Mensagem de boas vindas

Bem Vindo ao blog Campo da Forca. Apontamentos pessoais também abertos a quem os quiser ver.

22/01/12

A Oração de Gettysburg - Presidente Lincoln

Há oitenta e sete anos, neste continente, os nossos antepassados doaram ao Mundo uma nova nação concebida na liberdade e baseada no princípio de que todos os homens foram criados iguais. Estamos hoje envolvidos numa tremenda guerra civil que provará se esta nação, ou qualquer outra formada e dirigida do mesmo modo, pode resistir a tais crises. Encontramo-nos, neste momento, num dos grandes campos de batalha desta luta e queremos consagrar uma parte dele à última morada dos que aqui sacrificaram a própria vida pela existência do país.
É justo que o façamos porém, num sentido mais profundo, não nos compete abençoar ou consagrar este solo. Os heróis, vivos ou mortos, que nele pelejaram já o santificaram a tal ponto, que as nossas fracas forças nada lhe podem acrescentar nem tirar. Mais tarde, o Mundo esquecerá o que hoje aqui foi dito: todavia jamais poderá olvidar os feitos de que este campo foi teatro. Cabe-nos a nós, os vivos, dedicarmo-nos à continuação da obra que os combatentes aqui iniciaram. Compete-nos realizar a sublime tarefa que esses grandes mortos nos legaram e, com crescente espírito de sacrifício, levar à vitória a causa que aqui os fez exalar o derradeiro alento. Cumpre-nos fazer que esses homens não tenham tombado em vão, que, com o auxílio de Deus, a Nação assista à renascença da liberdade e que o governo do povo pelo povo não desapareça da face da terra.

11/12/11

Caracterologia - 3ª (e última) Parte



Caracterologia das propriedades

O método do estudo das propriedades dos caracteres (impulsivo, mentiroso, irritável, etc.) é outro método de estudo dos caracteres.
Notar que «o objeto humano» não se presta bem a inspeções e que os julgamentos podem modificar a natureza das propriedades.
Existem inumeráveis sistemas caracterológicos estabelecidos a partir do método das propriedades. Vamos só considerar os que têm valor em psicotécnica e eventualmente em psicoterapia:

A caracterologia de Malapert
Utiliza os três géneros de Ribot (os sensitivos, os ativos e os apáticos) ou (Fouillé) os sensitivos, os intelectuais e os voluntários.
Malapert começa por estudar quatro propriedades:
Sensibilidade (distinguem-se Apáticos, Sensitivos, Emotivos e Apaixonados),
Inteligência (distinguem-se Analistas, Críticos, Refletidos ponderados  e Especulativos), Atividade (distinguem-se Inativos, Ativos e Reativos) e
Vontade (Abúlicos ou rotineiros, Meio voluntários ou Veleidosos e Grandes voluntários).
Malabert apresenta, depois de definir estes tipos parciais, a maneira como se combinam num todo:
Apáticos, divididos em
            Apáticos puros (Obtusos e Inertes),
            Apáticos inteligentes (Calculadores) e
            Apáticos ativos (Lentos e Calmos),
 Afetivos, divididos em
             Sensitivos (Sensitivos vivos e Sensitivos passivos),
             Emotivos (Emotivos melancólicos e Emotivos impulsivos) e
            Apaixonados,
Intelectuais, divididos em
             Intelectuais afetivos (Diletantes e Apaixonados) e
             Especulativos,
Ativos, divididos em
             Ativos medíocres,
             Agitados e
             Grandes ativos,
Temperados divididos em
              Amorfos (Equilibrados medíocres) e
               Equilibrados superiores e
Voluntários, divididos em
              Senhor de si (Tipo de luta e Ponderados) e
               Homens de ação.

A tipologia de Jaensch
Baseado no fenómeno da imagem eidética (as imagens eidéticas orientam-se frequentemente no sentido das imagens consecutivas – perceção puramente periférica – ou das imagens ideafetivas – imagem de evocação – Assim podem distinguir-se sujeitos que têm imagens eidéticas de tipo central e sujeitos que têm imagens eidéticas de tipo periférico. Estes dois fenómenos corresponderiam a duas propriedades caracterológicas fundamentais:
          «Tipo integrado» e
          «Tipo desintegrado».
A pessoa integrada é uma pessoa que está inteira em cada uma das suas partes. Existe estreita dependência não só entre as diferentes funções psicológicas, mas também entre o mundo pessoal e o mundo exterior.
O desintegrado é uma pessoa relativamente firme e impermeável. A sua personalidade vive uma vida própria, fechada e contínua. Permanece fechado às sugestões exteriores.

A tipologia de Jung
Jung chegou à definição de um
      «Tipo introvertido» e um
      «Tipo extrovertido»,
palavras que entraram no vocabulário não especializado.
O introvertido é, em menor ou maior grau, refratário a influência do mundo exterior. O extrovertido volta-se para o mundo exterior e adere ao meio.
Já Binet tinha distinguido entre
        «Tipo subjetivo» e
         «Tipo objetivo».

O sistema caracterológico de Heymans e Wiersma e a caracterologia de Le Senne

As três propriedades gerais que se distinguem são:
        a Emotividade,
        a Atividade e
        a Repercussão das representações.
Combinando-se formam oito tipos. Cada tipo caracterológico recebe uma fórmula e um nome. Distinguem-se:
  • Emotivos (E) inativos (nA) primários (P)……………EnAP            nervosos
  • Emotivos inativos secundários (S)………………………EnAS          sentimentais
  • Emotivos ativos (A) primários……………………………EAP             coléricos
  • Emotivos ativos secundários………………………………EAS             apaixonados
  • Inemotivos (nE) ativos primários………………………nEAP            sanguíneos
  • Inemotivos ativos secundários…………………………nEAS             fleumáticos
  • Inemotivos inativos primários…………………………nEnAP             amorfos
  • Inemotivos inativos secundários………………………nEnAS            apáticos

Complementos  

Caracterologia reflexológica
A criação duma caracterologia reflexológica baseia-se na observação de que a Excitação e a Inibição se comportam como duas funções opostas, cuja importância relativa é diferente nos diferentes indivíduos da mesma espécie.
Esta tipologia foi, antes de estabelecida para os animais e só depois foi aplicada ao homem.
Estuda os reflexos condicionados, os estímulos condicionais e os fatores que comandam a dinâmica do sistema nervoso central.
Ivanov-Smolensky (Escola de Pavlov) distinguiu os seguintes tipos:
      Tipo equilibrado,
      Tipo excitável,
      Tipo inibido e
      Tipo inerte.

O estudo da inteligência
O estudo da inteligência, considerada como aptidão operacional, não pode ser negligenciado do ponto de vista estritamente caracterológico.
Paulhan classifica os espíritos em
      «espíritos lógicos»,
       «espíritos falsos»,
       «espíritos ilógicos» e
       «espíritos pueris».

Mentré distingue o estudo dos caracteres  e o estudo das maneiras de pensar, que seria a noologia.

Spanger, no seu sistema, distingue seis tipos (homem estético, homem económico, homem teórico, homem religioso, homem político e homem social. Cada grupo comporta variedades superiores e variedades inferiores. Observam-se por outro lado, certo número de combinações particularmente frequentes (económico-político, social-religioso, teórico-estético); e oposições  (a social-religioso com teórico ou económico,  ou de político com estético-religioso).

