinado do imperador Tibério, Jesus da Nazaré levou a sua mensagem a multidões atentas nas margens do lago de Genesaré; profetizava um reino que «não seria deste mundo», mas que uniria todos os povos da Terra numa fraternidade espiritual. Somente alguns anos depois da morte do Mestre, que se julga ter ocorrido por volta dos anos 30, é que o Evangelho chegou à cidade das sete colinas.
Num mundo de crueldade e desprezo pela pessoa humana – muito particularmente pelos escravos e gladiadores – levantou-se subitamente uma voa «Ama o próximo como a ti mesmo!»
Quem teria podido supor então que a perniciosa superstição dos pobres cristãos, como dizia Tácito, se iria estender um dia a quase todo o mundo romano e marcar na história do mundo o início de uma nova era? Durante muito tempo, o cristianismo, para o romano médio, não foi mais que uma dessas numerosas religiões orientais que invadiram o país ao mesmo tempo que o helenismo e, inicialmente, uma das menos notáveis.
(Carl Grimberg)

12/03/18

GRANDES ACONTECIMENTOS DA HISTÓRIA - A REFORMA PROTESTANTE

A REFORMA

O século XVI foi marcado, no plano religioso, por uma cisão muito grave no seio do Cristianismo: a Reforma.
Esta separação implicou para uma parte da Europa o afastamento da obediência ao papa e aos dogmas da Igreja de Roma.
Os antecedentes da Reforma estão na natural perturbação nas consciências católicas provocada com a deslocação do papado para Avinhão a que se seguiu o Grande Cisma do Ocidente, no mal estar económico e social proveniente da Guerra dos Cem Anos e da peste negra que a todos afectou e nos muitos abusos e maus exemplos dos quadros directivos da Igreja.
Os papas viviam como autênticos príncipes laicos, preocupando-se mais com a diplomacia italiana e a guerra constante, onde muitas vezes intervinham, do que com os problemas espirituais da Cristandade.
No período renascentista, Alexandre VI, Júlio II e Leão X, apaixonados pela arte, protegiam os artistas e sustentavam cortes faustosas, luxos que mantidos com os numerosos impostos eclesiásticos que eram cada vez mais mal recebidos.
Os mais altos cargos da Igreja, que implicavam importância política e rendimentos consideráveis, nem sempre eram convenientemente preenchido. Disputavam-nos os reis, os príncipes e os grandes senhores que neles queriam colocar familiares e amigos. Era também vulgar os bispos e os abades acumularem várias dioceses ou abadias sem nelas residir. A simonia (venda de bens espirituais) era igualmente habitual. O baixo clero, mal dirigido e abandonado, era ignorante e rude.
Os humanistas, cujo movimento estava em grande crescimento e que no século XVI se estendia a toda a Europa, reagiam contra a teologia ensinada nas universidades. O humanismo cristão sonhava com uma religião purificada e simples, liberta de rituais. só a Bíblia e sobretudo os Evangelhos deveriam de servir de base  à meditação pessoal que conduziria a uma fé mais viva e confiante.
A perspectiva dos humanistas encontrava eco em grande número de consciências. A necessidade de uma vasta reforma era de todos sentida e desejada.


12/10/17

PRINCIPAIS LEGIÕES ROMANAS



AS PRINCIPAIS LEGIÕES ROMANAS

A legião romana, profissional, era uma estrutura da organização militar da antiga Roma, especialmente importante nos períodos final da República (a partir das reformas de Gaius Marius) e Império.

(Os comentários incluem data de criação e dissolução da legião, causa do desaparecimento se relevante, responsável pela criação original e emblema.)

· Legio I Adiutrix (auxiliar) – 68 AD até pelo menos 444, Nero 


· Legio I Italica (italiana) – 22 de Setembro 66 até ao séc. V, Nero 


· Legio I Germanica (germânica) - 48 a.C. a 70, Júlio César 


· Legio I Minervia (de Minerva) - 82 até ao séc. IV, Domiciano 


· Legio II Italica (italiana) – 165 até ao séc. V, Marco Aurélio 


· Legio II Adiutrix (auxiliar) – 70 AD até séc. III, Vespasiano 


· Legio II Augusta (de Augusto) – 9 AD até séc. III, César Augusto (emblemas: capricórnio e pégaso) 


· Legio II Traiana Fortis (a legião forte de Trajano) - Trajano 


· Legio III Cyrenaica (cirenaica) – ca. 36 a.C. até ao séc. V, Marco António 


· Legio III Augusta (de Augusto) – 43 a.C. até fim do séc. IV, César Augusto (emblemas: pégaso) 


· Legio III Gallica (gaulesa) – 49 a.C. até início séc. IV, Júlio César (emblema: touro) 


· Legio IV Scythica (cítica) – ca. 42 a.C. até ao séc. V, Marco António 


· Legio IV Macedonica (macedónica) – 48 a.C./70 AD, Júlio César 


· Legio V Alaudae (as cotovias) – 52 a.C. a 70, Júlio César, destruída na rebelião de Batávia (emblema: elefante) 


· Legio V Macedonica (macedónica) – 43 a.C. até pelo menos 400, César Augusto (emblema: touro) 


· Legio VI Ferrata (de ferro) – 52 a.C. até depois de 250, Júlio César


· Legio VI Victrix (vitoriosa) – 41 a.C. até ao fim do séc. IV, César Augusto (emblema: touro) 


· Legio VII Claudia (de Cláudio) – 58 a.C. até fim séc. IV, Júlio César (emblema: touro) 


· Legio VII Gemina (gémea) – Outubro 68 AD até ao fim do séc. IV, Galba 


· Legio VIII Augusta (de Augusto) – 59 a.C. até depois de 371, Júlio César 


· Legio IX Hispana (hispânica) - antes de 41 a.C. até 160, César Augusto 


· Legio X Fretensis (estreito) - 41/40 a.C. pelo menos 260, batalha do Estreito de Messina, Fretum Siculum – César Augusto 


· Legio X Gemina (gémea) – 44 a.C. até ao séc. V, Lépido 


· Legio XI Claudia (de Cláudio) – 42 a.C. até início séc. V, Júlio César 


· Legio XII Fulminata (fulminante) – 43 a.C. até ao séc. V, Lépido (emblema: raio) 


· Legio XIII Gemina (gémea) – 41 a.C. até início séc. V, César Augusto 


· Legio XIV Gemina (gémea) – César Augusto 


· Legio XV Apollinaris (do deus Apolo) – 41-40 a.C. ao séc. V, César Augusto 


· Legio XVII / Legio XVIII / Legio XIX - 41 a.C. até 9 AD, destruídas na batalha da Floresta de Teutoburgo, César Augusto 


· Legio XX Valeria Victrix (valorosa e vitoriosa) - depois de 31 a.C. até ao fim do séc. III, César Augusto (emblema: javali) 


· Legio XXI Rapax (rapace) – 31 a.C. a 92, destruída na Panónia, César Augusto (emblema: capricórnio) 


· Legio XXII Deiotariana (de Deiotarus) – 48 a.C. a ca. 132-136, destruída na Judeia, César Augusto 


