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12/09/18

As Religiões no Império Romano


As Religiões no Império Romano

A primeira religião oriental que chegou a Roma foi a do culto da deusa Cibele e do seu amante Átis – um par divino da mesma natureza que os deuses adorados em templos na Grécia minóica. Cibele, chamada a grande mãe, simbolizava a fecundidade e a força da natureza. Quando do pânico criado pela segunda guerra púnica, o Senado decidiu que o velho Panteão romano precisava de reforços. Foram consultados os livros sibilinos e, em seguida, enviou-se uma embaixada ao rei de Pérgamo, na Ásia Menor. O potentado aceitou, como um favor especial feito aos Romanos, enviar a Roma o velho símbolo do culto primitivo de Cíbele, uma pedra meteorítica preta, a qual foi colocada, primeiramente, no templo da Vitória, no monte Palatino, mais tarde, os Romanos construíram um templo em honra desta deusa. A importação de uma nova religião era um sinal dos tempos, os romanos começavam a adquirir um horizonte internacional. Mas o Senado tomou o cuidado de impedir que os cidadãos romanos participassem no verdadeiro exercício deste culto – na realidade, demasiado exótico e que era preferível reservar para sacerdotes vindos da Frígia. Com efeito, os fiéis eram aspergidos com o sangue das vítimas que deviam purificar o homem dos seus pecados e torná-lo imortal.

De uma natureza completamente diferente era o culto de Ísis, «a mais civilizada das religiões bárbaras». Tinha também a sua origem em antiquíssimas crenças religiosas referentes às ceifas e à alternância das estações. Ísis era oriunda do Egipto. Entrou cedo em Roma. O seu grande santuário de Roma foi construído durante o reinado de Calígula. No centro do culto encontrava-se Ísis, a deusa mãe que tinha ao colo o seu filho Osíris. O culto prestado a Ísis tinha grandeza, com os seus sacerdotes barbeados e envergando vestes de imaculada brancura. Pela penitência e pela purificação (de natureza material, é certo), o ritual místico conduzia à comunhão com a divindade e a uma espécie de ressurreição espiritual.

Mais tarde, sobretudo no século III, apareceram por todo o Império Romano algumas divindades masculinas. Estava-se no tempo dos imperadores-soldados, um período de guerras permanentes; a situação prestava-se bastante ao aparecimento duma crença própria para impressionar as legiões. A forma mais simples dessa crença, estabelecida para agradar aos imperadores-soldados, era o culto do Sol Invictus, o Sol invencível. Esta divindade toda poderosa e triunfante, que estendia a sua mão sobre Roma e as suas legiões, estava identificada com o imperador. Não pode chamar-se ao culto do Sol Invictus uma religião no sentido mais elevado do termo (que pressupõe uma relação entre o crente e a divindade), mas antes um compromisso entre a religião de estado e a propaganda imperial. Desde César que os grandes senhores do império eram, após a sua morte, adorados como deuses; no entanto os Romanos resistiram tanto quanto foi possível, à divinização em vida dos imperadores.
No Oriente a situação era diferente. Os Egípcios, por exemplo, não podiam levar a sério um soberano que não fosse, ao mesmo tempo, um deus. Ignorar esta tradição teria sido uma grave falta política. Quanto mais cosmopolita se tornava o Império Romano, mais os Orientais e as ideias orientais penetravam nas províncias ocidentais e até em Roma e mais o culto do imperador ganhava terreno. No século III já ninguém protestava, nenhum velho romano fazia ouvir a sua irritada voz. Nesta época o culto do imperador era muito mais do que uma manifestação de ambição autocrática. O império atravessava uma crise. A adoração votada ao chefe do estado como se fosse uma divindade exprimia a submissão. Décio e Diocleciano não podiam permitir-se a mínima tolerância para com esses sectários chamados cristãos e que se recusavam a adorar a imagem do imperador. Por isso o i9mperador divinizado veio a acrescentar-se às divindades que o cristianismo tinha de combater.

