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07/02/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE - Cap.10 - A mulher moderna


10- A mulher Moderna (Do séc. XV aos nossos dias)
Na idade moderna os direitos humanos em geral e os da mulher em particular sofreram graves retrocessos.
No século XVI restaurou-se o regime da escravatura.
A reimplantação do Direito Romano, patriarcal, em vários países da Europa, concluído no século XVI, é o principal responsável pelo retrocesso da actuação feminina no âmbito familiar, social e político. A mulher que vinha conquistando espaço, do século X ao XIII, no âmbito familiar, na sociedade e na arte, sofreu um eclipse no período subsequente.
Enquanto na era feudal, as mulheres das classes mais ricas podiam ter e administrar feudos, ir às cruzadas, podiam governar e algumas chegaram a ter um grande poder político, económico e social, devido ao seu cargo, terras, parentesco ou ocupação, esta situação mudou na Idade Moderna e Contemporânea, com o desenvolvimento da mentalidade burguesa e da influência do Código Napoleónico de 1804, seguido por outros países.
Os legisladores foram retirando à mulher tudo o que lhe conferia alguma autonomia ou instrução. A mulher foi excluída da vida eclesiástica e da vida intelectual.
O movimento precipitou-se quando no começo do século XVI foi reconhecido ao rei Francisco I da França (1515-1547) o direito de nomear abades e abadessas; inspiradas por critérios políticos, tais nomeações acarretaram a decadência de muitas casas religiosas.
A repressão à mulher consolidou-se no fim do século XVI, por decreto do Parlamento francês datado de 1593, onde a mulher foi explicitamente afastada de toda função do Estado. A influência crescente do Direito Romano finalmente confinou a mulher às suas tarefas peculiares de cuidar da casa e educar os filhos, aumentando a subserviência aos homens de onde lhes provinha o sustento
Mas as mulheres não baixaram os braços e começaram a ganhar mais espaço no mercado de trabalho através da costura. As empresas da época, voltadas a fabricação de tecidos e confecção de roupas, empregavam inúmeras mulheres. Com a especialização da indústria tecelã, as mulheres ofereciam abundante e qualificada mão-de-obra.
Com a revolução industrial, o aparecimento das máquinas facilitou a produção, deixando cada vez mais de lado a necessidade de braços fortes, de forma que mulheres e crianças corriam para as empresas em busca de empregos, embora sempre em troca de um salário miserável. Trabalhavam cerca de 17 horas por dia em condições sub-humanas.
Com isso, cada vez mais os homens iam perdendo espaço no mercado de trabalho industrial. O desemprego assolava a classe masculina. Temerosos com o abalo social, começaram a pleitear a regulamentação do trabalho da mulher, na verdade não com o objectivo de protegê-la, mas sim de evitar a sua exploração barata e a consequente demissão em massa de operários homens.
No século XIX, mediante o Código de Napoleão, o processo de despojamento da mulher deu novo passo, deixou de ser reconhecida como senhora dos seus próprios bens e, mesmo em casa, passou a exercer papal subalterno.
Somente no século XX, com o movimento feminista, que se iniciou em Inglaterra com as sufragistas, a mulher conseguiu resgatar o seu prestígio. No início desse século as mulheres não votavam nem ocupavam cargos públicos, não tinham propriedades pois transferiam os bens herdados para o marido e não lhes era permitido dedicar-se ao comércio, ter um negócio próprio, exercer diversas profissões, abrir uma conta corrente ou obter crédito. Os códigos civis e penais consideravam-nas menores de idade perante a lei. O direito feminino ao voto foi sendo alcançado ao longo do século XX. O ingresso massivo da mulher no mercado de trabalho – com excepção do trabalho nas fábricas em plena Revolução Industrial – teve início apenas nos meados desse século.
Após atingidos esses objectivos, que poderemos chamar de “feminismo reformista”, inicia-se nos anos sessenta uma segunda onda denominada “feminismo revolucionário”. São os anos nos quais o número de mulheres nas universidades e nos diversos tipos de trabalho aumentou consideravelmente. Advogou-se uma “nova ética” que rompesse com a sociedade, com a família convencional, e que “libertasse” a mulher das “cadeias da natureza”, tal como foi formulado por Simone de Beauvoir. Para muitos pensadores, este é o facto fundamental que nos ajuda a compreender a nossa época. O que já é chamado de o “desmantelamento da sexualidade” (com a anti-concepção como hábito) e abriu portas a outro fenómeno decisivo da humanidade, a fecundação in vitro.
A partir de 1975, percebe-se um certo cansaço. As mulheres não estavam satisfeitas com os resultados da segunda fase do feminismo – que reivindicava sobretudo a libertação sexual – em comparação com a primeira fase (voto, ensino, independência económica). Precisamente em 2005, na Conferência Mundial da Mulher organizada pela ONU, alguns movimentos feministas começaram a postular e a louvar mais a diferença e a complementaridade do que a igualdade radical. É o neo-feminismo.
O facto de que a mulher se tenha incorporado massivamente no mercado de trabalho não quer dizer que todas devam ou desejem fazê-lo. Trata-se, pois, de gerar graus de flexibilidade nas estruturas sociais para que estas se adaptem à família e às suas necessidades, e não o contrário. A legislação e algumas medidas tomadas parecem mais focadas em fomentar o ingresso das mães ao mercado de trabalho do que acrescentar um verdadeiro apoio à família, que permita escolher com liberdade entre permanecer em casa ou conciliar o trabalho do lar com outro, externo. Assim, nos últimos tempos, a mulher deixou de estar preocupada exclusivamente na conquista de equiparação ao homem, querendo imitá-lo, exercer as mesmas funções, adoptar os mesmos hábitos, sem se questionar a respeito do que ela reproduz ou sem pensar em salvar a sua própria identidade e originalidade, o que não só a prejudica a si, mas também à própria sociedade, que precisa dos valores peculiares da mulher e da feminilidade.
Pouco a pouco está a surgir um novo feminismo integrador. É o feminismo da complementaridade, da cooperação com o marido em todos os âmbitos da vida familiar, cultural, empresarial e social – que requer um conjunto de mulheres aptas para ele, em postos chaves de decisão (legislativo, laboral, político e empresarial) e uma sensibilidade especial por parte do marido para entender essa realidade e apoiar essas mudanças. Duas ideias - chave podem torná-la realidade: a mulher já está no mercado de trabalho e não o deixará, e a família é de ambos, homem e mulher, pai e mãe.