· Legio XXII Primigenia (afortunada, dedicada à deusa Fortuna) – 39 até séc. III, Calígula 


· Legio XXX Ulpia Victrix (vitoriosa ulpiana, cf. sobrenome de Trajano) 



(Fonte: Wikipédia)



14/05/17

A Renascença

A Renascença foi um novo despertar da civilização ocidental, após o interregno obscurantista medieval fomentado pela Igreja. Foi um período no qual o mundo viveu alterações profundas e sem precedentes, embora as grilhetas do medievalismo persistissem, sobretudo em lugares onde a Igreja era estimada, mas a acção de milhares de indivíduos dinâmicos e entusiastas que lutaram durante cerca de dois séculos, acabaria por tornar civilizada uma dinâmica que se revelou imparável, caracterizada por uma impaciente ânsia de aventura, inovação e novos horizontes.
Nessa época, a vida quotidiana era angustiante e a sociedade encontrava-se praticamente estagnada. Os médicos sangravam e acalmavam os doentes com sanguessugas e os alquimistas, nos seus variados sonhos alimentados pela avareza, tentavam transformar o metal vil em ouro. O mundo dos vivos era controlado tanto pelas bactérias transportado por ratazanas que repetidamente dizimavam enormes quantidades da população da Europa, como pelas guerras feitas pelos homens que matavam grande parte da população campesina. Entretanto o poder da fantasia e do medo alimentava pesadelos nos quais os demónios de um mundo subterrâneo perseguiam e matavam os incautos. A média de esperança de vida era para a mulher de 24 anos e talvez chegasse aos 27 para o homem. A maior parte das pessoas tinha fome e padecia de doenças e os ricos sofriam da maioria dos horrores dos pobres; a peste, a guerra e as epidemias eram efectivamente democráticas. Quase todos eram iletrados e passavam a maior parte do seu tempo embriagados. Ao longo da vida a maioria não se afastava além de dezasseis quilómetros de casa, e alimentava suspeitas patológicas em relação aos estrangeiros; poucos tinham uma ideia vaga do ano em que se encontravam, e não tinham o mínimo conhecimento do mundo que se estendia para além da sua vila ou cidade. A sua religião, apesar de na aparência ser católica, era constituída em noventa por cento de superstição e artes mágicas; a forma de cristianismo a que estavam ligados era pouco compreensível e imbuída de uma terminologia quase mítica. A populaça recebia a doutrinação religiosa numa língua antiga e praticamente incompreensível, o latim; as obras sagradas ortodoxas eram em geral textos sem sentido. As coisas só se alteraram em definitivo com o advento da Revolução Industrial, por volta de 1780.
No século XIV, o esforço secular, humanista e intelectual da Renascença, teve origem num pequeno grupo de europeus que ambicionando o prestígio e renome social e com sólidos conhecimentos, buscaram a novidade e o saber e procuraram activamente os tesouros literários e filosóficos dos antigos, financiados por nobres endinheirados de Florença e conseguindo angariar, de castelos árabes e turcos, dos seus mosteiros sombrios e de antigas bibliotecas em decadência manuscritos perdidos e originais escritos pelas figuras semi-míticas do período clássico, tesouros desenterrados por historiadores e linguistas pagos a soldo e cuidadosamente seleccionados. Alguns dos textos latinos clássicos mais antigos foram encontrados por Boccaccio, Salutati e Conversini, tendo todos eles trazido para Florença, uma enorme quantidade de importantes obras. Pouco depois, por influência de Petrarca e outros, a procura estendeu-se aos antigos manuscritos originais gregos que foram sendo encontrados e trazidos para Itália, em especial Florença. Deste modo, os ensinamentos de Aristóteles, Platão, Pitágoras, Euclides, Hipócrates e Galeno, na sua forma original, deram início a uma nova era de humanismo e reforma, juntamente com o ressurgimento do interesse pela ciência, pela medicina e pela filosofia.
Contudo a Renascença não foi impulsionada apenas pelo passado mas também e em grande medida pelo facto de na «Alta Renascença» se passar a viver num mundo repleto na mais fabulosa criação da Humanidade, a prensa móvel e a impressão, de que Guttenberg foi pioneiro. Em 1455 foi produzida a famosa Bíblia de Guttenberg; três anos mais tarde, abria uma tipografia em Estrasburgo e vinte cinco anos depois, em 1480, havia mais de uma dezena de tipografias a trabalhar em Roma e no final do século XV, estima-se que cem tipografias estivessem a trabalhar só em Veneza. Por essa altura, cerca de quarenta mil livros tinham sido impressos. Antes de 1450 existiam menos de trinta mil livros, todos eles escritos à mão. Nos finais do século XVI, havia já um inventário de cerca de cinquenta milhões de livros impressos.
Os historiadores têm alguma dificuldade em chegar a um consenso relativamente às datas que marcaram o início e o fim deste período. Se os meados do século XVI é frequentemente identificado com o fim da Renascença, outros situam-no durante os últimos anos do século XVII, menos de um século antes das primeiras manifestações do Iluminismo, que germinou com as ideias de Newton, Descartes e Locke.
Os filósofos da Renascença eram quase todos católicos leais, que na sua maioria conservavam as suas ideias mais radicais para si próprios. A igreja Romana amordaçava com determinação a expressão pública de ideias radicais e perseguia energicamente os autores de qualquer filosofia divergente. Os chefes da igreja eram instintivamente anti-intelectuais e deliberadamente obscurantistas, para que os cardeais continuassem a preservar acerrimamente os seus privilégios, quanto menos os leigos soubessem, melhor. No final do Renascimento os que eram intelectualmente curiosos, acharam difícil reconciliar o que era claramente observável e quantificável com a teologia antiga apresentada pela Igreja.