Um outro deus-soldado, Mitra, impôs-se igualmente aos homens desse tempo, e de uma maneira também diferente. Mitra estava muito próximo do Sol Invencível e o seu culto foi favorecido pelos imperadores, a partir de Cómodo. Quis a sorte, ironicamente, que fosse um imperador perverso e sádico a dar à religião de Mitra a sua posição predominante em Roma.
Mitra chegou, sem dúvida, ao mundo romano através da Pérsia, o país de Zaratrusta. Os persas viram nele o intermediário entre as potencias celestes de Ormuzd e as potencias maléficas de Arimânio. É por isso que Mitra está próximo do homem no combate entre o bem e o mal. O mito conta que Mitra foi um poderoso guerreiro e caçador que combateu o deus-sol e, em seguida, se tornou seu amigo. Na aurora do mundo capturou o grande touro que simboliza aquele. Sacrificou o touro por ordem do deus-sol; desta oferenda saíram o novo mundo e todos os seres vivos.
Os adeptos de Mitra eram obrigados a lutar do lado do bem contra o mal; a sua doutrina ensinava as boas obras e o perdão. A iniciação na comunidade Mitra comportava sete graus e cada um deles possuía o seu cerimonial próprio. Um ritual impressionante e característico fazia do impetrante o soldado da divindade. A cerimónia terminava pela entrega duma coroa – a distinção honorífica mais apreciada dos legionários -, que devia ser recusada. A honra cabia ao deus. O culto de Mitra facultava a estes soldados mal educados um ideal cavalheiresco. O sentido do dever e a disciplina eram exaltados como as virtudes mais perfeitas. O programa religioso do culto de Mitra tinha um pronunciado carácter viril.

Como se comportavam os velhos deuses olímpicos na época imperial? Oficialmente mantinham a sua posição privilegiada; nos veneráveis templos antigos conservavam-se como os guardas da tradição. Mas já não preenchiam essa função na vida religiosa do povo, enquanto as classes dirigentes há muito procuravam o seu suporte espiritual nos sistemas filosóficos, como sejam as doutrinas dos cépticos, dos epicuristas e dos estóicos.
Baco – o Dionísio dos Gregos – era uma excepção, não como deus do vinho, mas como representante de todos os aspectos vivos e férteis da natureza. O culto de Baco conciliava-se perfeitamente com as novas religiões orientais. Tinha o princípio da expressão pessoal dos sentimentos místicos; pela êxtase, o iniciado podia aproximar-se da divindade.

O que caracterizava então as religiões populares da época imperial, contra as quais o cristianismo tinha de lutar? O que é que lhes permitia impor-se aos espíritos? O que é que as diferençava do culto prestado aos deuses do Olimpo?
Em primeiro lugar eram religiões de mistério. Numa religião de mistério os fiéis formam uma comunidade fechada e os novos adeptos penetram nela após iniciação segundo um cerimonial particular. A iniciação comporta várias fases e atinge o seu ponto culminante no contacto pessoal com a divindade. O homem procura nestas religiões de mistério o meio de se elevar acima do terrestre, de ultrapassar a morte, de se garantir a vida eterna. Um culto é sempre enobrecido pelo desejo de eternidade, mesmo num culto de natureza tão grosseira como o prestado a Cibele. Na antiga religião, o reino de Hades não podia atrair ninguém. Mas a própria morte não punha termo ao alegre cortejo de Dionísio; a alma humana que, durante a sua vida terrestre, se tinha consagrado a Dionísio podia esperar uma participação no poder divino e, assim, vencer a morte.
Existiam outras religiões de mistério, outras vias que conduziam à vida eterna. Havia muitas pessoas que confiam em Hermes, o guia das almas. Os velhos mistérios gregos de Elêusis que se ligavam às deusas do trigo Deméter e Cora (Perséfona) atraíram grandes multidões durante toda a antiguidade. Sila, Cícero e os melhores imperadores romanos contavam-se entre os seus iniciados. Outros, ainda, faziam de Orfeu o seu profeta. Os restos dos sarcófagos dos séculos II e III que chegaram até nós, mostram-nos o desejo de imortalidade representado por mil símbolos. O norte-africano Apuleio, romancista dos últimos tempos da Antiguidade e fervoroso adorador de Ísis deixou-nos um esplêndido exemplo de lenda baseada no desejo de imortalidade surgido nessa época, na história de Amor e Psiqué. Amor, o deus do amor, ama Psiqué, uma princesa mortal. Os dois amantes estão separados e Psiqué tem de empreender uma viagem longa e perigosa, mas o amor fá-la triunfar de todas as privações até poder reunir-se ao seu apaixonado em núpcias celestes. Psiqué significa «calma»; em centenas de sarcófagos encontramos a pequena Psiqué a voar ao encontro de Amor, simbolizando assim o amor, um sentimento que para os romanos, vencia todos os perigos, mesmo amorte, e fazia a alma humana participar na vida eterna.
(Carl Grimberg)