05/02/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE - Cap.9 - A mulher na arte na Idade Média

9- A mulher na arte na Idade Média
A situação da mulher artista não diferia da situação da mulher em geral.
A Idade Média abrange um período vastíssimo de cerca de mil anos, no decorrer do qual houve várias expressões artísticas, nomeadamente: Arte Carolíngia, Arte Bizantina, Arte Islâmica, Arte Germânica, Arte Românica e Arte Gótica.
A grande maioria dos artistas, até ao período do “Gótico Final”, era anónima, e por isso tem sido difícil identificar obras de autoria feminina.
De facto, em contraste com a Antiguidade Clássica ou com o Renascimento, a impessoalidade do trabalho de arte e a modéstia dos artistas na Idade Média não oferecem dúvidas, assim como a ideia do individual e do particular ser estranha para eles e para os seus contemporâneos.
A mulher teve um papel activo na sociedade medieval e uma produção artística significativa.
A Idade Média herdara da Antiguidade o desprezo a que fora relegada a condição de qualquer homem ou mulher que trabalhasse com as suas próprias mãos, ainda que fosse um artista.
O Cristianismo, por outro lado, fixava a ideia de que o indivíduo singular não era agente da história, o homem não tinha importância como criador, visto que era considerado um instrumento divino.
Assim a grande maioria dos artistas desse período era anónima.
Por essas razões os renascentistas menosprezaram e depreciaram as contribuições medievais, não as mencionando na História da Arte.
De facto a abordagem renascentista a respeito da Arte da Idade Média conduziria a que esta ficasse envolta num senso pejorativo e até mesmo relegada ao esquecimento e tornou-se um período intermediário, situado incomodamente entre a brilhante Antiguidade e o seu Renascimento.
Foi necessário esperar pela historiografia contemporânea para que houvesse o despertar do interesse pela arte medieval, com a superação da conotação negativa do termo gótico.
A nova historiografia divide a Arte na alta Idade Média em 2 períodos distintos: o Românico (de início do séc. XI a finais do XII) e Gótico (Meados do séc. XII a XVI).
9.1- A mulher artista no Período Românico
O período Românico é a 1ª afirmação cultural do Ocidente, quando o Cristianismo triunfa em toda a Europa, fortalecendo as instituições monásticas, tanto as masculinas como as femininas. A cultura e a arte eram monásticas.
As oportunidades para as mulheres em matéria de educação estavam mais disponíveis àquelas que quisessem abraçar uma vida celibatária. As monjas dispunham de tempo e espaço para se dedicarem à leitura, à escrita, à composição, à tecelagem, à gravura, à pintura, etc., dentre as muitas funções que exerciam, trabalhando ainda como bibliotecárias, professoras, copistas e artistas.
Mulheres célebres pela sua cultura foram Herrada de Landsberg (séc. XII), Heloísa (séc. XII) e Cristina de Pisan (séc. XIV).
O mosteiro era um dos poucos lugares em que a mulher podia ter visibilidade e encontrar uma saída para os seus talentos artísticos. Muitas mulheres religiosas dedicaram-se à arte da cópia e ilustração de manuscritos e a outras artes consideradas menores (pintura sobre vidro, ourivesaria, miniatura e tecelagem).
Mas as artes maiores (arquitectura, escultura e pintura) também interessaram os mosteiros.
Houve também mulheres copistas profissionais não religiosas, algumas nobres, esposas de escrivães, filhas de poetas, etc.
Muitas, entre religiosas ou leigas, deixaram no fim dos manuscritos o registo da sua participação, podendo assim ser identificadas.