13/05/17

Prisca Theologica



A Igreja Católica, uma das maiores instituições que floresceram no âmago da civilização ocidental foi durante cerca de treze séculos a grande responsável pelo lento progresso da humanidade.
A partir do final do século XIV, o esforço secular, humanista e intelectual da Renascença, produziu aquilo a que Engels chamou «a maior revolução progressista que a Humanidade já viveu» dando origem a uma nova era de humanismo e reforma, juntamente com o interesse pela ciência, pela medicina e pela filosofia, amplamente auxiliada pela invenção, no séc. XV, da prensa móvel e da impressão de livros (somente em século e meio, de 1450 a 1600, o número de livros existentes no mundo, passou de menos de trinta mil, todos eles escritos à mão, para mais de cinquenta milhões de livros impressos).
Opondo-se ao pensamento humano em ascensão, caminhava o Catolicismo iníquo. A igreja Romana amordaçava com determinação a expressão pública das ideias radicais e perseguia energicamente os autores de qualquer filosofia diferente. Embora sustentassem a proliferação de um conhecimento teológico autorizado entre as classes privilegiadas e cultas, num sentido mais lato, os chefes da igreja eram instintivamente anti-intelectuais e deliberadamente obscurantistas. Para que os cardeais continuassem a preservar acerrimamente a sua existência terrena privilegiada, quanto menos os leigos soubessem, melhor.
Poucos duvidam que no princípio, a fé cristã se tenha pautado pela lisura, mas as aspirações humanas depressa foram corrompidas pela instituição e a Igreja afundou-se rapidamente num atoleiro de corrupção.
Quando os filósofos começaram a aprofundar os seus estudos do funcionamento do universo e a «ciência» indutiva substituiu o raciocínio dedutivo, tornou-se claro que a ortodoxia da Igreja fornecia modelos inadequados e paradigmas duvidosos, tornando irreconciliável o que era observável e quantificável com a teologia apresentada.
Esta incompatibilidade entre os pensadores do fim do renascimento e os teólogos cristãos ortodoxos tem as suas raízes em tempos mais antigos, remontando o conflito aos primórdios do predomínio cristão: ao primeiro Concílio de Niceia.
No ano 325, o Imperador Constantino, o mentor da civilização ocidental, viu-se imerso no conflito teológico, inundado por questões doutrinárias, tendo que se defrontar com um dos maiores desafios da sua governação. A causa de tudo isto foi apenas uma. A doutrina escrita da fé cristã fornecera um modelo para o estabelecimento de uma Igreja e autorizara os líderes cristãos a encontrarem as bases para uma nova sociedade num ambiente político extremamente frágil, criado pelo rápido declínio de Roma. Porém os bispos da Igreja, homens extremamente poderosos neste novo mundo cristão, debatiam entre si alguns dos princípios basilares da fé, questões que não estavam claramente definidas nos Evangelhos, nem haviam sido expostas em termos adequados nos textos sagrados desta doutrina. E, neste mundo instável, as questões da doutrina religiosa podiam revelar-se incendiárias, podendo mesmo desencadear uma hecatombe global que consumiria indistintamente imperadores, reis e papas.
Deste modo, num enorme esforço de conservação do seu domínio sobre o tecido político e religioso do seu tempo, Constantino convocou uma imensa assembleia com padres da Igreja e políticos regionais com o propósito de solucionar o problema a favor do Cristianismo, uma doutrina definida por ditames muito estritos que de facto enterraria as questões difíceis e responderia às que encerravam menores dificuldades. Desta forma, um consenso travaria o avanço rápido para a separação entre a Igreja e o Estado e atrairia os rebeldes para um tipo comum de veneração.
Foi então em 325 da nossa era que muitos dos que são hoje considerados os pressupostos fundamentais da Igreja foram idealizados e concebidos para os homens por outros homens que se faziam substituir a Deus. Em Niceia os seus membros foram ao âmago da doutrina e da religião cristã. A consequência mais importante extraída da apreciação dos inúmeros pontos doutrinários  ao longo de muitas sessões de debate foi a enorme influência que teve no percurso do cristianismo e por meio dele, nas vidas e nas ideias de muitos pensadores conceituados desde o século IV até aos nossos dias.
Os membros do concílio decidiram sobre a verdadeira natureza de Deus.
Na tentativa de conceberem uma noção inteligível de Deus, redigiram a sua própria teologia, para que fosse simultaneamente académica e de fácil entendimento pelos que não tinham instrução. Esta doutrina, a par do conceito da Santíssima Trindade, foi criada e votada. Deste modo, ficou determinado que o único Deus era Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai , ou «soberano», transcende todos os limites finitos e é imortal e omnipotente. Jesus Cristo tornou-se muitíssimo mais importante do que um mero profeta com poderes conferidos por Deus e ascendeu ao estatuto de «Filho de Deus», ou de «Palavra feita carne», divindade encarnada. O terceiro elemento, o Espírito Santo, representa a centelha divina em todos os crentes, e é outra forma de expressar a fé ou santidade. Deste modo, para os Católicos, a Eucaristia tornou-se uma transubstanciação genuína na qual a carne e o sangue do próprio Jesus são consumidos.
Esta posição radical ficou conhecida como a doutrina de homoousios (de uma única substância) e foi gerada a partir do argumento pseudo-intelectual dos teólogos do século IV, ansiosos por encontrarem uma definição de Deus. A questão muito debatida da natureza de Deus ocupara o centro da discussão entre os bispos. De um lado estava o Bispo de Alexandria, Atanásio, de trinta anos, que pregava a ortodoxia, ao passo que uma opinião muito diferente era defendida por Ário, um sacerdote rebelde de Alexandria, à época com setenta e sete anos de idade. Ário criara a seita do Arianismo, edificada em torno do homoiousos (de substância idêntica), que rejeitava a noção de que Cristo era da mesma substância de Deus, e declarava que a encarnação de Jesus não era um aspecto de Deus, mas que o Filho, enquanto que divino e idêntico a Deus («de substância idêntica»), fora criado por Ele. Ário disse de Jesus Cristo "Houve um tempo em que ele não existiu". Constantino, permitiu que o concelho deliberasse a favor de Eutanásio e da sua doutrina e de então em diante, o Arianismo passou a ser concebido como doutrina oposta aos ensinamentos cristãos oficiais. Muitos ignoraram esta decisão e, de facto, o Arianismo floresceu nos primeiros dois séculos seguintes ao Concílio de Niceia, mas, por volta do século VI, os seus adeptos foram marginalizados e perseguidos quase até à extinção e o Arianismo tornou-se secreto, sendo rapidamente encarado pelos Católicos como a maior doutrina herética.
Durante a época medieval a Igreja de Roma tornou-se cada vez mais política e mundana, fundindo o espiritual com o secular por forma a que o papa se tornasse tanto o chefe de um estado soberano como um líder espiritual. Para financiar ambições pontifícias, a Igreja comprometeu amplamente a teologia, e quando a sua doutrina fabricada se revelou inadequada, os cardeais forçaram a interpretação das escrituras até ao limite.
Talvez a expressão mais evidente disto seja a utilização cada vez mais generalizada das «indulgências» para encherem os cofres do Papa. Através do sistema das indulgências, os pecadores podiam pagar a absolvição dos seus pecados e sucessivos papas perverteram de tal modo este processo que, na época da Reforma, este simples artifício tornara-se já uma importante fonte de rendimento do Vaticano. O frade Johann Tetzel, viajou pela Europa a vender indulgências à populaça a partir de uma banca instalada na praça de cada cidade que visitava. Até vendeu indulgências absolvendo pecados antes mesmo de serem cometidos. Com este artifício, um assassino podia receber a absolvição antes mesmo de cometer aquele acto criminoso.