A caracterologia sociológica
Qualquer caracterologia social é uma caracterologia das propriedades e, por outro lado, qualquer caracterologia das propriedades tem um fundo social.
O estudo dos tipos criminais efetuado por Lombroso é um exemplo de caracterologia sociológica. Uma caracterologia do criminoso introduz de facto o estudo da caracterologia do normal. Os germes do crime encontram-se em qualquer conduta humana.
Mikhailowski de maneira mais puramente sociológica distinguiu o «Tipo adaptado (prático)» e o «Tipo inadaptado (ideal)» e para ele o tipo adaptado é um tipo inferior que se torna nas sociedades modernas “o apêndice insignificante de um todo inumano”, enquanto o tipo inadaptado participa muitas vezes no caminho do progresso social.
Dentro do âmbito da caracterologia numa perspetiva sociológica concreta é possível realizar estudos das diferentes classes sociais e dos diferentes grupos profissionais, utilizando os três planos metodológicos,  com o método das correlações se um determinado carácter corresponde a uma profissão definida, depois procurar saber se essa profissão não pode aparecer como uma função social que toma o aspeto de uma propriedade específica e por fim estudar a possibilidade de uma causalidade psicossocial, por exemplo, se o fato de pertencer a uma determinada classe social determina ou não certos aspetos do caráter.

Szondi estabeleceu correspondências entre os tipos caracterológicos derivados da psicologia patológica e grupos de profissões:
  • Homossexual (ternura, servir outrem, submissão, feminilidade passiva; o tocar é a caraterística dominante): cabeleireiro, maquilhador, dermatólogo, ginecólogo; empregado de estabelecimentos balneares, negócios com roupa branca, costureiro de moda, artista, cantor, dançarino; empregado de café, hoteleiro, pasteleiro, cozinheiro.
  • Sádico (agressividade, necessidade de poder, virilidade ativa, a caraterística dominante é a sensibilidade cinestésica e muscular): cocheiro, empregado de quinta, domesticador de animais, veterinário, matador de animais, enfermeiro de operações, cirurgião, dentista, anatomista; carrasco; homem do talho, partidor de pedra, mineiro, sapateiro, escultor; motorista, soldado; lutador, professor de ginástica, massagista.
  • Epilético (acumulação de afetos brutais e descarga em momentos inesperados; sentido do equilíbrio, servir): entregador de mercadorias, cocheiro, marinheiro, aviador; ferrador, motorista, bombeiro, pirotécnico, padeiro, limpa-chaminés; padre, monge, freira, assistente social.
  • Histérico (acumulação de sentimentos finos e descarga desses sentimentos em momentos inesperados; exibicionismo afetivo): apregoadores de feira ou das ruas; artistas, comediantes; políticos
  • Esquizofrénico Catatónico (fechar-se em si, admiração de si próprio, narcisismo, egocentrismo, autismo; eliminação dos órgãos sensoriais): soldado; professor – matemática, física, filosofia ; contabilista, telegrafista; desenhador de cartas geográficas, gravador; guarda-noturno, guarda de farol; manequim.
  • Esquizofrénico Paranóico (dilatação do ego, dar importância a si próprio, inflação psíquica, criação; do ponto de vista sensorial: sentir, ouvir): construtor, organizador; arqueólogo, mitólogo, astrólogo, grafólogo, psiquiatra, psicólogo; músico; farmacêutico, droguista, químico; juíz, detetive, advogado, contra-espionagem.
  • Ciclofrénico Depressivo (busca de objetos e de valores, apego aos objetos acumulados; sentir): logista, filatelista, antiquário, agente de leilões, empregado de museu; limpeza química, pintor, serviços de higiene, desinfeção; varredor de ruas, vendedor de trapos, tripeiro, trabalhador do couro; crítico.
  • Ciclofrénico Maníaco: (gosto pelos objetos, assegurar a posse, ou agarrar-se a objetos, ou ainda rejeitar os objetos; o gosto é dominante): empregado de café ou restaurante, cozinheiro, provador de vinhos; instrumentista de sopro; vendedor e comprador; linguista e professor de línguas; estomatólogo.
Sistema caracterológico de Klages
Procura uma estrutura e dimensão da realidade humana. Distingue entre matéria ou massa do caráter (talentos, aptidões e faculdades), a natureza ou qualidade da personalidade (propriedades, instintos, tendências e móbiles) e a sua estrutura (arquitetura do caráter). Esta disposição seria proveniente de uma força vital inconsciente. Opõe os dois planos da vitalidade (corpo e alma) aos seus dois inimigos (espírito e vontade).

O diagnóstico caracterológico:
Os diferentes métodos de diagnóstico caracterológico rápido são os seguintes:
·         Os questionários e interrogatórios;
·         O estudo dos comportamentos;
·         Os testes projetivos,
·         Os testes do método dos campos significativos;
·         A grafologia e
·         A morfologia somática.

Hereditariedade dos caracteres psicológicos
Galton estudou gémeos monozigóticos. As suas experiências mostraram que a hereditariedade era duas vezes mais ativa do que o meio na determinação do caráter.
Estes trabalhos foram criticados com muita frequência. No domínio da criminologia alguns autores acentuaram, pelo contrário, o papel do meio.
Parece difícil negar a existência de uma caracterologia ligada a determinantes constitucionais. No entanto o grau no qual essa hereditariedade é determinante está muito longe de ser estabelecido e parece provável ser sensivelmente menor do que aquilo que alguns autores pretenderam. Ainda por cima, seria necessário tomar em consideração a ação de uma verdadeira hereditariedade psicológica. Para Freud, o nosso superego constitui-se à semelhança do superego dos nossos pais.

A Evolução dos Caracteres, no decurso da nossa existência
Para os constitucionalistas, os fatores biológicos que constituem os seus alicerces, encontram-se fixados desde a infância.
No entanto a própria psicanálise acentua o dinamismo e plasticidade da criança. Por outro lado, a possibilidade de curas psicoanalíticas acima dos 40 anos, mostra que o carácter apresenta possibilidades de renovação. Mas é preciso sublinhar que não é excecional que os tipos caracterológicos têm uma grande estabilidade. Por outro lado, a transformação do meio pode levar, embora a pessoa permaneça a mesma no que diz respeito ao seu fundo caracterial, a mudanças completas no que respeita à maneira como essa pessoa se mostra no exterior. Assim, vê-se frequentemente que não é um carácter que se modifica, mas sim a natureza das relações caracterológicas.
Portanto, o procedimento sensato, não será tentar transformar um carácter, o que seria quase completamente impossível, mas sim utilizá-lo da melhor maneira, tal como ele é verdadeiramente.