São os casos de trabalhos em manuscritos ilustrados das monjas Ende (finais do séc. X) e Guda, da abadessa Hildegarda de Bingen (que deixou-nos inúmeras obras com ricas iluminuras) e da laica Clarícia, miniaturista do séc. XIII.
9.2- A mulher artista no Período Gótico
O 2º período da arte medieval, o período gótico, caracteriza-se por ser o período das corporações e da burguesia.
O centro de gravidade da vida social desloca-se do campo para a cidade.
A mudança, do ponto de vista cultural, reside em dois grupos activos, o dos artífices e artistas e dos mercadores.
Os ofícios organizam-se em corporações e a poderosa classe burguesa obtém o controlo dos governos municipais.
Em meio a essa reestruturação social, o trabalho feminino, enquanto mão-de-obra, teve forte significação na vida económica das cidades.
A grande maioria das mulheres trabalhadoras empregava-se nas oficinas artesanais e artísticas, executando tarefas ao lado dos homens.
Raro é o artífice de alguma importância que não tenha ao seu lado algum aprendiz, colaborador ou familiar, muitas vezes mulher, que aprenda as técnicas da profissão e que o ajude em alguns dos múltiplos processos de execução de uma obra.
Assim, em algumas corporações, mulheres podiam tornar-se mestres independentes.
Como membro das corporações, as mestres artesãs mulheres estavam sujeitas aos mesmos regulamentos, controles e obrigações tributárias dos mestres homens. Mas a maioria das mulheres trabalhava numa situação de dependência, como aprendiz, assalariada ou por jornadas.
Muitas mulheres estiveram activas em inúmeras profissões, mesmo as consideradas habitualmente masculinas.
Foi o caso de, por exemplo, Sabina von Steinbach, que executou trabalhos de escultura na construção da Catedral de Estrasburgo.
Ainda que as mulheres tivessem alcançado algum espaço como artífices, tendo mesmo ampliada a sua actividade como artistas, não foi fácil a sua manutenção. De facto, no final da idade média, verifica-se uma crescente hostilidade ao trabalho feminino, particularmente nos regulamentos corporativos.
Fontes fundamentais para conhecer nomes e trabalhos de mulheres artistas medievais, são:
 Registos fiscais, como, por exemplo, as contas da talha, em Paris, onde o nome dos contribuintes é acompanhado da indicação do seu ofício.
 Recibos de pagamentos e Contratos revelam o nome de muitas mulheres artistas, como, por exemplo, em Bolonha, nos séc. XIII e XIV: Donella Miniatrix esposa de um miniaturista, a calígrafa Montanaria mulher de Onesto, Allegra esposa de Ivano, que promete a uma carmelita, copiar uma bíblia completa, Flandina de Tebaldino, calígrafa, etc. Também de Colónia, dos séc. XIII e XIV, podemos mencionar alguns nomes: a viúva Tula Rubeatrix, Hilda ou Hilla, pintora.
Quanto mais nos aproximamos do fim da Idade Média, mais frequentemente os artistas assinam as suas próprias obras.
A partir dessas fontes documentais é possível levantar alguns nomes de artistas, saber das actividades desenvolvidas, estabelecer algumas categorias de encomendas e consequentemente de obras de arte, como as encomendas da corte, da nobreza, da burguesia ou da igreja.
Quanto ao merecimento, embora alguns artistas do período gótico tenham alcançado elevados níveis sociais como artistas, casos de Giotto e Jan van Eyck, estes não representam a realidade artística da maioria e menos ainda se tratando de mulheres artistas.
Durante o séc. XV o número de mulheres artistas em actividade aumentou significativamente, mas não há ainda nenhuma mulher que individualmente tenha conseguido alcançar reputação artística comparável com as de vários seus contemporâneos masculinos.


