Mensagem de boas vindas

Bem Vindo ao blog Campo da Forca. Apontamentos pessoais também abertos a quem os quiser ver.

03/02/12

"Setúbal é um Mundo"

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE - Cap.8 - A mulher na Idade Média

8- A mulher na Idade Média
O conceito pejorativo de Idade Média que comummente é propalado deve-se, em parte, aos preconceitos dos pensadores dos seculos XVI e seguintes, os quais, movidos por premissas anticatólicas e anticristãs, tinham interesse em denegrir a Idade Média.
Sabe-se hoje que esta, não tendo sido perfeita, nao foi bárbara nem obscurantista, como se disse.
Teve até gestos e valores que suscitariam rubor no homem moderno, começando logo pela extinção da escravatura, no começo da Idade Média, para dar lugar ao regime do servo da gleba, respeitando os direitos do pequeno camponês; todavia a escravatura foi restaurada no século XVI nas terras da América, onde vigorou o colonialismo.
Através das fontes existentes (cartulários, estatutos das cidades, documentos judiciários, etc.), podem-se colher pormenores relativos à vida quotidiana da mulher medieval.
É surpreendente o quadro que se delineia a partir da concatenação desses dados. Assim, por exemplo, as mulheres votavam. Por ocasião dos Estados Gerais de 1308 as mulheres são explicitamente citadas entre as votantes em diversas partes do territorio francês, sem que isto venha apresentado como uso particular do lugar. É conhecido o caso de Gaillardine de Frechou, que, diante de um arrendamento proposto aos habitantes de Cauterets nos Pirenéus pela abadia de Saint-Savin, foi a única a votar NÃO, quando todo o resto da população votou SIM.
Nas actas de tabeliães é muito frequente ver uma mulher casada agir por si mesma: abre, por exemplo, uma loja ou uma venda, sem ser obrigada a apresentar autorização do marido. Os registos de impostos, desde que foram conservados (como em Paris, a partir de fins do século XIII), mostram multidões de mulheres a exercer as funções de professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.
Na Idade média o período de maior consideração de que gozaram as mulheres durou até ao ressurgimento do Direito Romano que, principiando no século XI, atingiu a plenitude a partir do Século XVI. Com este a importância da mulher diminuíu.
O Direito Romano fundamentou o menosprezo da mulher a partir do século XVI; o que teve ulteriores consequências no modo de pensar e agir da sociedade em relação à mulher e a outros valores da sociedade.
Na verdade, o Direito Romano nao era favorável à mulher nem à criança; era um Direito monárquico, que exaltava o paterfamilias, pai, proprietário, chefe da familia com poderes sagrados, sem limites no tocante aos filhos (tinha sobre estes direito de vida e de morte) e à esposa.
Por exemplo, na fase anterior a do Direito Romano a rainha era coroada e atribuia-se a coroação da rainha tanto valor quanto a do rei. À medida que o Direito Romano foi ascendendo, a coroação das rainhas foi sendo considerada menos importante que a dos reis. No século XVII a rainha desaparece literalmente da cena em proveito da ¡°favorita¡±. Outro exemplo, na sua epoça, Eleonora de Aquitania (+ 1204) e Branca de Castela (+ 1252) exerceram autoridade sem contestacao nos casos de ausencia do rei, doente ou morto; tiveram as suas chancelarias, alfandegas e sectores de actividade pessoal. A primeira disposição que afastava a mulher da sucessao ao trono foi tomada por Filipe IV, o Belo (1285-1314), sob a influência de juristas romanos.
Note-se ainda a propósito que a partir de fins do século XVII a mulher é obrigada a tomar o nome do marido.
De resto, observe-se que a Idade Média se encerra com a figura de Joana D.Arc (+ 1431), jovem que, nos seculos seguintes, jamais teria conseguido obter a audiência e suscitar a confiança que lhe foram outorgadas no século XV.
Outro caso merece especial registo, o pregador de penitência Roberto de Arbrissel (+ 1117) conseguiu levar tanta gente à conversão que houve por bem fundar a Ordem de Fontevrault em 1100/1101, com base na Regra de S. Bento. Esta Ordem distinguiu-se pela penitência severa e pelos 1ºs mosteiros duplos: entre um cenóbio de homens e outro de mulheres achava-se a Igreja, único lugar em que monges e monjas se podiam encontrar. Ora a direcção suprema desses mosteiros duplos competia, em honra da Santa Mae de Deus, à abadessa de Fontevrault; esta devia ser viuva, tendo feito a experiência do casamento.
Somente no fim do século XVI, por decreto do Parlamento francês datado de 1593, a mulher foi explicitamente afastada de toda a função de Estado. A influência crescente do Direito Romano finalmente confinou a mulher às suas tarefas peculiares de cuidar da casa e educar os filhos.
(Nota: no século XIX, mediante o Código de Napoleão, o processo de despojamento da mulher deu novo passo: deixou de ser reconhecida como senhora dos seus próprios bens, e, em casa mesmo, passou a exercer papel subalterno).
No fim da Idade Média e depois, os legisladores foram retirando a mulher tudo o que lhe conferia alguma autonomia ou instrução. A mulher foi excluída da vida eclesiástica e da vida intelectual. O movimento precipitou-se quando no começo do século XVI foi reconhecido ao rei Francisco I da França (1515-1547) o direito de nomear abades e abadessas; inspiradas por critérios políticos, tais nomeações acarretaram a decadência de muitas casas religiosas.
(A reacção a tal estado de coisas tem ocorrido nos últimos tempos mas de maneira decepcionante, pois a mulher parece preocupada exclusivamente na conquista de equiparação ao homem: quer imitar o homem, exercer as mesmas funções que este, adoptar os hábitos do seu parceiro, sem se questionar a respeito do que ela reproduz, ou sem pensar em salvar a sua própria identidade e originalidade! Ora isto prejudica não só a mulher, mas tambem a própria sociedade, pois esta precisa de valores peculiares da mulher e da feminilidade!)
Foi no século XVI que infelizmente se restaurou o regime da escravatura romana, que a Idade Média não conheceu, e que persistiu até ao século passado. Vê-se, pois, que, sob este aspecto, a Idade Média está longe de ter sido obscurantista.


01/02/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE - Cap.7 - A mulher artista na Idade Antiga


7- A mulher artista na Idade Antiga
Nos primeiros registos da cultura ocidental, poucos indivíduos são mencionados, embora as mulheres sejam representadas em todas as artes, algumas nos seus trabalhos como artistas.
Referências antigas de Homero, Cícero e Virgílio mencionam os trabalhos de proeminentes mulheres no têxtil, na poesia e na música e outras actividades culturais.
Já Plínio, o Velho, faz referência, na sua “História Natural” (Lv.XXXV), aos nomes de artistas femininas na Grécia e em Roma, descrevendo as suas obras, incluindo os nomes Timarete, Eirene, Kalypso, Aristarete, Iaia e Olimpias.
Embora nenhum dos seus trabalhos tenha sobrevivido, há em Milão uma pintura de cerca de 460 a.C. que mostra mulheres trabalhando ao lado de homens na pintura de vasos.