Conclusão
As diferenças que existem entre os três grandes métodos da caracterologia explicam as divergências entre sistemas caracterológicos que por princípio, parecem nunca ser redutíveis. Não deixa de ser verdade que um dos objetivos da caracterologia é atenuar essas diferenças ao máximo e voltando aos grandes sistemas que apresentámos, ver-se-á que já atualmente é possível encontrar-lhes, em certa medida, algumas similaridades.
A objetividade caracterológica não é neutra. A exploração das estruturas age sobre a organização da realidade humana, modifica-a e constitui-a parcialmente. Esta verificação consegue esclarecer um certo número de problemas fundamentais e pode renovar a maneira de conceber uma dificuldade que se coloca classicamente à caracterologia: a liberdade.
Dado que o homem é um ser que se modifica, no seu ser, pelo conhecimento vivido, os fundamentos duma liberdade ontológica devem ser procurados numa propriedade que definisse as relações do ser do homem com o conhecimento vivido desse ser e, inversamente, desse conhecimento com esse ser.

Caracterologia -2ª Parte


Caracterologia clínica e correlacional
O problema central que anima toda a caracterologia correlacionl é se existem ou não tipos humanos.
Existem de facto séries morfológicas que correspondem a disposições ou constituições psicopatológicas determinadas.
A psicologia patológica é o estudo das funções psíquicas através da observação das anomalias que apresentam, (essencialmente trata-se de observação de doentes e de isolar um determinado número de doenças ou formas patológicas típicas (grupos de sintomas que se apresentam geralmente ligados).
A psicolopatologia é o estudo das doenças mentais.
Na psicologia patológica devem ser retidas as doenças mentais que se apresentam como um exagero de tendências normais e que permitem por isso uma verdadeira continuidade entre o normal e o patológico.
Classificação caracterológica derivada da psicologia patológica:
O estudo de Delmas e Boll admite a existência de cinco psicoses – paranoia, loucura, mitomania, mania-melancolia e psicose híperemotiva.
A cada uma destas psicoses corresponde uma disposição psíquica, respetivamente: Avidez, Bondade, Sociabilidade, Atividade e Emotividade. As constituições psicopatológicas paranóica, perversa, mitomaníaca, ciclotímica e hiperemotiva correspondem a cada psicose, enquanto as disposições descritas são relacionadas a funções biológicas fundamentais: nutrição, reprodução e mobilidade.
A personalidade do indivíduo seria determinada por uma união das cinco disposições em proporção variável e o estado patológico seria apenas uma atrofia ou hipertrofia.
As tendências esquizoides:
A esquizofrenia - é uma psicose que se caracteriza por uma atitude autista do doente. A vida psicológica dos sujeitos esquizofrénicos é muito mais fortemente dominada por elementos da vida interior que pelos acontecimentos e exigências do mundo exterior. Mostram perda de contacto com a realidade, com o mundo exterior. Para alguns autores a catatonia, a hebefrenia, a demência precoce e a demência paranoica seriam todas elas variedades desta mesma afeção mental.
A esquizotimia - é um tipo de sujeitos que, apesar de serem ainda indivíduos normais, se aparentam nitidamente, na sua maneira de ser geral, à psicose esquizofrénica.
A esquizoidia – é uma das duas tendências psicológicas normais mais características. A outra é a cicloidia. A esquizofrenia poderia ser considerada uma acentuação da esquizoidia, exagerando a doença o autismo do indivíduo.
As tendências cicloides:
A psicose maníaco-depressiva – caracteriza-se por uma atitude bipolar, com acessos periódicos (sucessivos) que não alteram a personalidade nos intervalos lúcidos e não evoluem no sentido de uma desorganização específica. Nesta psicose apesar da natureza das relações com o mundo exterior se encontrarem modificadas, os doentes continuam em contato com esse mundo exterior. O cicloide permanece de acordo com o seu ambiente. O ciclofrénico oscila efetivamente entre a alegria e a tristeza, passa de estados eufóricos, acompanhados de uma necessidade de expansão, a estados de tristeza que o inibem de maneira profunda.
A ciclotimia – é um tipo de sujeitos que, apesar de serem indivíduos normais, se aparentam nitidamente, na sua maneira de ser geral, à psicose maníaco-depressiva. No ser normal, as duas tendências existem necessariamente uma ao lado da outra em um grau mais ou menos elevado: a ciclotimia e a esquizotimia, parecendo comportar-se como contrárias, têm cada uma o seu papel na vida e devem completar-se.
A cicloidia – é uma das duas tendências psicológicas normais mais características.
Pareceu, a alguns cientistas que a repartição da humanidade em duas categorias deixava de fora numerosos casos:
As tendências histeróides – é uma terceira classe, a classe dos histeróides, cujo protótipo patológico é a histeria. Os indivíduos histeróides mantêm um certo grau de infantilismo, a sua actividade não se encontraria voltada nem para motivos interiores (como nos esquizotímicos), nem para motivos exteriores (como nos ciclotímicos), mas estaria, em vez disso, voltada para si próprio.
As tendências epileptoides – a epileptoidia compreende dois polos afetivos, o da viscosidade e da lentidão e o das reações explosivas. A lentidão das emoções conduziria a uma latência emocional, que se resolveria em descargas bruscas.
As tendências para os desvios sexuais
Também aqui as formas patológicas podem ser consideradas como acentuações excessivas ou monstruosas de tendências normais. As psicopatologias do instinto sexual são:
O onanismo – Considera-se atualmente que o prazer solitário é um fenómeno normal da pré-sexualidade, que se encontra em aproximadamente sete oitavos das crianças. São as representações que acompanham a masturbação, ou a sua frequência e a sua exclusividade numa certa idade, que lhe conferem um sentido patológico.
O sadismo e o masochismo – Designam a voluptuosidade de impor a outrem sofrimentos e humilhações ou de, por outro lado, sofrer essas mesmas coisas. Para a psicanálise, as perversões sádicas e masochistas provêm de uma paragem do desenvolvimento da líbido no estado anal. As formas patológicas são apenas exageros monstruosos de pulsões que também se encontram nos casos normais. Quando o masochismo e o sadismo se manifestam simultaneamente de maneira muito evidente trata-se então do sadomasochismo em que se satisfazem as duas formas de ambivalência: sofrer e fazer sofrer.
A necrofilia – Desvio monstruoso em que o cadáver é tomado como objeto do desejo erótico. A necrofilia apresenta um parentesco evidente com o sadismo - queles que matam ou querem matar no ato sexual não são raros.
O canibalismo – Desvio monstruoso em que o doente não se contenta em infligir sofrimentos ou em matar, chupa o sangue ou come a carne da sua vítima.
O fetichismo – limita a possibilidade da plena atividade sexual à presença de um detalhe.