03/02/12

Homens com gripe - segundo Lobo Antunes

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
 Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer

António Lobo Antunes

"Setúbal é um Mundo"

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE - Cap.8 - A mulher na Idade Média

8- A mulher na Idade Média
O conceito pejorativo de Idade Média que comummente é propalado deve-se, em parte, aos preconceitos dos pensadores dos seculos XVI e seguintes, os quais, movidos por premissas anticatólicas e anticristãs, tinham interesse em denegrir a Idade Média.
Sabe-se hoje que esta, não tendo sido perfeita, nao foi bárbara nem obscurantista, como se disse.
Teve até gestos e valores que suscitariam rubor no homem moderno, começando logo pela extinção da escravatura, no começo da Idade Média, para dar lugar ao regime do servo da gleba, respeitando os direitos do pequeno camponês; todavia a escravatura foi restaurada no século XVI nas terras da América, onde vigorou o colonialismo.
Através das fontes existentes (cartulários, estatutos das cidades, documentos judiciários, etc.), podem-se colher pormenores relativos à vida quotidiana da mulher medieval.
É surpreendente o quadro que se delineia a partir da concatenação desses dados. Assim, por exemplo, as mulheres votavam. Por ocasião dos Estados Gerais de 1308 as mulheres são explicitamente citadas entre as votantes em diversas partes do territorio francês, sem que isto venha apresentado como uso particular do lugar. É conhecido o caso de Gaillardine de Frechou, que, diante de um arrendamento proposto aos habitantes de Cauterets nos Pirenéus pela abadia de Saint-Savin, foi a única a votar NÃO, quando todo o resto da população votou SIM.
Nas actas de tabeliães é muito frequente ver uma mulher casada agir por si mesma: abre, por exemplo, uma loja ou uma venda, sem ser obrigada a apresentar autorização do marido. Os registos de impostos, desde que foram conservados (como em Paris, a partir de fins do século XIII), mostram multidões de mulheres a exercer as funções de professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.
Na Idade média o período de maior consideração de que gozaram as mulheres durou até ao ressurgimento do Direito Romano que, principiando no século XI, atingiu a plenitude a partir do Século XVI. Com este a importância da mulher diminuíu.
O Direito Romano fundamentou o menosprezo da mulher a partir do século XVI; o que teve ulteriores consequências no modo de pensar e agir da sociedade em relação à mulher e a outros valores da sociedade.
Na verdade, o Direito Romano nao era favorável à mulher nem à criança; era um Direito monárquico, que exaltava o paterfamilias, pai, proprietário, chefe da familia com poderes sagrados, sem limites no tocante aos filhos (tinha sobre estes direito de vida e de morte) e à esposa.
Por exemplo, na fase anterior a do Direito Romano a rainha era coroada e atribuia-se a coroação da rainha tanto valor quanto a do rei. À medida que o Direito Romano foi ascendendo, a coroação das rainhas foi sendo considerada menos importante que a dos reis. No século XVII a rainha desaparece literalmente da cena em proveito da ¡°favorita¡±. Outro exemplo, na sua epoça, Eleonora de Aquitania (+ 1204) e Branca de Castela (+ 1252) exerceram autoridade sem contestacao nos casos de ausencia do rei, doente ou morto; tiveram as suas chancelarias, alfandegas e sectores de actividade pessoal. A primeira disposição que afastava a mulher da sucessao ao trono foi tomada por Filipe IV, o Belo (1285-1314), sob a influência de juristas romanos.