– Os primeiros cristãos –


HISTÓRIA DE ROMA: A RELIGIÃO
– Os primeiros cristãos –
Na descrição feita por Tácito das perseguições ordenadas por Nero contra os primeiros cristãos encontra-se a primeira referência dos historiadores antigos ao cristianismo. Data de cerca do ano 100 e começa assim:
«Nenhum recurso humano, nem larguezas principescas, nem cerimónias expiatórias faziam recuar o boato infamante segundo o qual o grande incêndio fora ordenado. Por isso, para desfazer a acusação, Nero considerou culpados e infligiu refinados tormentos àqueles que se tornaram detestados pelas suas abominações e a quem o vulgo chamava cristãos. Este termo vem de Cristo, a quem, no tempo de Tibério, o procônsul Pôncio Pilatos entregara ao suplício. Imediatamente reprimida, esta detestável superstição ressurgiu, não só na Judeia, onde nascera o mal, mas também em Roma, onde tudo o que há de medonho e vergonhoso no mundo acorre e encontra uma numerosa clientela.»

Quando menciona estes «crimes» cometidos pelos cristãos, Tácito torna-se, sem dúvida, intérprete dos boatos que circulavam em Roma, segundo os quais as comunidades cristãs sacrificavam homens no decurso das suas cerimónias rituais e lhes comiam a carne; estas horríveis narrativas provinham duma má interpretação, por parte dos pagãos, da doutrina cristã e, em particular, da presença na eucaristia do corpo e do sangue de Jesus.
Não há fontes mais antigas a respeito do maior movimento espiritual do mundo; e o facto não é devido exclusivamente às destruições provocadas pelo tempo. A razão é simples: durante muito tempo, os cristãos foram considerados uma pequena seita religiosa sem importância. Aliás, as suas fileiras eram constituídas por sobretudo por humildes pescadores e outras pessoas de condição modesta, pouco habituadas a manejar a pena. Durante esse período, a doutrina cristã e a história das comunidades transmitiram-se oralmente. Quando foi preciso fixar um ou outro ponto do Novo Testamento, era geralmente utilizado um grego muito elementar, que era a língua veicular mais corrente.
Esta simplicidade foi reforçada pelo estilo concreto, imagístico e realista das narrações evangélicas. A sua linguagem é tão simples e clara que pode ser compreendida por todos. No decorrer dos tempos, este «livro popular» tornou-se o livro de todos os povos. Nenhum outro foi publicado com tão grande número de exemplares nem traduzido em tantas línguas.
No reinado do imperador Tibério, Jesus da Nazaré levou a sua mensagem a multidões atentas nas margens do lago de Genesaré; profetizava um reino que «não seria deste mundo», mas que uniria todos os povos da Terra numa fraternidade espiritual. Somente alguns anos depois da morte do Mestre, que se julga ter ocorrido por volta dos anos 30, é que o Evangelho chegou à cidade das sete colinas.
Num mundo de crueldade e desprezo pela pessoa humana – muito particularmente pelos escravos e gladiadores – levantou-se subitamente uma voa «Ama o próximo como a ti mesmo!»
Quem teria podido supor então que a perniciosa superstição dos pobres cristãos, como dizia Tácito, se iria estender um dia a quase todo o mundo romano e marcar na história do mundo o início de uma nova era? Durante muito tempo, o cristianismo, para o romano médio, não foi mais que uma dessas numerosas religiões orientais que invadiram o país ao mesmo tempo que o helenismo e, inicialmente, uma das menos notáveis.
(Carl Grimberg)