O voyeurismo – os voyeuristas excita-se eroticamente ao observar as relações sexuais de um par.
O exibicionismo – os exibicionistas só são capazes de se excitar quando se mostram a outrem ao copular, ou exibindo os órgãos genitais.
Impotência – Trata-se de uma espécie de extinção do desejo sexual no homem, ou então, juntamente com um desejo normal ou maior que o normal, de uma impossibilidade de obter a ereção; nas formas mais atenuadas trata-se de uma rapidez demasiadamente grande ou um grande atraso da ejaculação.
Frigidez –  considera-se frígida uma mulher que não consegue ter um prazer completo nas relações sexuais normais com um parceiro sexual normal. Pode apresentar várias formas: ausência total de desejo ou total impossibilidade de chegar ao orgasmo apesar de existir desejo.
Homossexualidade – consiste fundamentalmente numa atração física por indivíduos do mesmo sexo. De maneira geral comporta um forte grau de ambivalência, isto é, manifesta-se ao mesmo tempo pela submissão e pela hostilidade.
Séries caracterológicas das perversões sexuais
A cada uma destas perversões da sexualidade correspondem séries caracterológicas contínuas de estados que permitem chegar ao normal. Pode então reunir-se na mesma classe o sadismo, o masochismo, o canibalismo e a necrofilia, pois, todos eles têm um significado agressivo. A outra classe engloba a homossexualidade, a frigidez, a impotência, o fetichismo, o voyeurismo e o exibicionismo, como formas patológicas caraterizadas pelo desaparecimento das relações sexuais normais, sem que a agressividade se manifeste de maneira dominante ou anormal. Note-se contudo que as associações são muito frequentes entre as tendências dos dois grupos.
As constituições na psicologia patológica
Do ponto de vista da morfologia somática, Kretschmer conseguiu distinguir os seguintes tipos puros: pícnico, leptossómico e asténico e atlético ou muscular. Há ainda os tipos mistos, os atípicos e os displásticos. Efetuaram-se vários trabalhos a fim de conhecer as ligações entre os tipos psicopatológicos e caracterológicos e os tipos morfológicos, tendo-se concluído que há uma grande concentração de ciclotímicos pícnicos e de esquizotímicos leptossómicos. Admite-se pois que a ciclotimia se encontra habitualmente ligada à constituição pícnica (brevilínea) e a esquizotimia à constituição leptossómica (longilínea).
Caracterologia correlacional
Correlação entre as aptidões – As aptidões são uma espécie de ferramentas ou instrumentos que permitem ao homem fazer determinadas operações. O carácter pode ser definido como aquilo que explica que, em presença das mesmas circunstâncias, dois indivíduos que disponham das mesmas capacidades intelectuais e técnicas reajam de maneira diferente. O estudo das aptidões permite assim a criação de métodos de análise de correlações. Existe uma ligação funcional entre dois fenómenos quando, sendo cada um deles mensurável, o conhecimento de uma das variáveis assim definida permite determinar o outro sem ambiguidades. Para medir a intensidade dessa ligação utilizam-se medidas chamadas coeficientes de correlação. As correlações passam a ser tratadas pelos métodos de análise fatorial . O problema da subjetividade dos avaliadores conduz à introdução de métodos estatísticos no ato através do qual se atribui um determinado carácter a alguém. Utilizam-se os métodos de análise da variância, as avaliações agrupam-se à volta de um valor padrão e a distribuição em torno de médias características (o acaso explica efetivamente um quarto da variância). A análise fatorial deve ter lugar após se ter purificado suficientemente os fatores e efetuado um estudo prévio dos instrumentos de medida.
Morfologia e temperamento (segundo o estudo de Sheldon):
As três componentes morfológicas de Sheldon são endomórfica (dominam as vísceras), mesomórfica (dominam as estruturas somáticas – ossos, músculos e tecidos conjuntivos) e ectomórfica (predominância da superfície do corpo, com os seus aparelhos sensoriais, e do sistema nervoso em geral).
Os três tipos temperamentais de Sheldon são Viscerotonia (atitudes e movimentos relaxados, reacções lentas, gosto pelo conforto físico, pela alimentação, pela socialização da alimentação, prazer em digerir, gosto por cerimónias corteses, sociofilia, amabilidade indiscriminada, avidez por afeição e apropriação, orientação para outrem, igualdade do fluxo emocional, tolerância, contentamento consigo próprio, sono profundo, falta de carácter, comunicação fácil e livre dos sentimentos, extroversão, relaxamento e sociofilia sob a influência do álcool, necessidade dos outros em caso de aflição e orientação para as relações de infância e de família), Somatotonia (Firmeza de atitude e de movimento, gosto pelas ações físicas, caraterística enérgica, Necessidade e prazer no exercício, gosto pelo domínio e vontade de poder, gosto pelo risco, maneiras diretas de pessoa intrépida, coragem física no combate, agressividade competitiva, dureza psicológica, claustrofobia, ausência de piedade e de delicadeza, débito vocal estrondoso, indiferença pela dor, gosto geral por bater, hipermaturidade da aparência, clivagem mental horizontal, extroversão somatónica, corte entre a vida consciente e a vida inconsciente, autossuficiência e agressão sob a influência do álcool, necessidade de ação em caso de aflição, orientação para objetivos e atividades próprias da juventude) e Cerebrotonia (retenção da atitude e do movimento, constrangimento, reações fisiológicas excessivas, reações rápidas de mais, gosto pela privação, ascetismo, atividade mental interna, hiperatenção, prontidão de perceção, segredo sentimental, mobilidade controlada dos olhos e da cara, sociofobia, falta de à-vontade em sociedade, resistência aos hábitos, fraca automatização, agorofobia, imprevisibilidade de atitude, débito vocal retido, medo de fazer barulho, hipersensibilidade à dor, sono ligeiro, fadiga crónica, juvenilidade das maneiras e da aparência, clivagem mental vertical, introversão, falta de resistência ao álcool e a todas as drogas deprimentes, necessidade de solidão em caso de aflição, orientação para objetivos do último período da vida).
Correlação entre os tipos morfológicos e os componentes temperamentais (caracterologia):
Viscerotonia / Endomorfismo: +0,79      Viscerotonia/ Mesomorfismo: -0,23      Viscerotonia/Ectomorfismo: -0,40
Somatotonia/ Endomorfismo: -0,29       Somatotonia/ Mesomorfismo: -0,82      Somatotonia/Ectomorfismo: -0,53
Cerebrotonia/ Endomorfismo: -0,32      Cerebrotonia/ Mesomorfismo: -0,58     Cerebrotonia/Ectomorfismo:+0,83
(os coeficientes de correlação têm como valores extremos +1 e -1. O seu valor é 0 quando não existe relação entre os dois fenómenos. Encontram-se tanto mais perto de 1 em valor absoluto quanto mais forte é a relação. Quando são positivos significa que as duas variáveis se deslocam no mesmo sentido e, quando são negativos, significa que se deslocam em sentido contrário).