31/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.6 - A mulher na Idade Antiga



6- A mulher na Idade Antiga
No Egipto Antigo a mulher possuía um status privilegiado dado pela igualdade entre os sexos como um facto natural, sendo comum atribuir similar importância a filiação paterna e a materna. A maioridade feminina, quando atingida, possibilitava a escolha do marido mediante consentimento paterno e quando casadas as mulheres podiam intervir na gestão do património familiar. Em relação ao trabalho, a tecelagem constituía uma ocupação reservada ao sexo feminino, competindo-lhe tosquiar as ovelhas e tecer a lã, podendo também trabalhar na ceifa de trigo, no preparo da farinha e da massa do pão. Enquanto que as mulheres mais pobres trabalharam em grandes obras de construção pública.
Na Grécia Antiga a sociedade era equiparada a um clube dos homens, pois estes não permitiam o acesso da mulher ao saber, desvalorizando tudo que lhes dizia respeito, inclusive a beleza. Nem a maternidade escapava da desvalorização sistemática, sendo as mulheres vistas apenas como receptoras da semente masculina. A inferioridade da mulher pode ser atestada pela obra “Política” de Aristóteles, que a justificava em virtude da não plenitude na mulher da parte racional da alma. A cidade de Esparta era aquela que proporcionava às mulheres a maior autonomia entre todas as cidades estado estabelecidas, pois a necessidade de contar com o apoio das mulheres para defender a polis fazia com que os homens espartanos lhes dessem treino militar e permitissem maior liberdade para participar das actividades do quotidiano da cidade.
Na Roma Antiga, como herdeira de parte da tradição grega, a inferioridade social da mulher marcava a condição feminina. A estrutura familiar assenta na base do paternalismo. Nas leis e nos costumes, a mulher era uma perpétua menor que passava da tutela do pai à do marido. Refira-se contudo que depois do período das conquistas, aumentou o grau de liberdade e as mulheres passaram a poder permanecer nas ruas e praças, frequentar escolas, dançar, cantar e fazer poesia, trabalhar no comércio, artesanato e em actividades como medicina.

30/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.5 - A mulher artista na Pré-História


5- A mulher artista na Pré-História
Não há registos de quem eram os artistas na era pré-histórica. Por exemplo, as provas de que a arte rupestre é uma exclusividade dos homens são bastante controversas e insatisfatórias.
E os estudos de muitos arqueólogos, etnólogos e antropólogos indicam que as mulheres muitas vezes foram as principais artesãs nas Culturas consideradas como neolíticas, criando os seus vasos, têxteis, cestos, jóias, etc. É vulgar a sua colaboração em grandes projectos.
Extrapolando para os objectos e capacidades do paleolítico segue-se o mesmo entendimento das Culturas conhecidas e estudadas através da etnologia e antropologia.
As pinturas rupestres aparecem das mãos das mulheres tal como dos homens

26/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.4 - A mulher na Pré-História


4- A mulher na Pré-História
A fase pré-histórica ocupa quase três quartos (¾) da existência humana na terra.
A figura feminina na Pré-História tinha um enorme peso nas sociedades. A mulher possui um lugar de destaque, porque a força física não é o principal elemento para a sobrevivência. Reina a harmonia e os dois elementos, fêmea e macho, desempenham papéis fundamentais para o grupo sem que se encontrem quaisquer resquícios de hierarquia, seja de nível económico ou fisiológico.
Os vestígios paleolíticos revelam que o feminino ocupava um lugar primordial, pois deste período foram encontradas estatuetas femininas, pinturas e objectos, que cultuavam a mulher como um ser sagrado. Assim, pela sua inexplicável habilidade de procriar, as mulheres eram elevadas à categoria de divindades.
Não eram sociedades matriarcais, eram sim matricêntricas, pois a mulher não dominava, mas as sociedades eram centradas nela por causa da sua fertilidade.
A divisão do trabalho nas sociedades primitivas ocorreu entre os dois sexos, cabendo ao homem a caça e a pesca, e à mulher a colecta de frutos, evoluindo posteriormente para a cultura da terra. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.
Acredita-se que a estratificação social e sexual tenha surgido posteriormente, quando o homem, devido a escassez de alimentos e após o domínio do fogo, começa a viver de forma sedentária, cultivando os seus alimentos e saindo à caça de grandes animais, factores que exigiam maior vigor físico. A caça sistemática a grandes animais e as disputas entre os grupos em busca de novos territórios farão surgir a supremacia masculina e o espírito de competitividade. Agora, para sobreviver, as sociedades têm que competir entre si em busca de um alimento que se torna cada vez mais escasso. As guerras começam a fazer parte da vida desses grupos. As diferenças sociais começam a tomar força, não só em relação a homem e mulher, mas também entre os homens, pois os mais fortes seriam os melhores guerreiros.
Foi a partir da descoberta de sua importância na reprodução que o homem passou a ter domínio da sexualidade feminina. É ai que surge o casamento como conhecemos hoje, em que “a mulher é propriedade do homem”. As sociedades, então, tornam-se patriarcais, isto é, os portadores dos valores, e da sua transmissão, são os homens. Agora, já não são os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas, sim, „a lei do mais forte.. As mulheres têm a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento obriga a mulher a sair virgem das mãos dos pais para as mãos do marido. Qualquer ruptura dessa norma pode significar a morte. A mulher fica reduzida ao âmbito doméstico, perde qualquer capacidade de decisão no domínio público, e fica inteiramente reservada ao homem.

25/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.3 - A exclusão de mulheres artistas da história da arte


3- A exclusão de mulheres artistas da história da arte
A quase que total exclusão das mulheres artistas da história da arte é uma questão cultural.
Essencialmente deve-se a que a cultura dominante na História tem sido a dos homens. Foram os homens que a escreveram, não as mulheres. A História é a história dos homens. A História escrita pelas mulheres teria sido forçosamente diferente.
Acresce que a historiografia é o sector do estudo em que mais dificilmente os pesquisadores mantêm neutralidade científica.
O homem foi o agente definidor do estatuto e do imaginário acerca da mulher, silenciando a sua participação activa na construção dessa visualidade, por exemplo como produtora de obras de arte.
Dentro desta esfera mais restrita, no entanto, muitas mulheres construíram carreiras de sucesso, muitas vezes igualando ou superando os homens.
Também o facto de as artes consideradas maiores requererem trabalho manual mais duro, levou a que estivessem tradicionalmente reservadas, salvo poucas excepções, aos homens. A escultura por exemplo só na segunda metade do séc. XIX, na Europa, e no séc. XX na América, é que foi legitimada como trabalho igualmente feminino.
Outro aspecto a ter em conta é que a carreira de muitas artistas foi muito prejudicada pela elevada maternidade das mulheres nos tempos anteriores ao nosso.
Por outro lado, mentalidades retrógradas que consideravam a ocupação artística imprópria para as mulheres ainda se faziam sentir mesmo no final do séc. XIX, onde não raras famílias se opunham à vocação das suas jovens, impedindo-as de fazer carreira nas artes.