Mas nem todo o dinheiro ganho com este negócio (que passou por inúmeros soberanos) foi usado no financiamento das aspirações políticas dos papas; muito deste «ouro dos pecadores» voltou a encher os cofres papais esvaziados com os gastos feitos em festins orgiásticos, especiarias raras, sedas finas e no serviço de prostitutas especializadas. Com isto, as indulgências do papa e dos seus cardiais preferidos de Roma foram pagas pelas indulgências do campesinato, apesar de todo este espectáculo deplorável ser sancionado por Deus.
À medida que se assistia a uma escalada desenfreada desta hipocrisia, Erasmo, um académico católico profundamente honesto, escreveu uma série de ataques mordazes dirigidos ao clero e revelou a clara disparidade entre «Verdade» e doutrina oficial. O seu livro «Elogio da Loucura» tornou-se tão popular que depressa foi traduzido em pelo menos uma dúzia de línguas.
A Santa Sé cimentara longamente a sua posição privilegiada mantendo os laicos na absoluta ignorância. Todos os textos religiosos, incluindo a Bíblia e o livro de orações, estavam disponíveis apenas em latim, sendo esta a língua usada nos serviços religiosos e na redacção de todos os documentos oficiais. Isto significava que a ampla maioria do povo não fazia a mais pequena ideia do que era dito na igreja ou transmitido pela sua doutrina.
De repente, na prosa de Erasmo, eram colocadas questões delicadas e em vernáculo e, com elas, a suspeição ao clero. Instigados por intelectuais e por membros do baixo clero, como Lutero e Calvino, os leigos começaram a pedir o esclarecimento da situação. A Igreja, inicialmente indolente e demasiado confiante ficou tão surpreendida que quase entrou em colapso. Apercebendo-se do perigo que a ameaçava, a Igreja reagiu com medidas drásticas com o objectivo que a Reforma de Lutero alastrasse a todo o norte da Europa. Numa tentativa de reeducação das massas, foi constituída, em 1534, por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus ou Jesuítas. O Concílio de Trento teve lugar em 1545 e reuniu-se depois, a intervalos irregulares, a fim de delinear a política papal para anular os ataques teológicos. Essa assembleia constituída por altas esferas da hierarquia da Igreja, decretaria o julgamento de Galileu, quase um século mais tarde e através da sua actuação arrastaria a Europa para a pior guerra religiosa da história, a Guerra dos Trinta Anos, iniciada em 1618.
Mas a decisão política mais controversa, tomada para conter a crescente vaga de protestantismo, pensamento científico e heresia, foi a criação da Inquisição Romana, instituída pelo papa Paulo III, em 1542, revitalizando a Inquisição Papal, instituída em 1231 por Gregório IX, com o objectivo de eliminar os Albigenses (ou Cátaros) e que já realizava o seu trabalho sangrento desde o século XIII. O seu dever oficial era investigar e reeducar, trazer almas perdidas de novo para a Santa Madre Igreja; mas, na verdade, a Inquisição era uma terrível arma de vingança, um mecanismo para matar. Esta organização exterminou mais de um milhão de homens, mulheres e crianças (à época, uma em cada duzentas pessoas existentes na Terra).
Paulo III decidindo ressuscitar a antiga instituição, deu-lhe corpo e conferiu-lhe poderes ainda mais draconianos, voltando forçando deliberadamente a interpretação das Escrituras para desculpar a enorme quantidade de castigos, que incluíam a confiscação de todas as terras e bens, prisão celular em isolamento e praticamente todos os tipos de crueldade física e mental. Grupos de investigadores treinados viajavam pelos diversos reinos da Europa a recolher informação sobre hereges suspeitos. O medo antecedia-os, e valiam-se de técnicas psicológicas subtis para o intensificar. Nos dias que antecediam a sua chegada eram afixados cartazes a anunciar a sua chegada iminente. O Inquisidor entrava na cidade acompanhado por uma procissão solene de monges encapuzados. Os espiões já tinham previamente identificado alguém detentor de conhecimentos heréticos e essas pessoas eram capturadas e levadas à presença do Inquisidor. A denúncia e a delação eram estimuladas. Se um transgressor conseguisse denunciar uma dúzia de suspeitos, os seus próprios pecados eram perdoados e era poupado à fogueira.
Para se fazer uma acusação de heresia bastava o testemunho de dois informadores. O suspeito ficava preso durante toda a fase de interrogatórios e a Inquisição nunca tinha pressa em terminar o seu trabalho. Muitas vítimas inocentes morreram no cárcere enquanto aguardavam que o Inquisidor avaliasse as suas confissões, outras eram torturadas até à morte, ou, desesperadas, confessavam crimes dos quais eram de facto inocentes e dos quais nada sabiam. Os informadores nunca eram identificados e os depoimentos que haviam feito em relação ao suspeito não eram revelados. Aos suspeitos era sempre recusado um advogado e as acções da Inquisição eram levadas a cabo no mais absoluto sigilo, assim, muitas vezes as vítimas simplesmente desapareciam.
Tal despotismo teve consequências na moldura social e política do mundo ocidental. Um retrato esclarecedor é o homicídio de cerca de 30.000 mulheres e muitas centenas de homens e crianças, entre 1500 e 1650. O crime destas vítimas não foi de facto nenhum. Apenas má sorte. Foram suspeitas de bruxaria, uma ironia bem amarga já que a Igreja rejeitava a noção do oculto.
Todavia, as seitas protestantes, na sequência da bem sucedida rebelião de Lutero, em muitos aspectos, não eram melhores do que os Católicos. À semelhança dos seus congéneres papistas, os líderes luteranos e calvinistas deixaram-se levar pelo interesse próprio e pela ilusão, e também eles se entregaram a orgias de violência e perseguições.
Uma das suas vítimas foi Miguel Servet, notável e talentoso médico que sustentou ideias religiosas perigosamente sinceras e as publicou em livro, em 1531, um tratado que clamava sem reservas o abandono do postulado conceito da Santíssima Trindade. Preso pela Inquisição vienense em 1533, conseguiu fugir para Genebra, o epicentro do Calvinismo, onde julgou encontrar refúgio. Mas Calvino também não gostou das suas ideias religiosas e em vez de refúgio, mandou que fosse preso, julgado e sentenciado à morte. Conta que a execução na fogueira o supliciou a uma morte muito lenta, tendo levado duas horas para o matar.
Mas semelhante crueldade foi apenas um aspecto como o extremo zelo religioso se tornou uma força destruidora. Extremistas de todas as comunidades religiosas mataram concidadãos seus, e a severidade e a paranóia impeliram nações inteiras para lutas violentas, rebeliões e finalmente a guerra.
Em 1562 eclodiram guerras civis em série, conhecidas como Guerras de Religião, que conduziram a um conflito europeu que durou 35 anos. Em Paris e noutras cidades importantes a fricção entre os Calvinistas franceses conhecidos por Huguenotes e os Cristãos originou um conflito que atingiu o seu clímax sangrento na dia do Massacre de S. Bartolomeu, a 24 de Agosto de 1572, quando cerca de setenta mil protestantes foram chacinados. A guerra civil levou mesmo ao assassínio do rei de França, Henrique III em 1589 e só em 1598 foi reposta uma certa ordem, com o Édito de Nantes, criado pelo corajoso e determinado Henrique IV, onde se declarava liberdade de consciência e igualdade de direitos legais e educacionais para os protestantes franceses.
Numa coluna, a devoção religiosa legou-nos obras magníficas. Enriquecem-nos os trabalhos de Giotto, Dante, Ticiano, Miguel Ângelo, Milton, Palestrina, Mozart, e muitos outros. Mas também temos de considerar a coluna dos débitos onde temos a caça às bruxas, os homens da Inquisição, as guerras religiosas, os atentados bombistas, as crianças mortas, o terrorismo.
O CONFLITO RELIGIOSO É TODAVIA RECRUDESCENTE.
PELO MUNDO FORA UMA FÉ CORRUPTA CONTINUA A ESPALHAR ANGÚSTIA.