10/12/11

Caracterologia - 1ª Parte


Como conhecer o íntimo de cada um?
É na caracterologia, um dos capítulos mais fascinantes da psicologia, que se vê a chave secreta para tal.
A caracterologia é uma ciência. A ciência do carácter.
Significado caracterológico
Viver é ser um significado que dá significado aos outros. Ser, é ser para outrem. Ser é ser caracterialmente. Ser é também fazer caracteres. O desvendar caracterológico efetua-se por uma unificação significativa.
O carácter que um homem mostra, depende da realidade constituída por esse homem, da realidade constituída pelas pessoas que vivem com ele, da civilização em que vive e da natureza das relações que eles têm entre si.
Os métodos da caracterologia  
Pretende-se estudar as condutas das pessoas e os juízos que emitem umas relativamente às outras.
Par a tal, existem essencialmente 3 métodos: as investigações causais (constitucionais – os tipos físicos humanos e psicanalíticos – estudo da formação psicológica dos caracteres desde a infância), o estudo clínico e correlacional (com base na psicologia patológica) e busca das propriedades caracterológicas gerais.
Na teoria, os três métodos não são contraditórios e deveriam até ser utilizados concorrentemente.
Os sistemas caracterológicos  
Podem-se, em certa medida, classificar os sistemas segundo o método que foi principalmente utilizado para os constituir. Assim temos:
Caracterologia causal – as causas determinantes do carácter podem ser de natureza biológica ou psicológica.
Caracterologia clínica – deriva da observação direta dos caracteres patológicos: esquizofrenia, ciclofrenia, histeria, epilepsia e desvios sexuais.
Caracterologia das propriedades – Com as 3 propriedades fundamentais (emotividade, atividade e repercussão das representações) e suas combinações, Heymans e Wiessma definem 8 tipos caracterológicos: nervosos, sentimentais, coléricos, apaixonados, sanguíneos, fleumáticos, amorfos e apáticos.
Caracterologia causal morfológico-somática
Segundo estas teorias, o carácter e a morfologia somática dependem das mesmas causas orgânicas profundas.
Conhecendo o importante papel desempenhado pelas glândulas endócrinas na organização do corpo e do carácter, numerosos estudos levam a definir tipos endócrinos.
Os 4 temperamentos clássicos - O bilioso, o linfático, o sanguíneo e o nervoso.
O temperamento delineia a maneira de ser global do indivíduo em reação ao seu meio. Na prática clínica encontram-se muito mais frequentemente tipos mistos que tipos puros. A arte do diagnóstico consiste então em estabelecer a hierarquia.
A medicina antiga relacionava o corpo humano com as realidades fundamentais da natureza – a água, a terra, o fogo e o ar. Assim vemos corresponder à medicina humoral os quatro temperamentos de Hipócrates.
A escola de morfologia (francesa)
Às quatro grandes estruturas morfológicas determinadas pela predominância de um aparelho orgânico (muscular, respiratória, digestiva e cerebral) correspondem os quatro tipos caracterológicos, que podem ser francos ou irregulares: tipo muscular, tipo respiratório, tipo digestivo e tipo cerebral. Os irregulares podem ainda ser redondos ou planos (tipo redondo uniforme, tipo redondo ondulado, tipo redondo cúbico, tipo plano uniforme, tipo plano ondulado, tipo plano amolgado e tipo plano adiposo).
A escola constitucionalista (italiana)
Para esta escola, a constituição humana é formada por 2 sistemas: o sistema de vida vegetativa e o sistema de vida de relação. Quando os 2 sistemas se encontram igualmente desenvolvidos está-se perante o “normotipo”, quando o sistema vegetativo é dominante, está-se perante o “branquitipo megalospânico” (ou brevilíneo) e no caso de dominar o sistema voluntário está-se perante o “longitipo microsplâncnico” (ou longilíneo)
A Pirâmide biotipológica
Pende quis definir os tipos individuais considerando todos os aspetos da personalidade, a fim de atingir verdadeiros tipos somatopsíquicos. Ele resume-a naquilo a que chamou a “Pirâmide biotipológica”. Pirâmide, com 4 faces, cuja base representa os determinantes hereditários do indivíduo, enquanto as 4 faces dizem respeito ao tipo morfológico, à fisiologia, à inteligência e ao carácter.
O estudo do carácter deve partir de observações e permitir determinar tipos apáticos ou emotivos, estáveis ou instáveis, introvertidos ou extrovertidos, abúlicos ou volitivos. O estudo da inteligência comporta a aplicação de numerosos testes e a observação do sujeito e permite definir as inteligências concreta, fantástica, abstrata, intuitiva, lógica, analítica e sintética.  
Pende elaborou uma classificação quadripartida: O longilíneo esténico, O longilíneo hiposténico, o brevilíneo esténico e os brevilíneos hiposténicos.
A Caracterologia causal psicanalítica
As 4 leis fundamentais nas quais a psicanálise, como ciência e como técnica, se pode resumir:
·         A evolução sexual da criança é determinante quanto à natureza das condutas do adulto.
·         Os acontecimentos ocorridos durante a infância do indivíduo, assim como a natureza das relações que unem a criança aos pais, desempenham um papel fundamental na determinação da estrutura psicológica do adulto.
·         As neuroses e as inadaptações sociais não são geralmente fenómenos de astenia e de abrandamento da vida psicológica, mas sim traduções das oposições dinâmicas entre tendências contraditórias.
·         O antagonismo das tendências, os acontecimentos, as situações psicológicas, as fixações do desenvolvimento sexual que se encontram na origem da orientação das nossas condutas, assim como, frequentemente, a própria natureza real desta orientação psicológica, não são geralmente conhecidos pelos sujeitos, mas antes inconscientes.
As fases da primeira evolução sexual: 1- fase oral, 2 – fase anal, 3 – fase genital
Os complexos
Os complexos são grupos organizados de tendências que orientam as nossas condutas e cuja formação remonta ao período de desenvolvimento infantil. Eles não são claramente conhecidos na sua especificidade pelos sujeitos nos quais existem.
A evolução das primeiras relações afetivas:
Narcisismo - fase atravessada pela criança em que ama o seu corpo, gosta de olhar para o seu corpo, à volta do qual se organiza então um conjunto de emoções e sentimentos complexos
Complexo de Édipo – fase de duas tendências conexas. De amor pelo progenitor do sexo oposto e de hostilidade pelo progenitor do mesmo sexo.
Complexo de Caim – Trata-se da rivalidade entre irmãos. A criança, quando lhe aparece um irmão ou uma irmã, reage em primeiro lugar com um ciúme intenso que subsiste, de forma mais ou menos latente e recalcada. Inversamente, a hostilidade do irmão mais novo relativamente ao mais velho aparece como resposta a essa hostilidade.
Homossexualidade – A não resolução do complexo de Édipo pode despertar atitudes sexuais primitivas que, no caso do rapaz se traduz na impossibilidade de evoluir para relações normais e fixá-lo num estado narcísico com componentes homossexuais e na rapariga pode aparecer uma fixação castradora mais ou menos evidente. Por outro lado a criança que não quer abandonar inteiramente nem o modo de vinculação nem a vinculação ao progenitor do sexo oposto transformar-se-á à imagem deste, de maneira a poder continuar a amar o seu pai ou a sua mãe em si. Produz-se uma introjeção. A criança é levada a recusar o seu sexo.
Complexo de Diana – A rapariga, devido a ter sido levada a recusar o seu sexo, pela introjeção referida, manifesta comportamentos arrapazados e posteriormente encontrar-se-á com o menor número de homens possível.
O «id» - é constituído pelas tendências secretas, reprimidas, que, apesar de se manterem inconscientes, orientam as condutas.
O «ego» - representa a personalidade consciente. Se as tendências do «in» não chegam ao «ego» deve-se à existência do superego, que atua como verdadeira instância moral inconsciente.
O superego – é, primeiro, constituído pela organização do controlo das tendências primitivas, que é realizado pelos primeiros educadores. Trata-se de inibições. O superego é também o herdeiro do complexo de Édipo, pois no momento em que este se resolve, o superego organiza-se segundo a imagem do pai, que é simultaneamente temido e admirado. Aparece portanto como uma verdadeira instância moral inconsciente.
Os tipos psicossexuais de Freud – erótico, obsessivo, narcísico, erotonarcísico, narcísico-obsessivo e erótico-obsessivo.
Caracterologia das relações voluntárias 
Estudando mais particularmente a força e a fraqueza do superego, assim como as relações que ele mantém com o ego, Boutonier chegou a uma verdadeira caracterologia das relações voluntárias. Tem um carácter concreto. É uma tentativa de unificar e explicar, a partir das teorias psicanalíticas, caracteres tomados na experiência comum.
Distingue: Dependentes (Submetido, Revoltado, Alternante entre obediente e revoltado, Revoltado verbal e Forçado do querer), Inibidos (Idealista, Lógico, Pessimista, Prisioneiro voluntário, Ironista e Inimigo do tempo) e Desregrados (Apaixonado do querer, Quimérico, Inconstante e Incorruptível).
Trata-se pois de tipos de inadaptação, da descrição de alguns tipos pitorescos mais do que de um verdadeiro recenseamento de tipos homogéneos.