23/01/12

Tese de dissertação "A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE": Cap.2 - A mulher como artista


2– A mulher como artista
Sempre houve um preconceito do homem face à mulher artista. O próprio Vasari, pai da história da arte, que no seu livro “Vida dos Excelentes Pintores, Escultores e Arquitectos” nomeou algumas mulheres, por vezes referiu-se a elas de forma pejorativa, acompanhando a ideia renascentista de que as mulheres eram vencidas e manietadas pelo sentimento da melancolia e nenhuma conseguia escapar à sua natureza feminina.
Só no séc. XX e pela primeira vez na história, as mulheres foram consideradas artisticamente iguais aos homens, que, apesar de tudo, continuaram a gozar de maior renome.
Assim, nos dias de hoje é natural abordar a obra e conhecer a biografia de muitas mulheres artistas, mas, quanto mais nos afastamos em direcção ao passado, mais difícil se torna encontrar a sua presença.
Na História da Arte poucas foram as artistas femininas citadas entre as listas intermináveis de nomes masculinos e mesmo estas, quando lembradas, acabam colocadas em posições coadjuvantes desses homens.

22/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE -Tese de Dissertação de Pós-Graduação de Constantino Teles, 01-06-2010: Capítulo 1 - A Arte -


1- A arte
A palavra arte tem a sua origem na palavra latina ars que significa actividade, habilidade.
Até ao século XV, designa apenas um conjunto de actividades ligadas à técnica, ao ofício, à perícia, isto é actividades essencialmente manuais, onde se incluíam não só a pintura, a escultura e a arquitectura, mas também, as ditas artes menores.
Com o renascimento os artistas reivindicam para si um saber científico. Assim a história dos artistas, que tem início no Renascimento, está essencialmente associado ao reconhecimento da sua obra como possível de ser classificada na categoria das “artes liberais” em vez de “artes servis ou mecânicas”.
Mas afinal o que é arte?
A questão é polémica e de respostas pouco satisfatórias.
A obra de arte é um objecto estético, feito para ser visto e apreciado pelo seu valor intrínseco.
E o que se entende por estético?
A estética costuma ser definida como “dizendo respeito ao que é belo”.
É claro que nem toda a arte é bela aos nossos olhos, não deixando, por isso, de ser arte. Então o termo estético não satisfaz inteiramente.
A Estética como ramo da filosofia tem preocupado os pensadores desde Platão aos nossos dias e como todas as questões filosóficas, os problemas levantados pelo “belo” são inerentemente insolúveis.
O nosso gosto e as nossas opções são exclusivamente condicionados pela cultura em que estamos inseridos e as culturas são tão diversificadas que se torna impossível reduzir a arte a um conjunto de regras susceptíveis de serem aplicadas em toda a parte.
Parece assim impossível definir qualidades absolutas em arte, não podendo nós escapar à necessidade de apreciar as obras de arte no contexto do seu tempo e circunstancialidade, sejam eles quais forem.
Podemos contudo dizer que uma obra de arte terá de envolver Imaginação, Criatividade e Originalidade. O que está apenas ao alcance dos que passam da fase de simples perícia artesanal e se tornam criadores de arte por direito próprio, isto é, os verdadeiramente dotados – os artistas.
Actualmente distinguem-se 11 formas de arte: Música, Dança, Pintura, Escultura, Teatro, Literatura, Cinema, Fotografia, Banda Desenhada, Vídeo Jogos e Arte Digital. Vamos aqui apenas tratar das mais tradicionais e dentro destas da Pintura.

A Oração de Gettysburg - Presidente Lincoln

Há oitenta e sete anos, neste continente, os nossos antepassados doaram ao Mundo uma nova nação concebida na liberdade e baseada no princípio de que todos os homens foram criados iguais. Estamos hoje envolvidos numa tremenda guerra civil que provará se esta nação, ou qualquer outra formada e dirigida do mesmo modo, pode resistir a tais crises. Encontramo-nos, neste momento, num dos grandes campos de batalha desta luta e queremos consagrar uma parte dele à última morada dos que aqui sacrificaram a própria vida pela existência do país.
É justo que o façamos porém, num sentido mais profundo, não nos compete abençoar ou consagrar este solo. Os heróis, vivos ou mortos, que nele pelejaram já o santificaram a tal ponto, que as nossas fracas forças nada lhe podem acrescentar nem tirar. Mais tarde, o Mundo esquecerá o que hoje aqui foi dito: todavia jamais poderá olvidar os feitos de que este campo foi teatro. Cabe-nos a nós, os vivos, dedicarmo-nos à continuação da obra que os combatentes aqui iniciaram. Compete-nos realizar a sublime tarefa que esses grandes mortos nos legaram e, com crescente espírito de sacrifício, levar à vitória a causa que aqui os fez exalar o derradeiro alento. Cumpre-nos fazer que esses homens não tenham tombado em vão, que, com o auxílio de Deus, a Nação assista à renascença da liberdade e que o governo do povo pelo povo não desapareça da face da terra.

11/12/11

Caracterologia - 3ª (e última) Parte



Caracterologia das propriedades

O método do estudo das propriedades dos caracteres (impulsivo, mentiroso, irritável, etc.) é outro método de estudo dos caracteres.
Notar que «o objeto humano» não se presta bem a inspeções e que os julgamentos podem modificar a natureza das propriedades.
Existem inumeráveis sistemas caracterológicos estabelecidos a partir do método das propriedades. Vamos só considerar os que têm valor em psicotécnica e eventualmente em psicoterapia:

A caracterologia de Malapert
Utiliza os três géneros de Ribot (os sensitivos, os ativos e os apáticos) ou (Fouillé) os sensitivos, os intelectuais e os voluntários.
Malapert começa por estudar quatro propriedades:
Sensibilidade (distinguem-se Apáticos, Sensitivos, Emotivos e Apaixonados),
Inteligência (distinguem-se Analistas, Críticos, Refletidos ponderados  e Especulativos), Atividade (distinguem-se Inativos, Ativos e Reativos) e
Vontade (Abúlicos ou rotineiros, Meio voluntários ou Veleidosos e Grandes voluntários).
Malabert apresenta, depois de definir estes tipos parciais, a maneira como se combinam num todo:
Apáticos, divididos em
            Apáticos puros (Obtusos e Inertes),
            Apáticos inteligentes (Calculadores) e
            Apáticos ativos (Lentos e Calmos),
 Afetivos, divididos em
             Sensitivos (Sensitivos vivos e Sensitivos passivos),
             Emotivos (Emotivos melancólicos e Emotivos impulsivos) e
            Apaixonados,
Intelectuais, divididos em
             Intelectuais afetivos (Diletantes e Apaixonados) e
             Especulativos,
Ativos, divididos em
             Ativos medíocres,
             Agitados e
             Grandes ativos,
Temperados divididos em
              Amorfos (Equilibrados medíocres) e
               Equilibrados superiores e
Voluntários, divididos em
              Senhor de si (Tipo de luta e Ponderados) e
               Homens de ação.