Note-se ainda a propósito que a partir de fins do século XVII a mulher é obrigada a tomar o nome do marido.
De resto, observe-se que a Idade Média se encerra com a figura de Joana D.Arc (+ 1431), jovem que, nos seculos seguintes, jamais teria conseguido obter a audiência e suscitar a confiança que lhe foram outorgadas no século XV.
Outro caso merece especial registo, o pregador de penitência Roberto de Arbrissel (+ 1117) conseguiu levar tanta gente à conversão que houve por bem fundar a Ordem de Fontevrault em 1100/1101, com base na Regra de S. Bento. Esta Ordem distinguiu-se pela penitência severa e pelos 1ºs mosteiros duplos: entre um cenóbio de homens e outro de mulheres achava-se a Igreja, único lugar em que monges e monjas se podiam encontrar. Ora a direcção suprema desses mosteiros duplos competia, em honra da Santa Mae de Deus, à abadessa de Fontevrault; esta devia ser viuva, tendo feito a experiência do casamento.
Somente no fim do século XVI, por decreto do Parlamento francês datado de 1593, a mulher foi explicitamente afastada de toda a função de Estado. A influência crescente do Direito Romano finalmente confinou a mulher às suas tarefas peculiares de cuidar da casa e educar os filhos.
(Nota: no século XIX, mediante o Código de Napoleão, o processo de despojamento da mulher deu novo passo: deixou de ser reconhecida como senhora dos seus próprios bens, e, em casa mesmo, passou a exercer papel subalterno).
No fim da Idade Média e depois, os legisladores foram retirando a mulher tudo o que lhe conferia alguma autonomia ou instrução. A mulher foi excluída da vida eclesiástica e da vida intelectual. O movimento precipitou-se quando no começo do século XVI foi reconhecido ao rei Francisco I da França (1515-1547) o direito de nomear abades e abadessas; inspiradas por critérios políticos, tais nomeações acarretaram a decadência de muitas casas religiosas.
(A reacção a tal estado de coisas tem ocorrido nos últimos tempos mas de maneira decepcionante, pois a mulher parece preocupada exclusivamente na conquista de equiparação ao homem: quer imitar o homem, exercer as mesmas funções que este, adoptar os hábitos do seu parceiro, sem se questionar a respeito do que ela reproduz, ou sem pensar em salvar a sua própria identidade e originalidade! Ora isto prejudica não só a mulher, mas tambem a própria sociedade, pois esta precisa de valores peculiares da mulher e da feminilidade!)
Foi no século XVI que infelizmente se restaurou o regime da escravatura romana, que a Idade Média não conheceu, e que persistiu até ao século passado. Vê-se, pois, que, sob este aspecto, a Idade Média está longe de ter sido obscurantista.


01/02/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE - Cap.7 - A mulher artista na Idade Antiga


7- A mulher artista na Idade Antiga
Nos primeiros registos da cultura ocidental, poucos indivíduos são mencionados, embora as mulheres sejam representadas em todas as artes, algumas nos seus trabalhos como artistas.
Referências antigas de Homero, Cícero e Virgílio mencionam os trabalhos de proeminentes mulheres no têxtil, na poesia e na música e outras actividades culturais.
Já Plínio, o Velho, faz referência, na sua “História Natural” (Lv.XXXV), aos nomes de artistas femininas na Grécia e em Roma, descrevendo as suas obras, incluindo os nomes Timarete, Eirene, Kalypso, Aristarete, Iaia e Olimpias.
Embora nenhum dos seus trabalhos tenha sobrevivido, há em Milão uma pintura de cerca de 460 a.C. que mostra mulheres trabalhando ao lado de homens na pintura de vasos.