(Apontamentos retirados e adaptados do livro "Giordano Bruno - O Filósofo Maldito", da autoria de Michael White)

08/12/16

História de Roma 22 - OS GRACOS E OS CAVALEIROS


República em Crise:  Os Gracos e os cavaleiros
Roma e a Itália e toda a bacia mediterrânica padeciam de enormes tensões sociais no século II a.C. devido ao aumento do fosso entre as grandes famílias e a maioria dos cidadãos ainda mais empobrecidos pela superabundância de mão-de-obra escrava, que atingiu cifras próximas de 50% da população total, muitos vivendo na clandestinidade e provocando revoltas que, por vezes, fizeram abanar a estrutura social.
Dois jovens tribunos da plebe, irmãos, Tibério e Gaio Graco, implementaram então reformas espectaculares para remediar os problemas. Tibério ascendeu ao tribunado em 134 a.C. e iniciou uma reforma agrária que visava distribuir parcelas individuais de terra dos latifundia (imensas propriedades fundiárias de que o Estado se apossara após a segunda guerra púnica e que eram exploradas por algumas famílias ricas de patrícios mediante um pagamento meramente simbólico).
Tibério tinha o projecto de acabar com a pobreza urbana e aumentar o número de homens livres com bens suficientes para poderem servir no exército. A fim de contornar eventuais resistências Tibério decidiu submeter a proposta directamente ao voto dos comícios sem a apresentar previamente ao Senado, o que não sendo ilegal era contrário aos costumes de Roma. Então quando o outro tribuno, Octávio, vetou a lei, Tibério convenceu a assembleia a uma decisão sem precedentes: a exoneração de Octávio. Foi desta forma que a lei agrária foi aprovada e nomeada uma comissão para a pôr em prática, de que se destacavam Tibério e o seu jovem irmão Gaio. Tibério com estas atitudes tinha feito demasiados inimigos, começando a suspeitar-se que os seus métodos autoritários visassem o poder absoluto. Assim, em 133 a.C., logo que a assembleia iniciou uma reunião eleitoral no Capitólio, uma violenta discussão explodiu, degenerando rapidamente em rixa. Os senadores amotinaram-se em massa e os seus clientes acorreram em seu socorro, matando Tibério e 300 dos seus partidários à bastonada.
Foi a primeira vez em quatro séculos que houve derramamento de sangue em Roma num conflito civil. Tibério tinha posto em marcha o que certamente não queria: a desagregação da oligarquia romana.
Muitos senadores, entre os quais Cipião Emiliano, regozijaram-se com o fim de Tibério e tentaram paralisar a actividade dos funcionários encarregados de aplicar as leis agrárias, mas em vão. A lei foi aplicada e contribuiu para retardar a ruína dos pequenos camponeses.
Em 133 a.C. Gaio Graco foi eleito tribuno. Orador consagrado, a sua eloquência e diplomacia valeram-lhe apoios de todos os quadrantes. Fez-se eleger sem qualquer obstáculo para um segundo mandato. Reforçou as leis agrárias de seu irmão e completou-as com medidas que previam a criação de colónias romanas à volta de grandes centros como Cartago e Tarento. Reformou os tribunais, ao criar uma lei em que os jurados deveriam passar a ser da classe equestre. Era a subida ao poder duma classe com prestígio social, muitos tinham enriquecido como cobradores de impostos (publicanos) e depois constituído grandes fortunas em negócios de contratos de percepção relativos a trabalhos públicos e aprovisionamento do exército. Os «cavaleiros da finança» eram um grupo muito activo. De tempos a tempos, quando se mostravam demasiado ávidos e deixavam somente uma pequena parte aos senadores, eclodiam conflitos. Com as leis de Gaio Graco acabou a homogeneidade dos quadros que governavam o Estado.
Até à época de Gaio Graco, as tentativas de enriquecimento pessoal dos publicanos mantiveram-se dentro de limites  razoáveis, mas quando Gaio propôs um novo tribunal composto exclusivamente por cavaleiros a situação alterou-se completamente. Esta proposta pode ser considerada o ponto de partida daquilo que virá a ser a ordem equestre enquanto grupo social distinto.
A Gaio deparou-se em seguida o problema escaldante do estatuto dos aliados de Roma na esfera latina e no resto da Itália. Os aliados tinham desempenhado um papel determinante durante a Segunda Guerra Púnica e era o momento indicado para lhe conceder a plena cidadania romana. Contudo o Senado não estava disposto a conceder direito de voto a homens de quem nunca teria o voto e assim o estatuto de aliado manteve-se inalterado. Para compensar os aliados italianos foi-lhes oferecida uma parte das pequenas propriedades criadas a partir do parcelamento das terras do Estado, mas o Senado não autorizou os comissários a aplicar esta medida. Gaio decidiu que este ponto não era negociável e propôs em 122 a.C um novo projecto de lei visando conceder a cidadania romana a todos os latinos e nas outras cidades italianas aos administradores romanos, oferecendo em lugar do direito, todas as vantagens privadas da cidadania. Mas esta medida ambiciosa, digna de um homem de estado, foi ultrapassada por uma proposta astuciosa de um candidato conservador ao lugar de tribuno, que fez votar uma lei que ia mais longe. Gaio viu-se atado de pés e mãos e quando ia supervisionar a sua nova colónia de Cartago, rumores maléficos de que o lugar trazia mau agouro, enfraqueceram ainda mais a sua posição. Em 121 a.C. quando se apresentou pela terceira vez ao lugar de tribuno, não foi eleito. O seu fim estava próximo. Na sequência duma rixa entre apoiantes e opositores do projecto de colonização de Cartágo, um doméstico do senador Oprímio foi morto. Este aproveitou-se desse facto para convencer o Senado a declarar o estado de sítio e o próprio Oprímio assumiu a liderança dum grupo de senadores e cavaleiros que atacaram Gaio e o mataram. Improvisaram-se rapidamente simulacros de processos e 3000 partidários de Gaio Graco foram executados. O decreto que autorizou este acto foi, mais tarde, baptizado de «senatus consultum ultimum». Este expediente foi utilizado diversas vezes no decurso dos agitados decénios seguintes.