A tipologia de Jaensch
Baseado no fenómeno da imagem eidética (as imagens eidéticas orientam-se frequentemente no sentido das imagens consecutivas – perceção puramente periférica – ou das imagens ideafetivas – imagem de evocação – Assim podem distinguir-se sujeitos que têm imagens eidéticas de tipo central e sujeitos que têm imagens eidéticas de tipo periférico. Estes dois fenómenos corresponderiam a duas propriedades caracterológicas fundamentais:
          «Tipo integrado» e
          «Tipo desintegrado».
A pessoa integrada é uma pessoa que está inteira em cada uma das suas partes. Existe estreita dependência não só entre as diferentes funções psicológicas, mas também entre o mundo pessoal e o mundo exterior.
O desintegrado é uma pessoa relativamente firme e impermeável. A sua personalidade vive uma vida própria, fechada e contínua. Permanece fechado às sugestões exteriores.

A tipologia de Jung
Jung chegou à definição de um
      «Tipo introvertido» e um
      «Tipo extrovertido»,
palavras que entraram no vocabulário não especializado.
O introvertido é, em menor ou maior grau, refratário a influência do mundo exterior. O extrovertido volta-se para o mundo exterior e adere ao meio.
Já Binet tinha distinguido entre
        «Tipo subjetivo» e
         «Tipo objetivo».

O sistema caracterológico de Heymans e Wiersma e a caracterologia de Le Senne

As três propriedades gerais que se distinguem são:
        a Emotividade,
        a Atividade e
        a Repercussão das representações.
Combinando-se formam oito tipos. Cada tipo caracterológico recebe uma fórmula e um nome. Distinguem-se:
  • Emotivos (E) inativos (nA) primários (P)……………EnAP            nervosos
  • Emotivos inativos secundários (S)………………………EnAS          sentimentais
  • Emotivos ativos (A) primários……………………………EAP             coléricos
  • Emotivos ativos secundários………………………………EAS             apaixonados
  • Inemotivos (nE) ativos primários………………………nEAP            sanguíneos
  • Inemotivos ativos secundários…………………………nEAS             fleumáticos
  • Inemotivos inativos primários…………………………nEnAP             amorfos
  • Inemotivos inativos secundários………………………nEnAS            apáticos

Complementos  

Caracterologia reflexológica
A criação duma caracterologia reflexológica baseia-se na observação de que a Excitação e a Inibição se comportam como duas funções opostas, cuja importância relativa é diferente nos diferentes indivíduos da mesma espécie.
Esta tipologia foi, antes de estabelecida para os animais e só depois foi aplicada ao homem.
Estuda os reflexos condicionados, os estímulos condicionais e os fatores que comandam a dinâmica do sistema nervoso central.
Ivanov-Smolensky (Escola de Pavlov) distinguiu os seguintes tipos:
      Tipo equilibrado,
      Tipo excitável,
      Tipo inibido e
      Tipo inerte.

O estudo da inteligência
O estudo da inteligência, considerada como aptidão operacional, não pode ser negligenciado do ponto de vista estritamente caracterológico.
Paulhan classifica os espíritos em
      «espíritos lógicos»,
       «espíritos falsos»,
       «espíritos ilógicos» e
       «espíritos pueris».

Mentré distingue o estudo dos caracteres  e o estudo das maneiras de pensar, que seria a noologia.

Spanger, no seu sistema, distingue seis tipos (homem estético, homem económico, homem teórico, homem religioso, homem político e homem social. Cada grupo comporta variedades superiores e variedades inferiores. Observam-se por outro lado, certo número de combinações particularmente frequentes (económico-político, social-religioso, teórico-estético); e oposições  (a social-religioso com teórico ou económico,  ou de político com estético-religioso).

A caracterologia sociológica
Qualquer caracterologia social é uma caracterologia das propriedades e, por outro lado, qualquer caracterologia das propriedades tem um fundo social.
O estudo dos tipos criminais efetuado por Lombroso é um exemplo de caracterologia sociológica. Uma caracterologia do criminoso introduz de facto o estudo da caracterologia do normal. Os germes do crime encontram-se em qualquer conduta humana.
Mikhailowski de maneira mais puramente sociológica distinguiu o «Tipo adaptado (prático)» e o «Tipo inadaptado (ideal)» e para ele o tipo adaptado é um tipo inferior que se torna nas sociedades modernas “o apêndice insignificante de um todo inumano”, enquanto o tipo inadaptado participa muitas vezes no caminho do progresso social.
Dentro do âmbito da caracterologia numa perspetiva sociológica concreta é possível realizar estudos das diferentes classes sociais e dos diferentes grupos profissionais, utilizando os três planos metodológicos,  com o método das correlações se um determinado carácter corresponde a uma profissão definida, depois procurar saber se essa profissão não pode aparecer como uma função social que toma o aspeto de uma propriedade específica e por fim estudar a possibilidade de uma causalidade psicossocial, por exemplo, se o fato de pertencer a uma determinada classe social determina ou não certos aspetos do caráter.