31/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.6 - A mulher na Idade Antiga



6- A mulher na Idade Antiga
No Egipto Antigo a mulher possuía um status privilegiado dado pela igualdade entre os sexos como um facto natural, sendo comum atribuir similar importância a filiação paterna e a materna. A maioridade feminina, quando atingida, possibilitava a escolha do marido mediante consentimento paterno e quando casadas as mulheres podiam intervir na gestão do património familiar. Em relação ao trabalho, a tecelagem constituía uma ocupação reservada ao sexo feminino, competindo-lhe tosquiar as ovelhas e tecer a lã, podendo também trabalhar na ceifa de trigo, no preparo da farinha e da massa do pão. Enquanto que as mulheres mais pobres trabalharam em grandes obras de construção pública.
Na Grécia Antiga a sociedade era equiparada a um clube dos homens, pois estes não permitiam o acesso da mulher ao saber, desvalorizando tudo que lhes dizia respeito, inclusive a beleza. Nem a maternidade escapava da desvalorização sistemática, sendo as mulheres vistas apenas como receptoras da semente masculina. A inferioridade da mulher pode ser atestada pela obra “Política” de Aristóteles, que a justificava em virtude da não plenitude na mulher da parte racional da alma. A cidade de Esparta era aquela que proporcionava às mulheres a maior autonomia entre todas as cidades estado estabelecidas, pois a necessidade de contar com o apoio das mulheres para defender a polis fazia com que os homens espartanos lhes dessem treino militar e permitissem maior liberdade para participar das actividades do quotidiano da cidade.
Na Roma Antiga, como herdeira de parte da tradição grega, a inferioridade social da mulher marcava a condição feminina. A estrutura familiar assenta na base do paternalismo. Nas leis e nos costumes, a mulher era uma perpétua menor que passava da tutela do pai à do marido. Refira-se contudo que depois do período das conquistas, aumentou o grau de liberdade e as mulheres passaram a poder permanecer nas ruas e praças, frequentar escolas, dançar, cantar e fazer poesia, trabalhar no comércio, artesanato e em actividades como medicina.

30/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.5 - A mulher artista na Pré-História


5- A mulher artista na Pré-História
Não há registos de quem eram os artistas na era pré-histórica. Por exemplo, as provas de que a arte rupestre é uma exclusividade dos homens são bastante controversas e insatisfatórias.
E os estudos de muitos arqueólogos, etnólogos e antropólogos indicam que as mulheres muitas vezes foram as principais artesãs nas Culturas consideradas como neolíticas, criando os seus vasos, têxteis, cestos, jóias, etc. É vulgar a sua colaboração em grandes projectos.
Extrapolando para os objectos e capacidades do paleolítico segue-se o mesmo entendimento das Culturas conhecidas e estudadas através da etnologia e antropologia.
As pinturas rupestres aparecem das mãos das mulheres tal como dos homens

26/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.4 - A mulher na Pré-História