13/05/17

Prisca Theologica



A Igreja Católica, uma das maiores instituições que floresceram no âmago da civilização ocidental foi durante cerca de treze séculos a grande responsável pelo lento progresso da humanidade.
A partir do final do século XIV, o esforço secular, humanista e intelectual da Renascença, produziu aquilo a que Engels chamou «a maior revolução progressista que a Humanidade já viveu» dando origem a uma nova era de humanismo e reforma, juntamente com o interesse pela ciência, pela medicina e pela filosofia, amplamente auxiliada pela invenção, no séc. XV, da prensa móvel e da impressão de livros (somente em século e meio, de 1450 a 1600, o número de livros existentes no mundo, passou de menos de trinta mil, todos eles escritos à mão, para mais de cinquenta milhões de livros impressos).
Opondo-se ao pensamento humano em ascensão, caminhava o Catolicismo iníquo. A igreja Romana amordaçava com determinação a expressão pública das ideias radicais e perseguia energicamente os autores de qualquer filosofia diferente. Embora sustentassem a proliferação de um conhecimento teológico autorizado entre as classes privilegiadas e cultas, num sentido mais lato, os chefes da igreja eram instintivamente anti-intelectuais e deliberadamente obscurantistas. Para que os cardeais continuassem a preservar acerrimamente a sua existência terrena privilegiada, quanto menos os leigos soubessem, melhor.
Poucos duvidam que no princípio, a fé cristã se tenha pautado pela lisura, mas as aspirações humanas depressa foram corrompidas pela instituição e a Igreja afundou-se rapidamente num atoleiro de corrupção.
Quando os filósofos começaram a aprofundar os seus estudos do funcionamento do universo e a «ciência» indutiva substituiu o raciocínio dedutivo, tornou-se claro que a ortodoxia da Igreja fornecia modelos inadequados e paradigmas duvidosos, tornando irreconciliável o que era observável e quantificável com a teologia apresentada.
Esta incompatibilidade entre os pensadores do fim do renascimento e os teólogos cristãos ortodoxos tem as suas raízes em tempos mais antigos, remontando o conflito aos primórdios do predomínio cristão: ao primeiro Concílio de Niceia.
No ano 325, o Imperador Constantino, o mentor da civilização ocidental, viu-se imerso no conflito teológico, inundado por questões doutrinárias, tendo que se defrontar com um dos maiores desafios da sua governação. A causa de tudo isto foi apenas uma. A doutrina escrita da fé cristã fornecera um modelo para o estabelecimento de uma Igreja e autorizara os líderes cristãos a encontrarem as bases para uma nova sociedade num ambiente político extremamente frágil, criado pelo rápido declínio de Roma. Porém os bispos da Igreja, homens extremamente poderosos neste novo mundo cristão, debatiam entre si alguns dos princípios basilares da fé, questões que não estavam claramente definidas nos Evangelhos, nem haviam sido expostas em termos adequados nos textos sagrados desta doutrina. E, neste mundo instável, as questões da doutrina religiosa podiam revelar-se incendiárias, podendo mesmo desencadear uma hecatombe global que consumiria indistintamente imperadores, reis e papas.
Deste modo, num enorme esforço de conservação do seu domínio sobre o tecido político e religioso do seu tempo, Constantino convocou uma imensa assembleia com padres da Igreja e políticos regionais com o propósito de solucionar o problema a favor do Cristianismo, uma doutrina definida por ditames muito estritos que de facto enterraria as questões difíceis e responderia às que encerravam menores dificuldades. Desta forma, um consenso travaria o avanço rápido para a separação entre a Igreja e o Estado e atrairia os rebeldes para um tipo comum de veneração.