04/12/16

História de Roma 21: A SOCIEDADE ROMANA NO APOGEU DA REPÚBLICA





21 - A Sociedade
Em matéria de política externa Roma adoptou uma atitude cada vez mais dura e autoritária. No princípio do século II a.C. a autoridade do Senado sobre a política era total, não obstante as intervenções periódicas das assembleias. O governo era praticamente assunto de um círculo fechado de cerca de 2.000 homens, pertencentes a menos de vinte famílias. Eleições de «homens novos», (i.e. pertencentes a famílias sem antepassado «cônsul»), eram extremamente raros.
Guiado por estes homens e na ausência dum contra-poder eficaz, o Senado conservou uma supremacia que roçava a impunidade, tornando-se um órgão cada vez mais conservador.
 No plano interno, os nobres e o Senado mostravam-se cada vez mais intolerantes face aquilo que consideravam tentativas que visavam minar a sua supremacia. Entre aqueles que foram alvo da sua cólera, podemos citar o poeta Névio (270-201 a.C.), autor de obras patrióticas, entre as quais algumas tragédias e uma epopeia que é uma obra de vanguarda que tem como tema a 1ª Guerra Púnica, na qual o autor havia participado. Cerca de 204 a.C., Névio cometeu uma falta que lhe valeu a prisão e, depois, o exílio. A razão da severidade da sua pena remontava, provavelmente, a uma ofensa com cerca de trinta anos: tinha ousado criticar uma das mais poderosas famílias nobres plebeias.

A arte
Nas artes, Plauto (254-184 a.C.) é o grande mestre no domínio das peças cómicas. Com ele a comédia latina em verso atinge o apogeu. Inspirou-se nas refinadas comédias gregas do século IV a.C., mas, em vez da subtileza destas, deu largas ao seu génio na farsa bufa, de ritmo rápido. Utilizou o grotesco para a crítica social indirecta mas reveladora, tendo o cuidado de apresentar as suas personagens não como romanos, mas como gregos ou bárbaros. Outro grande poeta, Quinto Énio (239-169 a.C.), nasceu na Calábria onde recebeu as influências culturais que lá convergiam, gregas, latinas e italianas. Recebeu a cidadania romana como recompensa da participação na 2ª Guerra Púnica e foi trazido para Roma por Catão, em 204 a.C. Foi o primeiro profissional de letras em Roma e foi considerado o pai da poesia latina. A sua obra «Anais» - um poema épico no qual utilizou, como meio de expressão, uma adaptação do verso heróico grego - constitui uma crónica de toda a história romana, das origens até à sua época.
Catão, "o antigo" (234-149 a.C.) era um «homem novo». Raros textos da sua autoria chegaram até nós mas, apesar disso, o seu prestígio, como erudito, foi enorme. A sua obra maior, uma história de Roma em sete volumes, intitulada «Origens» ou «Histórias», redigida em latim, que não nos chegou, constitui a primeira obra de referência neste campo e o protótipo da prosa latina na qualidade de instrumento literário. Foi um excelente orador. Embora não contasse com qualquer cônsul entre os antepassados, tornou-se um dos políticos mais famosos na sua época e durante muitos anos uma personagem de primeira importância. Foi um inimigo figadal dos Cipiões. Apoiado na tradição e, protegido pelos numerosos proprietários fundiários conservadores, mostrou-se profundamente hostil ao culto da personalidade, nomeadamente a prestado a Cipião. Conseguiu expulsar os Cipiões da vida pública, obrigando-os à reforma em 184 a.C. e nesse ano foi eleito censor, o que era excepcional para um «homem novo». Esse cargo permitiu-lhe intensificar os ataques contra o helenismo, mas também a adoptar muitas medidas tendentes a renovar a economia e a moral da sua pátria. Foi hostil às tendências da sua época que visavam a emancipação das mulheres. Era do campo, chicaneiro e vingativo, de olhar penetrante, foi um modelo de puritanismo reaccionário, mas todos os seus esforços foram em vão pois o seu programa mostrou-se, a longo prazo, impraticável.
Com o tempo, os Romanos voltaram-se cada vez mais para Cipião Emiliano, bom orador, um dos mais novos generais romanos que participou na campanha da Macedónia, neto adoptivo de Cipião, o Africano, cultivando o gosto da época pelo individualismo tão criticado por Catão, veio a substituí-lo e, durante mais de 20 anos, foi um dos homens de Estado mais marcantes de Roma. Revelou-se um organizador enérgico e caracterizava-o uma reputação, totalmente merecida, de integridade. Com grande atracção intelectual pelo helenismo, interessou-se pela filosofia e literatura gregas e muitos do que lhe eram próximos, como Terêncio (185-159 a.C.), dramaturgo latino cuja obra extraordinária exerceu uma influência duradoura sobre o teatro europeu. vieram a ser responsáveis pelo progresso que a cultura helénica conheceu em Roma.

A riqueza e os novos monumentos
Durante todos estes anos, um afluxo crescente de moeda e lingotes de proveniência ultramarina foi-se acumulando no tesouro romano.
Roma era já, pelo tamanho, a primeira cidade do Ocidente e o afluxo de riquezas permitiu a construção de monumentos sumptuosos. A influência grega evidenciava-se no novo gosto pelos pórticos e pelas basílicas. No século I a.C. estas vastas salas públicas foram reconstruídas com abóbadas em arco - uma conquista arquitectónica romana (que implicava uma outra inovação tipicamente romana, o arco monumental, que surgiu em Roma a partir de 196 a.C.). Estes monumentos anunciavam já os sumptuosos arcos do triunfo imperiais que ainda hoje se podem admirar em muitas cidades. Os progressos atingidos na construção de arcos, arcadas, absides semicirculares, nichos e abóbadas foram possíveis devido à descoberta de uma matéria revolucionária: a argamassa. Em 144 a.C. um pretor mandou construir, para fornecer água à cidade, o primeiro aqueduto de Roma, o Acqua Marcia, com 58 Km de comprimento. Esta iniciativa deu origem a um vasto processo de construções de aquedutos, no final do qual Roma passou a usufruir de uma abundância de água corrente única no mundo. Ao mesmo tempo os romanos construíram estradas por toda a Itália. Em Roma as ruas permaneceram estreitas, mas foram pavimentadas com ladrilhos de lava endurecida do monte Albino. A população da capital aumentou e a maior parte dos habitantes residia em edifícios frágeis, construídos com madeira e materiais baratos, sem aquecimento nem água corrente, regularmente devastados por incêndios e inundações mas, pelo contrário, as habitações dos ricos começaram a ser construídas com pedra de cantaria. As casas tinham uma fachada cega que dava para a rua, distribuindo-se os quartos em redor de um átrio que desempenhava as funções de corredor interior e de sala de recepção; no átrio ficava o altar e as estátuas da família; os quartos de dormir e o alojamento do pessoal doméstico situavam-se na zona mais afastada e muitas destas casas tinham uma sala de jantar de Inverno e outra de Verão.