4- A mulher na Pré-História
A fase pré-histórica ocupa quase três quartos (¾) da existência humana na terra.
A figura feminina na Pré-História tinha um enorme peso nas sociedades. A mulher possui um lugar de destaque, porque a força física não é o principal elemento para a sobrevivência. Reina a harmonia e os dois elementos, fêmea e macho, desempenham papéis fundamentais para o grupo sem que se encontrem quaisquer resquícios de hierarquia, seja de nível económico ou fisiológico.
Os vestígios paleolíticos revelam que o feminino ocupava um lugar primordial, pois deste período foram encontradas estatuetas femininas, pinturas e objectos, que cultuavam a mulher como um ser sagrado. Assim, pela sua inexplicável habilidade de procriar, as mulheres eram elevadas à categoria de divindades.
Não eram sociedades matriarcais, eram sim matricêntricas, pois a mulher não dominava, mas as sociedades eram centradas nela por causa da sua fertilidade.
A divisão do trabalho nas sociedades primitivas ocorreu entre os dois sexos, cabendo ao homem a caça e a pesca, e à mulher a colecta de frutos, evoluindo posteriormente para a cultura da terra. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.
Acredita-se que a estratificação social e sexual tenha surgido posteriormente, quando o homem, devido a escassez de alimentos e após o domínio do fogo, começa a viver de forma sedentária, cultivando os seus alimentos e saindo à caça de grandes animais, factores que exigiam maior vigor físico. A caça sistemática a grandes animais e as disputas entre os grupos em busca de novos territórios farão surgir a supremacia masculina e o espírito de competitividade. Agora, para sobreviver, as sociedades têm que competir entre si em busca de um alimento que se torna cada vez mais escasso. As guerras começam a fazer parte da vida desses grupos. As diferenças sociais começam a tomar força, não só em relação a homem e mulher, mas também entre os homens, pois os mais fortes seriam os melhores guerreiros.
Foi a partir da descoberta de sua importância na reprodução que o homem passou a ter domínio da sexualidade feminina. É ai que surge o casamento como conhecemos hoje, em que “a mulher é propriedade do homem”. As sociedades, então, tornam-se patriarcais, isto é, os portadores dos valores, e da sua transmissão, são os homens. Agora, já não são os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas, sim, „a lei do mais forte.. As mulheres têm a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento obriga a mulher a sair virgem das mãos dos pais para as mãos do marido. Qualquer ruptura dessa norma pode significar a morte. A mulher fica reduzida ao âmbito doméstico, perde qualquer capacidade de decisão no domínio público, e fica inteiramente reservada ao homem.

25/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE: Cap.3 - A exclusão de mulheres artistas da história da arte


3- A exclusão de mulheres artistas da história da arte
A quase que total exclusão das mulheres artistas da história da arte é uma questão cultural.
Essencialmente deve-se a que a cultura dominante na História tem sido a dos homens. Foram os homens que a escreveram, não as mulheres. A História é a história dos homens. A História escrita pelas mulheres teria sido forçosamente diferente.
Acresce que a historiografia é o sector do estudo em que mais dificilmente os pesquisadores mantêm neutralidade científica.
O homem foi o agente definidor do estatuto e do imaginário acerca da mulher, silenciando a sua participação activa na construção dessa visualidade, por exemplo como produtora de obras de arte.
Dentro desta esfera mais restrita, no entanto, muitas mulheres construíram carreiras de sucesso, muitas vezes igualando ou superando os homens.
Também o facto de as artes consideradas maiores requererem trabalho manual mais duro, levou a que estivessem tradicionalmente reservadas, salvo poucas excepções, aos homens. A escultura por exemplo só na segunda metade do séc. XIX, na Europa, e no séc. XX na América, é que foi legitimada como trabalho igualmente feminino.
Outro aspecto a ter em conta é que a carreira de muitas artistas foi muito prejudicada pela elevada maternidade das mulheres nos tempos anteriores ao nosso.
Por outro lado, mentalidades retrógradas que consideravam a ocupação artística imprópria para as mulheres ainda se faziam sentir mesmo no final do séc. XIX, onde não raras famílias se opunham à vocação das suas jovens, impedindo-as de fazer carreira nas artes.

23/01/12

Tese de dissertação "A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE": Cap.2 - A mulher como artista


2– A mulher como artista
Sempre houve um preconceito do homem face à mulher artista. O próprio Vasari, pai da história da arte, que no seu livro “Vida dos Excelentes Pintores, Escultores e Arquitectos” nomeou algumas mulheres, por vezes referiu-se a elas de forma pejorativa, acompanhando a ideia renascentista de que as mulheres eram vencidas e manietadas pelo sentimento da melancolia e nenhuma conseguia escapar à sua natureza feminina.
Só no séc. XX e pela primeira vez na história, as mulheres foram consideradas artisticamente iguais aos homens, que, apesar de tudo, continuaram a gozar de maior renome.
Assim, nos dias de hoje é natural abordar a obra e conhecer a biografia de muitas mulheres artistas, mas, quanto mais nos afastamos em direcção ao passado, mais difícil se torna encontrar a sua presença.
Na História da Arte poucas foram as artistas femininas citadas entre as listas intermináveis de nomes masculinos e mesmo estas, quando lembradas, acabam colocadas em posições coadjuvantes desses homens.