Foi então em 325 da nossa era que muitos dos que são hoje considerados os pressupostos fundamentais da Igreja foram idealizados e concebidos para os homens por outros homens que se faziam substituir a Deus. Em Niceia os seus membros foram ao âmago da doutrina e da religião cristã. A consequência mais importante extraída da apreciação dos inúmeros pontos doutrinários  ao longo de muitas sessões de debate foi a enorme influência que teve no percurso do cristianismo e por meio dele, nas vidas e nas ideias de muitos pensadores conceituados desde o século IV até aos nossos dias.
Os membros do concílio decidiram sobre a verdadeira natureza de Deus.
Na tentativa de conceberem uma noção inteligível de Deus, redigiram a sua própria teologia, para que fosse simultaneamente académica e de fácil entendimento pelos que não tinham instrução. Esta doutrina, a par do conceito da Santíssima Trindade, foi criada e votada. Deste modo, ficou determinado que o único Deus era Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai , ou «soberano», transcende todos os limites finitos e é imortal e omnipotente. Jesus Cristo tornou-se muitíssimo mais importante do que um mero profeta com poderes conferidos por Deus e ascendeu ao estatuto de «Filho de Deus», ou de «Palavra feita carne», divindade encarnada. O terceiro elemento, o Espírito Santo, representa a centelha divina em todos os crentes, e é outra forma de expressar a fé ou santidade. Deste modo, para os Católicos, a Eucaristia tornou-se uma transubstanciação genuína na qual a carne e o sangue do próprio Jesus são consumidos.
Esta posição radical ficou conhecida como a doutrina de homoousios (de uma única substância) e foi gerada a partir do argumento pseudo-intelectual dos teólogos do século IV, ansiosos por encontrarem uma definição de Deus. A questão muito debatida da natureza de Deus ocupara o centro da discussão entre os bispos. De um lado estava o Bispo de Alexandria, Atanásio, de trinta anos, que pregava a ortodoxia, ao passo que uma opinião muito diferente era defendida por Ário, um sacerdote rebelde de Alexandria, à época com setenta e sete anos de idade. Ário criara a seita do Arianismo, edificada em torno do homoiousos (de substância idêntica), que rejeitava a noção de que Cristo era da mesma substância de Deus, e declarava que a encarnação de Jesus não era um aspecto de Deus, mas que o Filho, enquanto que divino e idêntico a Deus («de substância idêntica»), fora criado por Ele. Ário disse de Jesus Cristo "Houve um tempo em que ele não existiu". Constantino, permitiu que o concelho deliberasse a favor de Eutanásio e da sua doutrina e de então em diante, o Arianismo passou a ser concebido como doutrina oposta aos ensinamentos cristãos oficiais. Muitos ignoraram esta decisão e, de facto, o Arianismo floresceu nos primeiros dois séculos seguintes ao Concílio de Niceia, mas, por volta do século VI, os seus adeptos foram marginalizados e perseguidos quase até à extinção e o Arianismo tornou-se secreto, sendo rapidamente encarado pelos Católicos como a maior doutrina herética.
Durante a época medieval a Igreja de Roma tornou-se cada vez mais política e mundana, fundindo o espiritual com o secular por forma a que o papa se tornasse tanto o chefe de um estado soberano como um líder espiritual. Para financiar ambições pontifícias, a Igreja comprometeu amplamente a teologia, e quando a sua doutrina fabricada se revelou inadequada, os cardeais forçaram a interpretação das escrituras até ao limite.
Talvez a expressão mais evidente disto seja a utilização cada vez mais generalizada das «indulgências» para encherem os cofres do Papa. Através do sistema das indulgências, os pecadores podiam pagar a absolvição dos seus pecados e sucessivos papas perverteram de tal modo este processo que, na época da Reforma, este simples artifício tornara-se já uma importante fonte de rendimento do Vaticano. O frade Johann Tetzel, viajou pela Europa a vender indulgências à populaça a partir de uma banca instalada na praça de cada cidade que visitava. Até vendeu indulgências absolvendo pecados antes mesmo de serem cometidos. Com este artifício, um assassino podia receber a absolvição antes mesmo de cometer aquele acto criminoso.