Szondi estabeleceu correspondências entre os tipos caracterológicos derivados da psicologia patológica e grupos de profissões:
  • Homossexual (ternura, servir outrem, submissão, feminilidade passiva; o tocar é a caraterística dominante): cabeleireiro, maquilhador, dermatólogo, ginecólogo; empregado de estabelecimentos balneares, negócios com roupa branca, costureiro de moda, artista, cantor, dançarino; empregado de café, hoteleiro, pasteleiro, cozinheiro.
  • Sádico (agressividade, necessidade de poder, virilidade ativa, a caraterística dominante é a sensibilidade cinestésica e muscular): cocheiro, empregado de quinta, domesticador de animais, veterinário, matador de animais, enfermeiro de operações, cirurgião, dentista, anatomista; carrasco; homem do talho, partidor de pedra, mineiro, sapateiro, escultor; motorista, soldado; lutador, professor de ginástica, massagista.
  • Epilético (acumulação de afetos brutais e descarga em momentos inesperados; sentido do equilíbrio, servir): entregador de mercadorias, cocheiro, marinheiro, aviador; ferrador, motorista, bombeiro, pirotécnico, padeiro, limpa-chaminés; padre, monge, freira, assistente social.
  • Histérico (acumulação de sentimentos finos e descarga desses sentimentos em momentos inesperados; exibicionismo afetivo): apregoadores de feira ou das ruas; artistas, comediantes; políticos
  • Esquizofrénico Catatónico (fechar-se em si, admiração de si próprio, narcisismo, egocentrismo, autismo; eliminação dos órgãos sensoriais): soldado; professor – matemática, física, filosofia ; contabilista, telegrafista; desenhador de cartas geográficas, gravador; guarda-noturno, guarda de farol; manequim.
  • Esquizofrénico Paranóico (dilatação do ego, dar importância a si próprio, inflação psíquica, criação; do ponto de vista sensorial: sentir, ouvir): construtor, organizador; arqueólogo, mitólogo, astrólogo, grafólogo, psiquiatra, psicólogo; músico; farmacêutico, droguista, químico; juíz, detetive, advogado, contra-espionagem.
  • Ciclofrénico Depressivo (busca de objetos e de valores, apego aos objetos acumulados; sentir): logista, filatelista, antiquário, agente de leilões, empregado de museu; limpeza química, pintor, serviços de higiene, desinfeção; varredor de ruas, vendedor de trapos, tripeiro, trabalhador do couro; crítico.
  • Ciclofrénico Maníaco: (gosto pelos objetos, assegurar a posse, ou agarrar-se a objetos, ou ainda rejeitar os objetos; o gosto é dominante): empregado de café ou restaurante, cozinheiro, provador de vinhos; instrumentista de sopro; vendedor e comprador; linguista e professor de línguas; estomatólogo.
Sistema caracterológico de Klages
Procura uma estrutura e dimensão da realidade humana. Distingue entre matéria ou massa do caráter (talentos, aptidões e faculdades), a natureza ou qualidade da personalidade (propriedades, instintos, tendências e móbiles) e a sua estrutura (arquitetura do caráter). Esta disposição seria proveniente de uma força vital inconsciente. Opõe os dois planos da vitalidade (corpo e alma) aos seus dois inimigos (espírito e vontade).

O diagnóstico caracterológico:
Os diferentes métodos de diagnóstico caracterológico rápido são os seguintes:
·         Os questionários e interrogatórios;
·         O estudo dos comportamentos;
·         Os testes projetivos,
·         Os testes do método dos campos significativos;
·         A grafologia e
·         A morfologia somática.

Hereditariedade dos caracteres psicológicos
Galton estudou gémeos monozigóticos. As suas experiências mostraram que a hereditariedade era duas vezes mais ativa do que o meio na determinação do caráter.
Estes trabalhos foram criticados com muita frequência. No domínio da criminologia alguns autores acentuaram, pelo contrário, o papel do meio.
Parece difícil negar a existência de uma caracterologia ligada a determinantes constitucionais. No entanto o grau no qual essa hereditariedade é determinante está muito longe de ser estabelecido e parece provável ser sensivelmente menor do que aquilo que alguns autores pretenderam. Ainda por cima, seria necessário tomar em consideração a ação de uma verdadeira hereditariedade psicológica. Para Freud, o nosso superego constitui-se à semelhança do superego dos nossos pais.

A Evolução dos Caracteres, no decurso da nossa existência
Para os constitucionalistas, os fatores biológicos que constituem os seus alicerces, encontram-se fixados desde a infância.
No entanto a própria psicanálise acentua o dinamismo e plasticidade da criança. Por outro lado, a possibilidade de curas psicoanalíticas acima dos 40 anos, mostra que o carácter apresenta possibilidades de renovação. Mas é preciso sublinhar que não é excecional que os tipos caracterológicos têm uma grande estabilidade. Por outro lado, a transformação do meio pode levar, embora a pessoa permaneça a mesma no que diz respeito ao seu fundo caracterial, a mudanças completas no que respeita à maneira como essa pessoa se mostra no exterior. Assim, vê-se frequentemente que não é um carácter que se modifica, mas sim a natureza das relações caracterológicas.
Portanto, o procedimento sensato, não será tentar transformar um carácter, o que seria quase completamente impossível, mas sim utilizá-lo da melhor maneira, tal como ele é verdadeiramente.


Conclusão
As diferenças que existem entre os três grandes métodos da caracterologia explicam as divergências entre sistemas caracterológicos que por princípio, parecem nunca ser redutíveis. Não deixa de ser verdade que um dos objetivos da caracterologia é atenuar essas diferenças ao máximo e voltando aos grandes sistemas que apresentámos, ver-se-á que já atualmente é possível encontrar-lhes, em certa medida, algumas similaridades.
A objetividade caracterológica não é neutra. A exploração das estruturas age sobre a organização da realidade humana, modifica-a e constitui-a parcialmente. Esta verificação consegue esclarecer um certo número de problemas fundamentais e pode renovar a maneira de conceber uma dificuldade que se coloca classicamente à caracterologia: a liberdade.
Dado que o homem é um ser que se modifica, no seu ser, pelo conhecimento vivido, os fundamentos duma liberdade ontológica devem ser procurados numa propriedade que definisse as relações do ser do homem com o conhecimento vivido desse ser e, inversamente, desse conhecimento com esse ser.