22/01/12

A MULHER ARTISTA NA HISTÓRIA DA ARTE -Tese de Dissertação de Pós-Graduação de Constantino Teles, 01-06-2010: Capítulo 1 - A Arte -


1- A arte
A palavra arte tem a sua origem na palavra latina ars que significa actividade, habilidade.
Até ao século XV, designa apenas um conjunto de actividades ligadas à técnica, ao ofício, à perícia, isto é actividades essencialmente manuais, onde se incluíam não só a pintura, a escultura e a arquitectura, mas também, as ditas artes menores.
Com o renascimento os artistas reivindicam para si um saber científico. Assim a história dos artistas, que tem início no Renascimento, está essencialmente associado ao reconhecimento da sua obra como possível de ser classificada na categoria das “artes liberais” em vez de “artes servis ou mecânicas”.
Mas afinal o que é arte?
A questão é polémica e de respostas pouco satisfatórias.
A obra de arte é um objecto estético, feito para ser visto e apreciado pelo seu valor intrínseco.
E o que se entende por estético?
A estética costuma ser definida como “dizendo respeito ao que é belo”.
É claro que nem toda a arte é bela aos nossos olhos, não deixando, por isso, de ser arte. Então o termo estético não satisfaz inteiramente.
A Estética como ramo da filosofia tem preocupado os pensadores desde Platão aos nossos dias e como todas as questões filosóficas, os problemas levantados pelo “belo” são inerentemente insolúveis.
O nosso gosto e as nossas opções são exclusivamente condicionados pela cultura em que estamos inseridos e as culturas são tão diversificadas que se torna impossível reduzir a arte a um conjunto de regras susceptíveis de serem aplicadas em toda a parte.
Parece assim impossível definir qualidades absolutas em arte, não podendo nós escapar à necessidade de apreciar as obras de arte no contexto do seu tempo e circunstancialidade, sejam eles quais forem.
Podemos contudo dizer que uma obra de arte terá de envolver Imaginação, Criatividade e Originalidade. O que está apenas ao alcance dos que passam da fase de simples perícia artesanal e se tornam criadores de arte por direito próprio, isto é, os verdadeiramente dotados – os artistas.
Actualmente distinguem-se 11 formas de arte: Música, Dança, Pintura, Escultura, Teatro, Literatura, Cinema, Fotografia, Banda Desenhada, Vídeo Jogos e Arte Digital. Vamos aqui apenas tratar das mais tradicionais e dentro destas da Pintura.

A Oração de Gettysburg - Presidente Lincoln

Há oitenta e sete anos, neste continente, os nossos antepassados doaram ao Mundo uma nova nação concebida na liberdade e baseada no princípio de que todos os homens foram criados iguais. Estamos hoje envolvidos numa tremenda guerra civil que provará se esta nação, ou qualquer outra formada e dirigida do mesmo modo, pode resistir a tais crises. Encontramo-nos, neste momento, num dos grandes campos de batalha desta luta e queremos consagrar uma parte dele à última morada dos que aqui sacrificaram a própria vida pela existência do país.
É justo que o façamos porém, num sentido mais profundo, não nos compete abençoar ou consagrar este solo. Os heróis, vivos ou mortos, que nele pelejaram já o santificaram a tal ponto, que as nossas fracas forças nada lhe podem acrescentar nem tirar. Mais tarde, o Mundo esquecerá o que hoje aqui foi dito: todavia jamais poderá olvidar os feitos de que este campo foi teatro. Cabe-nos a nós, os vivos, dedicarmo-nos à continuação da obra que os combatentes aqui iniciaram. Compete-nos realizar a sublime tarefa que esses grandes mortos nos legaram e, com crescente espírito de sacrifício, levar à vitória a causa que aqui os fez exalar o derradeiro alento. Cumpre-nos fazer que esses homens não tenham tombado em vão, que, com o auxílio de Deus, a Nação assista à renascença da liberdade e que o governo do povo pelo povo não desapareça da face da terra.