Mas nem todo o dinheiro ganho com este negócio (que passou por inúmeros soberanos) foi usado no financiamento das aspirações políticas dos papas; muito deste «ouro dos pecadores» voltou a encher os cofres papais esvaziados com os gastos feitos em festins orgiásticos, especiarias raras, sedas finas e no serviço de prostitutas especializadas. Com isto, as indulgências do papa e dos seus cardiais preferidos de Roma foram pagas pelas indulgências do campesinato, apesar de todo este espectáculo deplorável ser sancionado por Deus.
À medida que se assistia a uma escalada desenfreada desta hipocrisia, Erasmo, um académico católico profundamente honesto, escreveu uma série de ataques mordazes dirigidos ao clero e revelou a clara disparidade entre «Verdade» e doutrina oficial. O seu livro «Elogio da Loucura» tornou-se tão popular que depressa foi traduzido em pelo menos uma dúzia de línguas.
A Santa Sé cimentara longamente a sua posição privilegiada mantendo os laicos na absoluta ignorância. Todos os textos religiosos, incluindo a Bíblia e o livro de orações, estavam disponíveis apenas em latim, sendo esta a língua usada nos serviços religiosos e na redacção de todos os documentos oficiais. Isto significava que a ampla maioria do povo não fazia a mais pequena ideia do que era dito na igreja ou transmitido pela sua doutrina.
De repente, na prosa de Erasmo, eram colocadas questões delicadas e em vernáculo e, com elas, a suspeição ao clero. Instigados por intelectuais e por membros do baixo clero, como Lutero e Calvino, os leigos começaram a pedir o esclarecimento da situação. A Igreja, inicialmente indolente e demasiado confiante ficou tão surpreendida que quase entrou em colapso. Apercebendo-se do perigo que a ameaçava, a Igreja reagiu com medidas drásticas com o objectivo que a Reforma de Lutero alastrasse a todo o norte da Europa. Numa tentativa de reeducação das massas, foi constituída, em 1534, por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus ou Jesuítas. O Concílio de Trento teve lugar em 1545 e reuniu-se depois, a intervalos irregulares, a fim de delinear a política papal para anular os ataques teológicos. Essa assembleia constituída por altas esferas da hierarquia da Igreja, decretaria o julgamento de Galileu, quase um século mais tarde e através da sua actuação arrastaria a Europa para a pior guerra religiosa da história, a Guerra dos Trinta Anos, iniciada em 1618.
Mas a decisão política mais controversa, tomada para conter a crescente vaga de protestantismo, pensamento científico e heresia, foi a criação da Inquisição Romana, instituída pelo papa Paulo III, em 1542, revitalizando a Inquisição Papal, instituída em 1231 por Gregório IX, com o objectivo de eliminar os Albigenses (ou Cátaros) e que já realizava o seu trabalho sangrento desde o século XIII. O seu dever oficial era investigar e reeducar, trazer almas perdidas de novo para a Santa Madre Igreja; mas, na verdade, a Inquisição era uma terrível arma de vingança, um mecanismo para matar. Esta organização exterminou mais de um milhão de homens, mulheres e crianças (à época, uma em cada duzentas pessoas existentes na Terra).
Paulo III decidindo ressuscitar a antiga instituição, deu-lhe corpo e conferiu-lhe poderes ainda mais draconianos, voltando forçando deliberadamente a interpretação das Escrituras para desculpar a enorme quantidade de castigos, que incluíam a confiscação de todas as terras e bens, prisão celular em isolamento e praticamente todos os tipos de crueldade física e mental. Grupos de investigadores treinados viajavam pelos diversos reinos da Europa a recolher informação sobre hereges suspeitos. O medo antecedia-os, e valiam-se de técnicas psicológicas subtis para o intensificar. Nos dias que antecediam a sua chegada eram afixados cartazes a anunciar a sua chegada iminente. O Inquisidor entrava na cidade acompanhado por uma procissão solene de monges encapuzados. Os espiões já tinham previamente identificado alguém detentor de conhecimentos heréticos e essas pessoas eram capturadas e levadas à presença do Inquisidor. A denúncia e a delação eram estimuladas. Se um transgressor conseguisse denunciar uma dúzia de suspeitos, os seus próprios pecados eram perdoados e era poupado à fogueira.