Caracterologia -2ª Parte


Caracterologia clínica e correlacional
O problema central que anima toda a caracterologia correlacionl é se existem ou não tipos humanos.
Existem de facto séries morfológicas que correspondem a disposições ou constituições psicopatológicas determinadas.
A psicologia patológica é o estudo das funções psíquicas através da observação das anomalias que apresentam, (essencialmente trata-se de observação de doentes e de isolar um determinado número de doenças ou formas patológicas típicas (grupos de sintomas que se apresentam geralmente ligados).
A psicolopatologia é o estudo das doenças mentais.
Na psicologia patológica devem ser retidas as doenças mentais que se apresentam como um exagero de tendências normais e que permitem por isso uma verdadeira continuidade entre o normal e o patológico.
Classificação caracterológica derivada da psicologia patológica:
O estudo de Delmas e Boll admite a existência de cinco psicoses – paranoia, loucura, mitomania, mania-melancolia e psicose híperemotiva.
A cada uma destas psicoses corresponde uma disposição psíquica, respetivamente: Avidez, Bondade, Sociabilidade, Atividade e Emotividade. As constituições psicopatológicas paranóica, perversa, mitomaníaca, ciclotímica e hiperemotiva correspondem a cada psicose, enquanto as disposições descritas são relacionadas a funções biológicas fundamentais: nutrição, reprodução e mobilidade.
A personalidade do indivíduo seria determinada por uma união das cinco disposições em proporção variável e o estado patológico seria apenas uma atrofia ou hipertrofia.
As tendências esquizoides:
A esquizofrenia - é uma psicose que se caracteriza por uma atitude autista do doente. A vida psicológica dos sujeitos esquizofrénicos é muito mais fortemente dominada por elementos da vida interior que pelos acontecimentos e exigências do mundo exterior. Mostram perda de contacto com a realidade, com o mundo exterior. Para alguns autores a catatonia, a hebefrenia, a demência precoce e a demência paranoica seriam todas elas variedades desta mesma afeção mental.
A esquizotimia - é um tipo de sujeitos que, apesar de serem ainda indivíduos normais, se aparentam nitidamente, na sua maneira de ser geral, à psicose esquizofrénica.
A esquizoidia – é uma das duas tendências psicológicas normais mais características. A outra é a cicloidia. A esquizofrenia poderia ser considerada uma acentuação da esquizoidia, exagerando a doença o autismo do indivíduo.
As tendências cicloides:
A psicose maníaco-depressiva – caracteriza-se por uma atitude bipolar, com acessos periódicos (sucessivos) que não alteram a personalidade nos intervalos lúcidos e não evoluem no sentido de uma desorganização específica. Nesta psicose apesar da natureza das relações com o mundo exterior se encontrarem modificadas, os doentes continuam em contato com esse mundo exterior. O cicloide permanece de acordo com o seu ambiente. O ciclofrénico oscila efetivamente entre a alegria e a tristeza, passa de estados eufóricos, acompanhados de uma necessidade de expansão, a estados de tristeza que o inibem de maneira profunda.
A ciclotimia – é um tipo de sujeitos que, apesar de serem indivíduos normais, se aparentam nitidamente, na sua maneira de ser geral, à psicose maníaco-depressiva. No ser normal, as duas tendências existem necessariamente uma ao lado da outra em um grau mais ou menos elevado: a ciclotimia e a esquizotimia, parecendo comportar-se como contrárias, têm cada uma o seu papel na vida e devem completar-se.
A cicloidia – é uma das duas tendências psicológicas normais mais características.
Pareceu, a alguns cientistas que a repartição da humanidade em duas categorias deixava de fora numerosos casos:
As tendências histeróides – é uma terceira classe, a classe dos histeróides, cujo protótipo patológico é a histeria. Os indivíduos histeróides mantêm um certo grau de infantilismo, a sua actividade não se encontraria voltada nem para motivos interiores (como nos esquizotímicos), nem para motivos exteriores (como nos ciclotímicos), mas estaria, em vez disso, voltada para si próprio.
As tendências epileptoides – a epileptoidia compreende dois polos afetivos, o da viscosidade e da lentidão e o das reações explosivas. A lentidão das emoções conduziria a uma latência emocional, que se resolveria em descargas bruscas.
As tendências para os desvios sexuais
Também aqui as formas patológicas podem ser consideradas como acentuações excessivas ou monstruosas de tendências normais. As psicopatologias do instinto sexual são:
O onanismo – Considera-se atualmente que o prazer solitário é um fenómeno normal da pré-sexualidade, que se encontra em aproximadamente sete oitavos das crianças. São as representações que acompanham a masturbação, ou a sua frequência e a sua exclusividade numa certa idade, que lhe conferem um sentido patológico.
O sadismo e o masochismo – Designam a voluptuosidade de impor a outrem sofrimentos e humilhações ou de, por outro lado, sofrer essas mesmas coisas. Para a psicanálise, as perversões sádicas e masochistas provêm de uma paragem do desenvolvimento da líbido no estado anal. As formas patológicas são apenas exageros monstruosos de pulsões que também se encontram nos casos normais. Quando o masochismo e o sadismo se manifestam simultaneamente de maneira muito evidente trata-se então do sadomasochismo em que se satisfazem as duas formas de ambivalência: sofrer e fazer sofrer.
A necrofilia – Desvio monstruoso em que o cadáver é tomado como objeto do desejo erótico. A necrofilia apresenta um parentesco evidente com o sadismo - queles que matam ou querem matar no ato sexual não são raros.
O canibalismo – Desvio monstruoso em que o doente não se contenta em infligir sofrimentos ou em matar, chupa o sangue ou come a carne da sua vítima.
O fetichismo – limita a possibilidade da plena atividade sexual à presença de um detalhe.
O voyeurismo – os voyeuristas excita-se eroticamente ao observar as relações sexuais de um par.
O exibicionismo – os exibicionistas só são capazes de se excitar quando se mostram a outrem ao copular, ou exibindo os órgãos genitais.
Impotência – Trata-se de uma espécie de extinção do desejo sexual no homem, ou então, juntamente com um desejo normal ou maior que o normal, de uma impossibilidade de obter a ereção; nas formas mais atenuadas trata-se de uma rapidez demasiadamente grande ou um grande atraso da ejaculação.