15/10/10

Ditados populares portugueses

A ambição cerra o coração
A pressa é inimiga da perfeição
Águas passadas não movem moinhos
Amigo não empata amigo
Amigos, amigos, negócios à parte
Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura
A união faz a força
A ocasião faz o ladrão
A ignorância é a mãe de todas as doenças
Amigos dos meus amigos, meus amigos são
A cavalo dado não se olha a dente
Azeite de cima, mel do meio e vinho do fundo, não enganam o mundo
Antes só do que mal acompanhado
A pobre não prometas e a rico não devas.
A mulher e a sardinha, querem-se da mais pequenina
A galinha que canta como galo corta-lhe o gargalo
A boda e a baptizado, não vás sem ser convidado
A galinha do vizinho é sempre melhor que a minha
A laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata
A necessidade aguça o engenho
A noite é boa conselheira
A preguiça é mãe de todos os vícios
A palavra é de prata e o silêncio é de ouro
A palavras (ocas/loucas) orelhas moucas
A pensar morreu um burro
A roupa suja lava-se em casa
Antes só que mal acompanhado
Antes tarde do que nunca
Ao rico mil amigos se deparam, ao pobre seus irmãos o desamparam
Ao rico não faltes, ao pobre não prometas
As palavras voam, a escrita fica
As (palavras ou conversa ...) são como as cerejas, vêm umas atrás das outras
Até ao lavar dos cestos é vindima
Água e vento são meio sustento
Águas passadas não movem moinhos
Boi velho gosta de erva tenra
Boca que apetece, coração que padece
Baleias no canal, terás temporal
Boa fama granjeia quem não diz mal da vida alheia
Boa romaria faz, quem em casa fica em paz
Boda molhada, boda abençoada
Burro velho não aprende línguas
Burro velho não tem andadura e se tem pouco dura
Cada cabeça sua sentença
Chuva de São João, tira vinho e não dá pão
Casa roubada, trancas à porta
Casarás e amansarás
Criou a fama, deite-se na cama
Cada qual com seu igual
Cada ovelha com sua parelha
Cada macaco no seu galho
Casa de ferreiro, espeto de pau
Casamento, apartamento
Cada qual é para o que nasce
Cão que ladra não morde
Cada qual sabe onde lhe aperta o sapato
Com vinagre não se apanham moscas
Coma para viver, não viva para comer
Com o direito do teu lado nunca receies dar brado
Candeia que vai à frente alumia duas vezes
Casa de esquina, ou morte ou ruína
Cada panela tem a sua tampa
Cada um sabe as linhas com se cose
Cada um sabe de si e Deus sabe de todos
Casa onde entra o sol não entra o médico
Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém
Cesteiro que faz um cesto faz um cento, se lhe derem verga e tempo
Com a verdade me enganas
Com papas e bolos se enganam os tolos
Comer e o coçar o mal é começar
Devagar se vai ao longe
Depois de fartos, não faltam pratos
De noite todos os gatos são pardos
Desconfia do homem que não fala e do cão que não ladra
De Espanha nem bom vento nem bom casamento
De pequenino se torce o pepino
De grão a grão enche a galinha o papo
Devagar se vai ao longe
De médico e de louco, todos temos um pouco
Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és
Diz o roto ao nu 'Porque não te vestes tu?'
Depressa e bem não há quem
Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer
Depois da tempestade vem a bonança
Da mão à boca vai-se a sopa
Deus ajuda, quem cedo madruga
Dos fracos não reza a história
Em casa de ferreiro, espeto de pau
Enquanto há vida, há esperança
Entre marido e mulher, não se mete a colher
Em terra de cego quem tem olho é rei
Erva daninha a geada não mata
Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão
Em tempo de guerra não se limpam armas
Falar é prata, calar é ouro
Filho de peixe, sabe nadar
Gaivotas em terra, tempestade no mar
Guardado está o bocado para quem o há de comer
Galinha de campo não quer capoeira
Gato escaldado de água fria tem medo
Guarda o que comer, não guardes o que fazer
Homem prevenido vale por dois
Há males que vêm por bem
Homem pequenino ou velhaco ou dançarino
Ignorante é aquele que sabe e se faz de tonto
Junta-te aos bons, serás como eles, junta-te aos maus, serás pior do que eles
Lua deitada, marinheiro de pé
Lua nova trovejada, 30 dias é molhada
Ladrão que rouba a ladrão, tem cem anos de perdão
Longe da vista, longe do coração
Mais vale um pássaro na mão, do que dois a voar
Mal por mal, antes na cadeia do que no hospital
Manda quem pode, obedece quem deve
Mãos frias, coração quente
Mais vale ser rabo de pescada que cabeça de sardinha
Mais vale cair em graça do que ser engraçado
Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo
Mais vale perder um minuto na vida do que a vida num minuto
Madruga e verás trabalha e terás
Mais vale um pé no travão que dois no caixão
Mais vale uma palavra antes que duas depois
Mais vale prevenir que remediar
Morreu o bicho, acabou-se a peçonha
Muita parra pouca uva
Muito alcança quem não se cansa
Muito come o tolo mas mais tolo é quem lhe dá
Muito riso pouco siso
Muitos cozinheiros estragam a sopa
Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe
Nuvem baixa sol que racha
Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu
Nem tudo o que reluz é ouro
Não há bela sem senão
Nem tanto ao mar nem tanto à terra
Não há fome que não dê em fartura
Não vendas a pele do urso antes de o matar
Não há duas sem três
No meio é que está a virtude
No melhor pano cai a nódoa
Nem contas com parentes nem dívidas com ausentes
Nem oito nem oitenta
Nem tudo o que vem à rede é peixe
No aperto e no perigo se conhece o amigo
No poupar é que está o ganho
Não dá quem tem, dá quem quer bem
Não há sábado sem sol, domingo sem missa nem segunda sem preguiça
O saber não ocupa lugar
Os cães ladram e caravana passa
O seguro morreu de velho
O prometido é devido
O que arde cura o que coça sara e o que aperta segura
O segredo é a alma do negócio
O bom filho à casa retorna
O casamento e a mortalha no céu se talha
O futuro a Deus pertence
O homem põe e Deus dispõe
O que não tem remédio remediado está
O saber não ocupa lugar
O seguro morreu de velho
O seu a seu dono
O sol quando nasce é para todos
O óptimo é inimigo do bom
Os amigos são para as ocasiões
Os opostos atraem-se
Os homens não se medem aos palmos
Para frente é que se anda
Pau que nasce torto jamais se endireita
Pedra que rola não cria limo
Para bom entendedor meia palavra basta
Por fora bela viola, por dentro pão bolorento
Para baixo todos os santos ajudam
Por morrer uma andorinha não acaba a primavera
Patrão fora, dia santo na loja
Para grandes males, grandes remédios
Preso por ter cão, preso por não ter
Paga o justo pelo pecador
Para morrer basta estar vivo
Para quem é, bacalhau basta
Passarinhos e pardais, não são todos iguais
Peixe não puxa carroça
Pela boca morre o peixe
Perde-se o velho por não poder e o novo por não saber
Pimenta no cu dos outros para mim é refresco
Presunção e água benta, cada qual toma a que quer
Quando a esmola é grande o santo desconfia
Quem espera sempre alcança
Quando um não quer, dois não discutem
Quem tem telhados de vidro não atira pedras
Quem vai à guerra dá e leva
Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte
Quem sai aos seus não degenera
Quem vai ao ar perde o lugar e quem vai ao vento perde o assento
Quem semeia ventos colhe tempestades
Quem vê caras não vê corações
Quem não aparece, esquece; mas quem muito aparece, tanto lembra que aborrece
Quem casa quer casa
Quem come e guarda, duas vezes põe a mesa
Quem com ferros mata, com ferros morre
Quem corre por gosto não cansa
Quem muito fala pouco acerta
Quem quer festa, sua-lhe a testa
Quem dá e torna a tirar ao inferno vai parar
Quem dá aos pobres empresta a Deus
Quem cala consente
Quem mais jura é quem mais mente
Quem não tem cão, caça com gato
Quem diz as verdades, perde as amizades
Quem se mete em atalhos não se livra de trabalhos
Quem não deve não teme
Quem avisa amigo é
Quem ri por último ri melhor
Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha
Quanto mais te agachas, mais te põem o pé em cima
Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto
Quem diz o que quer, ouve o que não quer
Quem não chora não mama
Quem desdenha quer comprar
Quem canta seus males espanta
Quem feio ama, bonito lhe parece
Quem não arrisca não petisca
Quem tem boca vai a Roma
Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão
Quando um cai todos o pisam
Quanto mais depressa mais devagar
Quem entra na chuva é pra se molhar
Quem boa cama fizer nela se deitará
Quem brinca com o fogo queima-se
Quem cala consente
Quem canta seus males espanta
Quem comeu a carne que roa os ossos
Quem está no convento é que sabe o que lhe vai dentro
Quem muito escolhe pouco acerta
Quem nada não se afoga
Quem nasceu para a forca não morre afogado
Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele
Quem não sabe é como quem não vê
Quem não tem dinheiro não tem vícios
Quem não tem panos não arma tendas
Quem não trabuca não manduca
Quem o alheio veste, na praça o despe
Quem o seu cão quer matar chama-lhe raivoso
Quem paga adiantado é mal servido
Quem parte velho paga novo
Quem sabe faz, quem não sabe ensina
Quem tarde vier comerá do que trouxer
Quem te cobre que te descubra
Quem tem burro e anda a pé mais burro é
Quem tem capa sempre escapa
Quem tem cem mas deve cem pouco tem
Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita
Quem tudo quer tudo perde
Quem vai ao mar avia-se em terra
Quem é vivo sempre aparece
Querer é poder
Recordar é viver
Roma e Pavia não se fez em um dia
Rei morto, rei posto
Se em terra entra a gaivota é porque o mar a enxota
Se sabes o que eu sei, cala-te que eu me calarei
Santos da casa não fazem milagres
São mais as vozes que as nozes
Toda brincadeira tem sempre um pouco de verdade
Todo o homem tem o seu preço
Todos os caminhos vão dar a Roma
Tristezas não pagam dívidas
Uma mão lava a outra
Uma desgraça nunca vem só
Vão-se os anéis e ficam-se os dedos
Vozes de burro não chegam aos céus
Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades

03/10/10

Literatura Apocalíptica

A palavra apocalipse, do grego αποκάλυψις (termo primeiramente usado por F. Lücke) (1832) significa, em grego, "Revelação". Um "apocalipse", na terminologia do judaísmo e do cristianismo, é a revelação divina de coisas que até então permaneciam secretas a um profeta escolhido por Deus. Por extensão, passou-se a designar de "apocalipse" aos relatos escritos dessas revelações.

Apocalipse é um género de literatura revelatória com uma estrutura narrativa, na qual a revelação é mediada por um ser do outro mundo a um receptor humano, revelando uma realidade transcendente que é simultaneamente temporal, na medida em que busca salvação escatológica, e também espacial, na medida em que envolve outro mundo.


Expressa por intermédio de símbolos e complexas metáforas a situação de sofrimento do povo judeu ou dos seguidores de Cristo e sua esperança em uma intervenção messiânica salvadora ou, no caso da apocalíptica cristã, na Parusia ou segunda vinda de Cristo.


A Literatura Apocalíptica é um género literário que encontra representantes tanto na literatura canónica, quanto fora dela.

Na literatura canónica, destaca-se Daniel no Antigo Testamento; e o Apocalipse de João no Novo.
Na literatura extra canónica existem vários exemplos do género, citamos: O Apocalipse de Baruc, o Livro dos Jubileus, os Oráculos Sibilinos, os Salmos de Salomão, a Assunção de Moisés, o Apocalipse de Enoque, a Vida de Adão e Eva, o Apocalipse de Abraão, o Apocalipse de Pedro, o Apocalipse de Paulo, o Apocalipse de Tomé e o Pastor de Hermas.

A literatura apocalíptica distingue-se da profecia por vários aspectos, entre eles mencionamos: o carácter esotérico, o sofrimento dos santos aliado à esperança de libertação final mediante intervenção divina, grande julgamento intervindo na história, a vinda do futuro não como consequência do presente, e a visão dos ímpios como adversários de Deus. Outras características são: conflito cósmico, combate entre dois adversários fortes, relato em forma de visão, e atribuição de autoria a um famoso personagem do passado.

É a partir do século II a.C., no momento das grandes crises nacionais, quando Israel, agredido por outros povos, corre o risco de desaparecer como nação, que a apocalíptica floresce com grande força.

Há três fases marcantes na história da apocalíptica:
• a época da guerra dos Macabeus contra Antíoco IV Epífanes e o partido helenizante, no séc. II a.C.
• a partir do domínio romano, que se inicia com Pompeu em 63 a.C.
• durante as guerras judaicas contra os romanos em 66-73 d.C. e 131-135 d.C.

A literatura apocalíptica funciona como uma literatura de resistência: através da escrita, Israel se manifesta vivo e actuante. Os céus estão fechados? A história, porém, é ainda possível: através do livro, manifesta-se o Espírito, que garante a identidade do povo de Israel.