Para se fazer uma acusação de heresia bastava o testemunho de dois informadores. O suspeito ficava preso durante toda a fase de interrogatórios e a Inquisição nunca tinha pressa em terminar o seu trabalho. Muitas vítimas inocentes morreram no cárcere enquanto aguardavam que o Inquisidor avaliasse as suas confissões, outras eram torturadas até à morte, ou, desesperadas, confessavam crimes dos quais eram de facto inocentes e dos quais nada sabiam. Os informadores nunca eram identificados e os depoimentos que haviam feito em relação ao suspeito não eram revelados. Aos suspeitos era sempre recusado um advogado e as acções da Inquisição eram levadas a cabo no mais absoluto sigilo, assim, muitas vezes as vítimas simplesmente desapareciam.
Tal despotismo teve consequências na moldura social e política do mundo ocidental. Um retrato esclarecedor é o homicídio de cerca de 30.000 mulheres e muitas centenas de homens e crianças, entre 1500 e 1650. O crime destas vítimas não foi de facto nenhum. Apenas má sorte. Foram suspeitas de bruxaria, uma ironia bem amarga já que a Igreja rejeitava a noção do oculto.
Todavia, as seitas protestantes, na sequência da bem sucedida rebelião de Lutero, em muitos aspectos, não eram melhores do que os Católicos. À semelhança dos seus congéneres papistas, os líderes luteranos e calvinistas deixaram-se levar pelo interesse próprio e pela ilusão, e também eles se entregaram a orgias de violência e perseguições.
Uma das suas vítimas foi Miguel Servet, notável e talentoso médico que sustentou ideias religiosas perigosamente sinceras e as publicou em livro, em 1531, um tratado que clamava sem reservas o abandono do postulado conceito da Santíssima Trindade. Preso pela Inquisição vienense em 1533, conseguiu fugir para Genebra, o epicentro do Calvinismo, onde julgou encontrar refúgio. Mas Calvino também não gostou das suas ideias religiosas e em vez de refúgio, mandou que fosse preso, julgado e sentenciado à morte. Conta que a execução na fogueira o supliciou a uma morte muito lenta, tendo levado duas horas para o matar.
Mas semelhante crueldade foi apenas um aspecto como o extremo zelo religioso se tornou uma força destruidora. Extremistas de todas as comunidades religiosas mataram concidadãos seus, e a severidade e a paranóia impeliram nações inteiras para lutas violentas, rebeliões e finalmente a guerra.
Em 1562 eclodiram guerras civis em série, conhecidas como Guerras de Religião, que conduziram a um conflito europeu que durou 35 anos. Em Paris e noutras cidades importantes a fricção entre os Calvinistas franceses conhecidos por Huguenotes e os Cristãos originou um conflito que atingiu o seu clímax sangrento na dia do Massacre de S. Bartolomeu, a 24 de Agosto de 1572, quando cerca de setenta mil protestantes foram chacinados. A guerra civil levou mesmo ao assassínio do rei de França, Henrique III em 1589 e só em 1598 foi reposta uma certa ordem, com o Édito de Nantes, criado pelo corajoso e determinado Henrique IV, onde se declarava liberdade de consciência e igualdade de direitos legais e educacionais para os protestantes franceses.
Numa coluna, a devoção religiosa legou-nos obras magníficas. Enriquecem-nos os trabalhos de Giotto, Dante, Ticiano, Miguel Ângelo, Milton, Palestrina, Mozart, e muitos outros. Mas também temos de considerar a coluna dos débitos onde temos a caça às bruxas, os homens da Inquisição, as guerras religiosas, os atentados bombistas, as crianças mortas, o terrorismo.
O CONFLITO RELIGIOSO É TODAVIA RECRUDESCENTE.
PELO MUNDO FORA UMA FÉ CORRUPTA CONTINUA A ESPALHAR ANGÚSTIA.