Frigidez –  considera-se frígida uma mulher que não consegue ter um prazer completo nas relações sexuais normais com um parceiro sexual normal. Pode apresentar várias formas: ausência total de desejo ou total impossibilidade de chegar ao orgasmo apesar de existir desejo.
Homossexualidade – consiste fundamentalmente numa atração física por indivíduos do mesmo sexo. De maneira geral comporta um forte grau de ambivalência, isto é, manifesta-se ao mesmo tempo pela submissão e pela hostilidade.
Séries caracterológicas das perversões sexuais
A cada uma destas perversões da sexualidade correspondem séries caracterológicas contínuas de estados que permitem chegar ao normal. Pode então reunir-se na mesma classe o sadismo, o masochismo, o canibalismo e a necrofilia, pois, todos eles têm um significado agressivo. A outra classe engloba a homossexualidade, a frigidez, a impotência, o fetichismo, o voyeurismo e o exibicionismo, como formas patológicas caraterizadas pelo desaparecimento das relações sexuais normais, sem que a agressividade se manifeste de maneira dominante ou anormal. Note-se contudo que as associações são muito frequentes entre as tendências dos dois grupos.
As constituições na psicologia patológica
Do ponto de vista da morfologia somática, Kretschmer conseguiu distinguir os seguintes tipos puros: pícnico, leptossómico e asténico e atlético ou muscular. Há ainda os tipos mistos, os atípicos e os displásticos. Efetuaram-se vários trabalhos a fim de conhecer as ligações entre os tipos psicopatológicos e caracterológicos e os tipos morfológicos, tendo-se concluído que há uma grande concentração de ciclotímicos pícnicos e de esquizotímicos leptossómicos. Admite-se pois que a ciclotimia se encontra habitualmente ligada à constituição pícnica (brevilínea) e a esquizotimia à constituição leptossómica (longilínea).
Caracterologia correlacional
Correlação entre as aptidões – As aptidões são uma espécie de ferramentas ou instrumentos que permitem ao homem fazer determinadas operações. O carácter pode ser definido como aquilo que explica que, em presença das mesmas circunstâncias, dois indivíduos que disponham das mesmas capacidades intelectuais e técnicas reajam de maneira diferente. O estudo das aptidões permite assim a criação de métodos de análise de correlações. Existe uma ligação funcional entre dois fenómenos quando, sendo cada um deles mensurável, o conhecimento de uma das variáveis assim definida permite determinar o outro sem ambiguidades. Para medir a intensidade dessa ligação utilizam-se medidas chamadas coeficientes de correlação. As correlações passam a ser tratadas pelos métodos de análise fatorial . O problema da subjetividade dos avaliadores conduz à introdução de métodos estatísticos no ato através do qual se atribui um determinado carácter a alguém. Utilizam-se os métodos de análise da variância, as avaliações agrupam-se à volta de um valor padrão e a distribuição em torno de médias características (o acaso explica efetivamente um quarto da variância). A análise fatorial deve ter lugar após se ter purificado suficientemente os fatores e efetuado um estudo prévio dos instrumentos de medida.
Morfologia e temperamento (segundo o estudo de Sheldon):
As três componentes morfológicas de Sheldon são endomórfica (dominam as vísceras), mesomórfica (dominam as estruturas somáticas – ossos, músculos e tecidos conjuntivos) e ectomórfica (predominância da superfície do corpo, com os seus aparelhos sensoriais, e do sistema nervoso em geral).
Os três tipos temperamentais de Sheldon são Viscerotonia (atitudes e movimentos relaxados, reacções lentas, gosto pelo conforto físico, pela alimentação, pela socialização da alimentação, prazer em digerir, gosto por cerimónias corteses, sociofilia, amabilidade indiscriminada, avidez por afeição e apropriação, orientação para outrem, igualdade do fluxo emocional, tolerância, contentamento consigo próprio, sono profundo, falta de carácter, comunicação fácil e livre dos sentimentos, extroversão, relaxamento e sociofilia sob a influência do álcool, necessidade dos outros em caso de aflição e orientação para as relações de infância e de família), Somatotonia (Firmeza de atitude e de movimento, gosto pelas ações físicas, caraterística enérgica, Necessidade e prazer no exercício, gosto pelo domínio e vontade de poder, gosto pelo risco, maneiras diretas de pessoa intrépida, coragem física no combate, agressividade competitiva, dureza psicológica, claustrofobia, ausência de piedade e de delicadeza, débito vocal estrondoso, indiferença pela dor, gosto geral por bater, hipermaturidade da aparência, clivagem mental horizontal, extroversão somatónica, corte entre a vida consciente e a vida inconsciente, autossuficiência e agressão sob a influência do álcool, necessidade de ação em caso de aflição, orientação para objetivos e atividades próprias da juventude) e Cerebrotonia (retenção da atitude e do movimento, constrangimento, reações fisiológicas excessivas, reações rápidas de mais, gosto pela privação, ascetismo, atividade mental interna, hiperatenção, prontidão de perceção, segredo sentimental, mobilidade controlada dos olhos e da cara, sociofobia, falta de à-vontade em sociedade, resistência aos hábitos, fraca automatização, agorofobia, imprevisibilidade de atitude, débito vocal retido, medo de fazer barulho, hipersensibilidade à dor, sono ligeiro, fadiga crónica, juvenilidade das maneiras e da aparência, clivagem mental vertical, introversão, falta de resistência ao álcool e a todas as drogas deprimentes, necessidade de solidão em caso de aflição, orientação para objetivos do último período da vida).
Correlação entre os tipos morfológicos e os componentes temperamentais (caracterologia):
Viscerotonia / Endomorfismo: +0,79      Viscerotonia/ Mesomorfismo: -0,23      Viscerotonia/Ectomorfismo: -0,40
Somatotonia/ Endomorfismo: -0,29       Somatotonia/ Mesomorfismo: -0,82      Somatotonia/Ectomorfismo: -0,53
Cerebrotonia/ Endomorfismo: -0,32      Cerebrotonia/ Mesomorfismo: -0,58     Cerebrotonia/Ectomorfismo:+0,83
(os coeficientes de correlação têm como valores extremos +1 e -1. O seu valor é 0 quando não existe relação entre os dois fenómenos. Encontram-se tanto mais perto de 1 em valor absoluto quanto mais forte é a relação. Quando são positivos significa que as duas variáveis se deslocam no mesmo sentido e, quando são negativos, significa que se deslocam em sentido contrário).