Os escravos
Os escravos constituíam uma enorme reserva de mão de obra.
Na sequência das campanhas vitoriosas dos séculos III e II a.C., Roma foi inundada de escravos. Esta mercadoria era vendida nos grandes mercados da Cápua e de Delos. Nestes espaços chegavam a negociar-se 20.000 escravos por dia.
Os escravos não tinham quaisquer direitos mas os domésticos eram tratados com relativa benevolência. Foi em grande parte devido a eles que a cultura grega penetrou em Roma pois forneciam à cidade professores, médicos e pessoal administrativo. No campo, a sorte dos escravos foi sempre menos sorridente. Segundo Catão deviam ser tratados da mesma forma que os animais domésticos e quando já não tinham idade para ganhar o pão, Catão achava que se podiam deixar morrer, contudo, ainda segundo ele, uma boa gestão obrigava a que os animais e os escravos fossem tratados com cuidado, de maneira a que trabalhassem o maior tempo possível. Era frequente que estes escravos, chamados rústicos, usassem grilhetas permanentemente  Nas grandes explorações agrícolas, alguns proprietários de escravos muito severos e pouco cuidadosos, submetiam a sua mão-de-obra a tratamentos terríveis. Os escravos que trabalhavam nas minas viviam uma existência ainda pior. Muitos desertavam para viverem na clandestinidade e esta foi uma das razões porque, em alguns períodos do século II a.C., a estrutura social romana estremeceu e esteve à beira da desintegração.



03/12/16

Grandes Químicos: ROGER BACON


ROGER BACON
(1214-1292)
Frade Franciscano, nascido em Oxónia (Oxford). Foi alquimista, físico, médico, matemático e astrónomo, e pioneiro no recurso à experimentação na investigação científica. O seu vasto saber mereceu-lhe o cognome «Doctor mirabilis». Nos seus numerosos escritos descreve, entre outras coisas, a fabricação da pólvora - aliás conhecida dos chineses muito antes da era cristã.

01/12/16

Grandes Físicos: KEPLER


KEPLER
(1571-1630)

Kepler é considerado o fundador da astronomia moderna.

Nascido em Wurtemberg (Alemanha) a vida de Kepler foi desventurosa, segundo os seus biógrafos. Não teve saúde, nem dinheiro, nem a proteção dos poderosos.
Quando concluiu os seus estudos foi-lhe dado um lugar de professor de Astronomia na Universidade de Graetz que ocupou durante sete anos.
As vicissitudes da sua vida levaram-no a deixar o lugar e foi então trabalhar com Tycho Brahe, reputado astrónomo dinamarquês, que o chamou a Praga.
Dotado de imaginação genial Kepler soube tirar dos dados das escrupulosas observações de Tycho a concepção de uma harmonia no movimento dos astros, formulando as leis das revoluções planetárias, as quais haviam de servir a Newton para estabelecer a lei da gravitação universal. Foi esta a sua grande descoberta.
Mas produziu ainda trabalhos de valor em diferentes ramos da Física e sobretudo da Óptica (refracção, fotometria, etc.).
Teve ainda um papel de relevo, que alguns historiadores consideram equivalente ao de Galileu, seu contemporâneo e amigo, na luta contra a os conceitos da física aristotélica.
al'>Em 1916 apresentou a «teoria da relatividade generalizada» que inclui uma nova teoria da gravitação.

Mais tarde, em 1928, surge a «teoria do campo unitário» a tentar abranger o campo gravitacional e o campo eléctrico.
Além de outras contribuições para a Física, também se lhe deve a «teoria dos fotões», muito importante para a interpretação dos fenómenos l

Grandes Físicos: EINSTEIN

EINSTEIN
(1879-1955)

Einstein foi o cientista mais famoso dos nossos dias.

Nasceu na Alemanha, de onde saiu com os pais aos 15 anos de idade.
Veio a concluir os seus estudos em Zurique (Suiça). Foi professoe em Berna, Zurique, Praga e Berlim.
Expulso da Alemanha como judeu, fixou-se nos Estados Unidos e ali morreu em 1955.
Tal como Newton, construiu uma nova síntese dos fenómenos dinâmicos (isto lhe valeu o nome de «Newton do século XX), o que não quer dizer que a física einsteiniana se oponha à clássica de Newton. Ela representa antes um maior grau de aproximação, um maior rigor, na interpretação dos fenómenos, e permite entrar nos domínios do microcosmo atómico.
As suas teorias apoiam-se em complicados e laboriosos cálculos matemáticos que poucos estão em condições de penetrar em toda a sua extensão. Mas os resultados fecundos advindos da aplicação das conclusões de Einstein têm imposto as suas leis de forma brilhante.
Celebrizou-se muito cedo com a «teoria da relatividade restrita» (1905), reformando os conceitos básicos de espaço, tempo e simultaneidade dos acontecimentos, aos quais não atribui um sentido absoluto como na dinâmica newtoniana.
Em 1916 apresentou a «teoria da relatividade generalizada» que inclui uma nova teoria da gravitação.
Mais tarde, em 1928, surge a «teoria do campo unitário» a tentar abranger o campo gravitacional e o campo eléctrico.
Além de outras contribuições para a Física, também se lhe deve a «teoria dos fotões», muito importante para a interpretação dos fenómenos l

Grandes Físicos: NEWTON


NEWTON
(1642-1727)
Foi o criador da Física matemática.

A revolução nas ciências físicas operada por Galileu atingiu a culminância com o génio de Newton, que nascia em Inglaterra no mesmo ano em que Galileu desaparecia.
Não tardou que o fio deixado por este fosse retomado com segura mão. O espírito da época era propício às grandes descobertas e os precursores das ideias novas eram numerosos e de valor.
Cedo se revelou a vocação de Newton para as matemáticas, de que foi mestre na Universidade de Cambridge. Descobriu ao mesmo tempo que Leibniz o cálculo infinitesimal, cujos métodos aplicou habilmente ao estudo dos fenómenos físicos e particularmente à Dinâmica.
É pela mão de Newton que a física entra no caminho das grandiosas sínteses e generalizações que relacionam mutuamente os fenómenos físicos, traduzindo-os por leis e princípios gerais.
A lei da gravitação universal é de todos elas a de mais largo alcance.
Foi também da mais alta importância a contribuição de Newton para o desenvolvimento da óptica (decomposição da luz branca, teoria das cores, telescópio, teoria da emissão, etc.).
Newton foi um astro de primeira grandeza na história da Física.

30/11/16

Grandes Físicos: SIMON STEVIN


STEVIN
(1548-1620)

Simon Stevin nasceu em Bruges, na Flandres, e morreu em Leiden em 1620.
Consideram alguns historiadores Stevin como o cientista mais original da segunda metade do século XVI e colocam-no muitos a par de Galileu, Newton e Kepler.
A hidrostática interessou-o especialmente em virtude do seu seu cargo de engenheiro-inspector dos diques na Holanda. Confirmou e alargou os princípios estabelecidos por Arquimedes.
Como Leonardo, rejeitou categoricamente o «movimento perpétuo».
Também estudou entre outros a alavanca, o plano inclinado e as roldanas.

Espírito muito original, dominou ainda outras ciências sendo também muito conhecido na história da matemática como o inventor das fracções decimais.

Grandes Físicos: LEONARDO DE VINCI

LEONARDO DE VINCI
(1452-1519)

Foi um dos vultos mais notáveis do Renascimento.