(Apontamentos retirados e adaptados do livro "Giordano Bruno - O Filósofo Maldito", da autoria de Michael White)

16/05/13

Fuga para o Egipto



A Fuga para o Egipto é o evento bíblico em que José foge para o Egipto com sua esposa Maria e seu filho Jesus, quando sabem que o rei Herodes planeia matar todos os recém-nascidos da região. O episódio é considerado o episódio final da Natividade e é um tema frequente na arte cristã.



































Rubens - Fuga para o Egipto
Carpaccio - Fuga para o Egipto
Tintoretto - Fuga para o Egipto
Brughel (o velho) - Fuga para o Egipto
Patinir - A fuga para o Egipto
Gentile da Fabriano - A fuga para o Egipto (1423)
Corregio - A Fuga par o Egipto com S. Francisco
Paula Rego - Fuga para o Egipto 
Paula Rego - Repouso na fuga para o Egipto - C.P.A.
Carraci - Fuga para o Egipto
Caravaggio - Fuga para o Egipto
Poussin - Descanso na fuga para o Egipto
Elsheimer - Fuga para o Egipto
Elsheimer - Fuga para o Egipto
Elsheimer - Fuga para o Egipto
Murillo - Fuga para o Egipto

Murillo - Fuga para o Egipto - Descanço
Zurbaran -Fuga para o Egipto 
Rubens - Fuga para o Egipto

Zurbaran - Pausa na fuga para o Egipto - 1659
Rembrandt - Fuga para o Egipto
Van Dyck - Fuga para o Egipto



01/05/13

São Sebastião

São Sebastião, 256 Narbonne (França) - 286 (Roma), foi um mártir e santo cristão, morto durante a perseguição levada a cabo pelo imperador romano Diocleciano. Era querido dos imperadores Maximiano e Dioclesiano, que o queriam sempre próximo, ignorando tratar-se de um cristão e, por isso, o designaram capitão da sua guarda pessoal, a Guarda Pretoriana. A sua conduta branda para com os prisioneiros cristãos levou o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, tendo ordenado a sua execução por meio de flechas (que se tornaram símbolo constante na sua iconografia).


Antonello de Messina
Rafael
Ticiano

Ticiano
El Greco
Pontormo
Veronese
EL Greco
Delacroix

Daumier:
George de Latour
Elsheimer
Rubens

Gregório Lopes
:


Rubens:



Van Dyck:


28/04/13

Sansão e Dalila

Sansão, cujo nome significava "homem do sol", era um nazareno dotado de extraordinária força. Era um dos  juízes bíblicos cuja história está descrita no Livro dos Juízes (13-16) e no Novo Testamento (Hebreus 11,32).
Conta-se que Deus o terá chamado para libertar o povo de Israel que vivia dominado pelos Filisteus. Estes, que tinham um medo enorme da força do nazareno, tentavam sem sucesso prendê-lo. Os governantes Filisteus, sabendo da paixão deste pela finisteia Dalila, aliciaram a jovem, com 1100 moedas de prata, a descobrir a origem da sua força invencível. Dalila amava Sansão, mas este amor era inferior ao que sentia pelo seu povo. Com o seu grande poder de sedução, Dalila tentou não só desvendar o segredo da sua  força, como também arranjar uma forma para que ele fosse dominado pelos Filisteus.
Dalila conseguiu saber o segredo da força de Sansão. Este disse-lhe que, se os seus cabelos fossem cortados, a sua força abandoná-lo-ia e ficaria fraco como uma criança. Sansão adormeceu no colo de Dalila e esta, suavemente, cortou-lhe os caracóis dos cabelos. Acordado pela chegada dos Filisteus, Sansão acreditava ainda ter força, mas foi rapidamente dominado pelos soldados, que lhe perfuraram os olhos e o prenderam com algemas de bronze.
Sansão foi exposto e humilhado publicamente, no caminho do templo de Dagon, onde foi amarrado aos dois pilares que sustentavam o enorme edifício. A população juntou-se aos milhares para ver a derrota de Sansão e este, num último esforço, pediu a Deus que lhe devolvesse a força, por instantes. Foi, então, que Sansão, heroicamente, fez ruir os pilares, causando a destruição do templo e, consequentemente, a morte dos Filisteus, de Dalila e do próprio Sansão.


Daumier
Sansão e Dalila





Sansão e Dalila



Rembrandt



Mantegna
Sansão e Dalila


Cranach
Sansão e Dalila


Paula Rego
Sansão e Dalila - Série Jardim Crivelli



Carracci
Sansão aprisionado



Rubens
Sansão e Dalila