10/12/11

Caracterologia - 1ª Parte


Como conhecer o íntimo de cada um?
É na caracterologia, um dos capítulos mais fascinantes da psicologia, que se vê a chave secreta para tal.
A caracterologia é uma ciência. A ciência do carácter.
Significado caracterológico
Viver é ser um significado que dá significado aos outros. Ser, é ser para outrem. Ser é ser caracterialmente. Ser é também fazer caracteres. O desvendar caracterológico efetua-se por uma unificação significativa.
O carácter que um homem mostra, depende da realidade constituída por esse homem, da realidade constituída pelas pessoas que vivem com ele, da civilização em que vive e da natureza das relações que eles têm entre si.
Os métodos da caracterologia  
Pretende-se estudar as condutas das pessoas e os juízos que emitem umas relativamente às outras.
Par a tal, existem essencialmente 3 métodos: as investigações causais (constitucionais – os tipos físicos humanos e psicanalíticos – estudo da formação psicológica dos caracteres desde a infância), o estudo clínico e correlacional (com base na psicologia patológica) e busca das propriedades caracterológicas gerais.
Na teoria, os três métodos não são contraditórios e deveriam até ser utilizados concorrentemente.
Os sistemas caracterológicos  
Podem-se, em certa medida, classificar os sistemas segundo o método que foi principalmente utilizado para os constituir. Assim temos:
Caracterologia causal – as causas determinantes do carácter podem ser de natureza biológica ou psicológica.
Caracterologia clínica – deriva da observação direta dos caracteres patológicos: esquizofrenia, ciclofrenia, histeria, epilepsia e desvios sexuais.
Caracterologia das propriedades – Com as 3 propriedades fundamentais (emotividade, atividade e repercussão das representações) e suas combinações, Heymans e Wiessma definem 8 tipos caracterológicos: nervosos, sentimentais, coléricos, apaixonados, sanguíneos, fleumáticos, amorfos e apáticos.
Caracterologia causal morfológico-somática
Segundo estas teorias, o carácter e a morfologia somática dependem das mesmas causas orgânicas profundas.
Conhecendo o importante papel desempenhado pelas glândulas endócrinas na organização do corpo e do carácter, numerosos estudos levam a definir tipos endócrinos.
Os 4 temperamentos clássicos - O bilioso, o linfático, o sanguíneo e o nervoso.
O temperamento delineia a maneira de ser global do indivíduo em reação ao seu meio. Na prática clínica encontram-se muito mais frequentemente tipos mistos que tipos puros. A arte do diagnóstico consiste então em estabelecer a hierarquia.
A medicina antiga relacionava o corpo humano com as realidades fundamentais da natureza – a água, a terra, o fogo e o ar. Assim vemos corresponder à medicina humoral os quatro temperamentos de Hipócrates.
A escola de morfologia (francesa)
Às quatro grandes estruturas morfológicas determinadas pela predominância de um aparelho orgânico (muscular, respiratória, digestiva e cerebral) correspondem os quatro tipos caracterológicos, que podem ser francos ou irregulares: tipo muscular, tipo respiratório, tipo digestivo e tipo cerebral. Os irregulares podem ainda ser redondos ou planos (tipo redondo uniforme, tipo redondo ondulado, tipo redondo cúbico, tipo plano uniforme, tipo plano ondulado, tipo plano amolgado e tipo plano adiposo).
A escola constitucionalista (italiana)
Para esta escola, a constituição humana é formada por 2 sistemas: o sistema de vida vegetativa e o sistema de vida de relação. Quando os 2 sistemas se encontram igualmente desenvolvidos está-se perante o “normotipo”, quando o sistema vegetativo é dominante, está-se perante o “branquitipo megalospânico” (ou brevilíneo) e no caso de dominar o sistema voluntário está-se perante o “longitipo microsplâncnico” (ou longilíneo)
A Pirâmide biotipológica
Pende quis definir os tipos individuais considerando todos os aspetos da personalidade, a fim de atingir verdadeiros tipos somatopsíquicos. Ele resume-a naquilo a que chamou a “Pirâmide biotipológica”. Pirâmide, com 4 faces, cuja base representa os determinantes hereditários do indivíduo, enquanto as 4 faces dizem respeito ao tipo morfológico, à fisiologia, à inteligência e ao carácter.
O estudo do carácter deve partir de observações e permitir determinar tipos apáticos ou emotivos, estáveis ou instáveis, introvertidos ou extrovertidos, abúlicos ou volitivos. O estudo da inteligência comporta a aplicação de numerosos testes e a observação do sujeito e permite definir as inteligências concreta, fantástica, abstrata, intuitiva, lógica, analítica e sintética.  
Pende elaborou uma classificação quadripartida: O longilíneo esténico, O longilíneo hiposténico, o brevilíneo esténico e os brevilíneos hiposténicos.
A Caracterologia causal psicanalítica
As 4 leis fundamentais nas quais a psicanálise, como ciência e como técnica, se pode resumir:
·         A evolução sexual da criança é determinante quanto à natureza das condutas do adulto.
·         Os acontecimentos ocorridos durante a infância do indivíduo, assim como a natureza das relações que unem a criança aos pais, desempenham um papel fundamental na determinação da estrutura psicológica do adulto.
·         As neuroses e as inadaptações sociais não são geralmente fenómenos de astenia e de abrandamento da vida psicológica, mas sim traduções das oposições dinâmicas entre tendências contraditórias.
·         O antagonismo das tendências, os acontecimentos, as situações psicológicas, as fixações do desenvolvimento sexual que se encontram na origem da orientação das nossas condutas, assim como, frequentemente, a própria natureza real desta orientação psicológica, não são geralmente conhecidos pelos sujeitos, mas antes inconscientes.
As fases da primeira evolução sexual: 1- fase oral, 2 – fase anal, 3 – fase genital
Os complexos
Os complexos são grupos organizados de tendências que orientam as nossas condutas e cuja formação remonta ao período de desenvolvimento infantil. Eles não são claramente conhecidos na sua especificidade pelos sujeitos nos quais existem.
A evolução das primeiras relações afetivas:
Narcisismo - fase atravessada pela criança em que ama o seu corpo, gosta de olhar para o seu corpo, à volta do qual se organiza então um conjunto de emoções e sentimentos complexos
Complexo de Édipo – fase de duas tendências conexas. De amor pelo progenitor do sexo oposto e de hostilidade pelo progenitor do mesmo sexo.
Complexo de Caim – Trata-se da rivalidade entre irmãos. A criança, quando lhe aparece um irmão ou uma irmã, reage em primeiro lugar com um ciúme intenso que subsiste, de forma mais ou menos latente e recalcada. Inversamente, a hostilidade do irmão mais novo relativamente ao mais velho aparece como resposta a essa hostilidade.
Homossexualidade – A não resolução do complexo de Édipo pode despertar atitudes sexuais primitivas que, no caso do rapaz se traduz na impossibilidade de evoluir para relações normais e fixá-lo num estado narcísico com componentes homossexuais e na rapariga pode aparecer uma fixação castradora mais ou menos evidente. Por outro lado a criança que não quer abandonar inteiramente nem o modo de vinculação nem a vinculação ao progenitor do sexo oposto transformar-se-á à imagem deste, de maneira a poder continuar a amar o seu pai ou a sua mãe em si. Produz-se uma introjeção. A criança é levada a recusar o seu sexo.
Complexo de Diana – A rapariga, devido a ter sido levada a recusar o seu sexo, pela introjeção referida, manifesta comportamentos arrapazados e posteriormente encontrar-se-á com o menor número de homens possível.
O «id» - é constituído pelas tendências secretas, reprimidas, que, apesar de se manterem inconscientes, orientam as condutas.
O «ego» - representa a personalidade consciente. Se as tendências do «in» não chegam ao «ego» deve-se à existência do superego, que atua como verdadeira instância moral inconsciente.
O superego – é, primeiro, constituído pela organização do controlo das tendências primitivas, que é realizado pelos primeiros educadores. Trata-se de inibições. O superego é também o herdeiro do complexo de Édipo, pois no momento em que este se resolve, o superego organiza-se segundo a imagem do pai, que é simultaneamente temido e admirado. Aparece portanto como uma verdadeira instância moral inconsciente.
Os tipos psicossexuais de Freud – erótico, obsessivo, narcísico, erotonarcísico, narcísico-obsessivo e erótico-obsessivo.
Caracterologia das relações voluntárias 
Estudando mais particularmente a força e a fraqueza do superego, assim como as relações que ele mantém com o ego, Boutonier chegou a uma verdadeira caracterologia das relações voluntárias. Tem um carácter concreto. É uma tentativa de unificar e explicar, a partir das teorias psicanalíticas, caracteres tomados na experiência comum.
Distingue: Dependentes (Submetido, Revoltado, Alternante entre obediente e revoltado, Revoltado verbal e Forçado do querer), Inibidos (Idealista, Lógico, Pessimista, Prisioneiro voluntário, Ironista e Inimigo do tempo) e Desregrados (Apaixonado do querer, Quimérico, Inconstante e Incorruptível).
Trata-se pois de tipos de inadaptação, da descrição de alguns tipos pitorescos mais do que de um verdadeiro recenseamento de tipos homogéneos.