Nasceu em Vinci, perto de Florença, e veio a morrer na França ao serviço de Francisco I.
Na sua actividade científica, embora tomasse como ponto de partida os autores antigos, usava como métodos de trabalho a observação e a experimentação.
Leonardo negou categoricamente o «movimento perpétuo», ideia acalentada através de todos os tempos. Também se considera precursor da aviação por ter imaginado o helicóptero, partindo do estudo do voo das aves.
Apesar da grandeza do seu génio, tem de reconhecer-se que a influência de Leonardo de Vinci na evolução da ciência ficou muito aquém do valor dos seus trabalhos, por só muito mais tarde (dois séculos depois) ter sido publicada e difundida a sua obra.
Embora a projecção do seu nome tenha resultado em grande parte das suas descobertas sensacionais na astronomia e na defesa que veio a tomar das ideias de Copérnico a respeito do movimento da Terra em volta do Sol, contra aquilo que então se admitia, deve, contudo, notar-se que foram os seus estudos de mecânica os mais importantes, por serem os que maior influência tiveram na evolução da física.

Grandes Físicos: GALILEU


GALILEU
(1564-1642)

Considerado o criador da Física experimental.

Nasceu em Pisa, filho de um nobre ilustre mas arruinado.
Professor da Universidade de Pisa durante três anos, não encontrou ali ambiente para as suas ideias rebeldes contra a ciência escolástica. Transitou para a Universidade de Pádua onde levou a cabo as suas descobertas mais importantes.
Foi um inovador em tal grau que se apresentou aos olhos dos seus contemporâneos como um autêntico revolucionário. Por isso conheceu as vaias, as perseguições e a glória.
O alcance da sua obra é excepcional, não só pelas descobertas que fez na mecânica, na óptica, na astronomia, mas ainda e principalmente por ter aberto novos caminhos ao conhecimento e interpretação dos fenómenos físicos.
Embora a projecção do seu nome tenha resultado em grande parte das suas descobertas sensacionais na astronomia e na defesa que veio a tomar das ideias de Copérnico a respeito do movimento da Terra em volta do Sol, contra aquilo que então se admitia, deve, contudo, notar-se que foram os seus estudos de mecânica os mais importantes, por serem os que maior influência tiveram na evolução da física.

Grandes Físicos: ARQUIMEDES


ARQUIMEDES
(287-212 a.C.)

Arquimedes é apontado como cientista de tipo moderno. Nenhum antigo soube como ele associar a explicação e o raciocínio matemático aos dados da observação e da experimentação.

Arquimedes nasceu em Siracusa e ali morreu vítima dum soldado do general Marcelo, quando da conquista da cidade pelos romanos.
Geómetra de renome, inventor de grande número de máquinas, entre as quais se contam a associação de roldanas conhecida pelo nome de carretel, o parafuso sem fim e o parafuso de Arquimedes, tornou-se no entanto verdadeiramente célebre através do princípio da hidrostática que tem o seu nome.
A história do princípio de Arquimedes é muito sugestiva. Narra Vitrúvio que o rei Hierão de Siracusa, suspeitando que uma coroa de ouro tinha sido falsificada com prata pelos artistas que a tinham fabricado, propôs ao sábio matemático a resolução do problema sem abrir nem danificar a coroa. Ocupado o seu espírito clarividente com o problema e sempre desperto para os fenómenos que observava, deu conta um dia da impulsão que o seu corpo recebia no banho e surgiu-lhe então a explicação do problema da coroa de forma tão luminosa, que, ébrio de alegria por ter desvendado o mistério, saltou da banheira tão entregue à solução, tão fora de si, que nem sequer deu conta dos olhos jocosos que o poderiam observar! E correu para casa triunfante, gritando «eureka» (descobri). Procedeu imediatamente ao confronto dos volumes de água deslocados por massas de ouro e prata iguais às da coroa e verificou a falsificação.
A contribuição de Arquimedes para a hidrostática foi importantíssima. É também a ele que se deve a invenção dos areómetros.
Diz-se que os inventos de Arquimedes tiveram primacial importância na defesa de Siracusa contra os romanos e tanto assombro causaram a Marcelo que este ordenara aos seus soldados que poupassem o geómetra. Não o reconheceu, porém, aquele que o matou.

28/10/16

HISTÓRIA MEDIEVAL INGLESA: 1- A CONQUISTA NORMANDA




A BATALHA DE HASTINGS E A CONQUISTA NORMANDA
Em 1066 morreu subitamente, Eduardo o Confessor, rei de Inglaterra, sem deixar herdeiros.
Apareceram três fortes pretendentes ao trono, Harold (um poderoso nobre inglês), Harald (rei da Noruega) e Guilherme (duque da Normandia em França).
 A Assembleia de Chefes Conselheiros Reais pretendia resolver o assunto rapidamente e quando Harold reclamou que Eduardo o tinha nomeado, no leito de morte, seu herdeiro, coroaram-no nos dias seguintes.
Mas Harold esperava problemas vindos do exterior, da parte dos seus rivais, particularmente de Guilherme. Por isso organizou um exército ao longo de toda a costa sul, pronto a defender-se dum ataque dos Normandos.
Esperou todo o Verão e nada aconteceu e quando o exército já se preparava para desmobilizar, recebeu más notícias. Harald tinha invadido o norte da Inglaterra.
Harolh moveu o seu exército para norte, tão rapidamente que foi capaz de surpreender o seu inimigo em Yorkhire. Travou-se a batalha de Stamford Bridge, onde os noruegueses lutaram denodadamente mas foram dizimados e o próprio Harald foi morto.
Mas os Ingleses nem tiveram tempo para comemorar, logo lhes chegou a notícia que os Normandos tinham atravessado o Canal da Mancha numa frota, invadido o sul da Inglaterra e montado campo em Hastings.
Harold moveu então em marcha rapida as suas tropas, ainda exaustas da batalha anterior, para o sul, de encontro às forças invasoras.
Os dois exércitos encontraram-se em Hastings, a 14 de Outubro de 1066. As tropas de Guilherme estavam melhor treinadas e equipadas, incluíam arqueiros e cavalaria. As tropas de Harold estavam exaustas mas mantinham uma forte posição no topo da colina formando uma parede com os seus escudos que as tropas Normandas não conseguiam transpor. Os dois exércitos estavam assim bloqueados numa situação de impasse, até que Guilherme congeminou um plano que alterou o rumo da batalha. Simulou uma retirada do seu exército e quando os soldados Ingleses abriram a defesa, os Normandos deram meia volta, ultrapassaram as defesas e cavalgaram para a frente, vencendo as tropas de Harold, que foi morto em combate.
 Mas a Batalha de Hastings não marca o fim da Conquista Normanda.
Guilherme e as suas tropas encontraram forte resistência dos nobres ingleses à medida que avançavam para Londres, para a coroação que teve lugar no dia de Natal de 1066.
Guilherme estava longe de estar seguro na sua posição e os seus soldados mantiveram-lhe sempre guarda.
Durante a cerimónia foram ouvidos sons de festejos de Natal provenientes de casas nas proximidades e foram mal interpretados, como sendo o início de uma revolta. Assustados os soldados incendiaram as casas.

Foi dito por testemunhas que Guilherme tremia de medo enquando a coroa lhe estava a ser colocada na cabeça.