Provavelmente a mais antiga obra da apocalíptica judaica, o livro de Daniel é uma peça literária de resistência escrita na época da luta dos Macabeus contra a helenização no século II a.C.
Daniel não é o autor do livro. Estamos frente a um texto apocalíptico, escrito em 164 a.C., cujo autor se esconde por trás de um pseudónimo. Daniel (= Deus julga) talvez jamais tenha existido, embora haja pistas de um certo Danel em Ez 14,14.20;28,3 e um Dnil que aparece no poema de Aqhat encontrado em Ugarit, e que podem ter inspirado o legendário personagem bíblico.
Ez 14,14.20 cita Danel, o sábio Daniel , um jovem judeu de Jerusalém, é o protagonista desta narrativa que estrategicamente é situada na época dos reis babilónicos e persas, no tempo do exílio.

"Para a população em geral a demora em se cumprirem as promessas proféticas pré-exílicas e exílicas simplesmente levantou dúvidas sobre a autoridade dos próprios profetas, dúvidas que foram reforçadas pelo fato de os oráculos dos profetas jerosolimitanos não se terem cumprido. Por esta razão, ao povo pode ter diminuído constantemente a vontade de reconhecer a autoridade de profetas de qualquer tipo, e, faltando o necessário apoio social, os profetas deixaram de existir".
Mas a falência da profecia deixa um vazio que precisa ser preenchido, pois os problemas continuam. É aí que surge a apocalíptica. Neste sentido, a apocalíptica é filha e herdeira da profecia. Parece que grupos proféticos marginalizados pelo crescente poder sacerdotal vão sendo empurrados na direcção da apocalíptica.

Com a apocalíptica - e é aí que se situa a grande diferença - operava-se, portanto, a passagem do profeta que fala, para o profeta que escreve, da era do oráculo para a era do livro.

O apocalipse não é apenas um livro, ele é todo um género literário. O livro que fecha a Bíblia cristã, o Apocalipse de João de Patmos, é um apocalipse entre centenas de outros: a sua distinção maior é a de ter sido canonizado. O género apocalíptico floresceu no Oriente Médio, nos séculos I e II aC, e aparece nas literaturas judaica, cristã, gnóstica, grega, persa e latina. A essência de um apocalipse não é o fim do mundo, como geralmente se pensa, mas uma revelação do futuro glorioso que aguarda os escolhidos do Senhor. Naturalmente, para tanto, o mundo anterior, como era antes, dos velhos e hereges poderosos, precisará ser destruído - mas esse é somente um detalhe operacional. O mais importante é a vitória total, incontestável e eterna do povo de Deus - aliás, o público-alvo da história.

O conflito no qual termina o mundo anterior e começa o novo opera em nível cósmico - o céu se enrola sobre si mesmo, estrelas caem como figos de uma figueira, povos inteiros são destruídos.

Outra característica do género apocalíptico é sua relação problemática e contraditória com a História. Por um lado, cada apocalipse se escreve em resposta a uma situação histórica concreta, via de regra a submissão a algum conquistador mais forte. Entretanto, os apocalipses não se preocupam com a história passada e sim com a que virá, com a enumeração dos fatos históricos que ainda acontecerão antes do fim dos tempos e da vitória final dos escolhidos. De um modo ou de outro, a história, pregressa ou progressa, está sempre presente nos apocalipses.

Os apocalipses surgem em situações históricas específicas, tempos de grande opressão e perseguição, quando os fiéis já não têm mais esperanças de libertação. O autor do apocalipse acredita estar vivendo no pior dos mundos e escreve para leitores que compartilham dessa opinião. É uma literatura em crise, uma tentativa de organizar e entender um mundo avassalador que já não faz mais sentido. Também é uma literatura de crítica social, escrita por uma minoria descontente, impotente e desprivilegiada.

Por isso mesmo, a narrativa apocalíptica é uma tentativa de impor ordem a um universo que, do ponto de vista da comunidade oprimida, não faz mais sentido.

Uma primeira distinção importante deve ser feita: os livros proféticos são eminentemente orais: tratam, em larga medida, de registar as visões e a pregação de um profeta, ou seja, o registo do que ele disse, para serem lidos alto para indivíduos que precisem ouvi-los já os livros apocalípticos nascem como livros: são o registo escrito das visões de um profeta que conta ele mesmo o que viu, para serem lidos pelos fiéis. A maior diferença, entretanto, é a seguinte: o objectivo dos livros proféticos era mudar o comportamento de seus leitores - ou ouvintes. O povo não estava agindo de maneira justa, tinha perdido os caminhos do Senhor, se entregaram à idolatria, etc., e era o trabalho do profeta avisá-los de sua perdição iminente e lembrá-los da palavra de Deus. Caso não mudassem, naturalmente, o castigo divino seria terrível, mas o objectivo era fazê-los mudar e, assim, mudar o mundo. A literatura apocalíptica, apesar de ter em comum as visões proféticas, tem objectivos completamente diferentes: o autor apocalíptico já desistiu de mudar o mundo real. Ele escreve para uma comunidade desesperada, subalterna, frustrada, explorada, que já não vê mais saída de sua actual situação de dominação. O que faz nascer o género apocalíptico é justamente uma situação de impotência, uma percepção de que a comunidade não tem o que fazer nem como mudar o mundo: suas vias de acção estão fechadas. Um autor apocalíptico escreve não para convencer seus leitores, pregar seu arrependimento, fazê-los mudar: ele escreve justamente porque eles já não podem mais mudar; para consolá-los de que sua situação de impotência não será eterna, de que tudo é parte do plano de Deus, que seus opressores sofrerão para sempre e que a hora de sua vitória inevitável e da felicidade eterna está chegando. O profeta está sempre falando sobre o mundo real: o castigo, se vier, será administrado por exércitos inimigos e a recompensa, se for merecida, virá na forma de viver em paz na sua terra. Já o autor apocalíptico abandonou o mundo real: ele não oferece conselhos práticos, nem mesmo sobre como melhor tolerar a opressão: seu tema é cósmico, literalmente o Deus que salvará o povo.

Outra característica importante da literatura apocalíptica é ser hermética: por definição, os apocalipses são escritos para revelar (aos escolhidos) e para esconder (aos não-iniciados). Um de seus pressupostos é que os acontecimentos contemporâneos, se correctamente compreendidos, podem servir de "sinal dos tempos" para revelar a iminência do fim. Embora muitas vezes nos pareçam incompreensíveis e aleatórias, as imagens dos apocalipses vinham de longas tradições judaicas e mesopotâmicas, articulada e trabalhadas há centenas de anos.

Tradicionalmente, o apocalipse incluía catástrofe e devastação, sim, mas somente para os maus e para os ímpios; para os bons e para os fiéis, o apocalipse seria ocasião de felicidade e de vitória.

A literatura apocalíptica é bipolar. A literatura apocalíptica é uma literatura produzida e consumida dentro de uma comunidade que está tentando lidar com uma enorme perda: de poder secular e religioso, de autonomia, de liberdade e, por outro lado, traz uma sensação insuperável de júbilo e felicidade pela vitória final diante do maior de todos os inimigos.

Esta categoria de literatura foi identificada, pela maioria dos estudiosos eruditos, como “panfletos para tempos difíceis”