Mensagem de boas vindas

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16/03/20

BOLESLAU II e o Mártir ESTANISLAU


(Uma estória da História da Idade Média)

BOLESLAU II e o Mártir ESTANISLAU

O vigoroso mas instável Boleslau II-o-Selvagem, sucedeu a Casimiro-o-Renovador, que subiu ao trono do reino da Polónia em 1034.

De Boleslau, o Selvagem, a crer numa lenda medieval, «nenhuma mulher, nenhuma rapariga, estava ao abrigo das suas manhas e dos seus estratagemas».

Boleslau nada fazia para esconder a sua devassidão.

A corte e o clero temiam-no tanto que lhe não faziam crítica alguma. Apenas o piedoso bispo Estanislau de Cracóvia ousou exortá-lo, por três vezes, a mostrar mais moderação e a pensar na salvação eterna, acabando por ameaçá-lo com a excomunhão.

Como Boleslau se recusasse a emendar-se, o bispo teve a extraordinária coragem de o expulsar do seio da Igreja, vindo a pagar esta audácia com a vida. Boleslau abriu-lhe o crânio com a espada.

Estanislau tornou-se, assim, um santo e um mártir (como conta uma crónica) e deram-se milagres sobre o seu túmulo.

Quando teve conhecimento desta notícia, o rei sentiu grande horror pelo crime que cometera e caiu num tal estado de desespero que fugiu do reino, como um Caim. Chegou à Hungria disfarçado. Como a consciência lhe não deixava um só momento de repouso, decidiu ir em peregrinação a Roma para suplicar ao Santo Padre que levantasse a excomunhão que sobre ele pesava.
«Mas, ao aproximar-se do mosteiro beneditino de Ossiach, na Coríntia, o rei sentiu a imperiosa necessidade de ali ficar e de viver, a partir de então, em penitência. Ficou, portanto, no mosteiro e realizou, de bom grado, os trabalhos mais duros. Por vezes troçavam dele, criticavam-no, batiam-lhe até pela sua inépcia, mas o pecador arrependido tudo suportava com infinita paciência. Só no leito de morte revelou ao confessor a sua verdadeira identidade, bem como o assassínio de Estanislau, recebendo em seguida os últimos sacramentos. Morreu entre as orações de toda a congregação. A partir desse dia, o seu corpo repousa na igreja de Ossiach.»

NOTA: outras fontes históricas afirmam que Boleslau não deixou voluntariamente o reino, mas que foi expulso. Há também diferentes versões da sua morte.

Após a fuga de Boleslau, em 1079, a Polónia viveu um estado de desunião e impotência. O reino enfraqueceu e no século XII estava dividido em vários principados quase independentes e continuamente em oposição uns aos outros. Nesse período de declínio nacional, a colonização alemã e a germanização do país fizeram importantes progressos.

15/03/20

A ARTE MEDIEVAL


“Cadernos de História da Arte” - vol. 5 Ana Lídia Pinto, Fernanda Meireles, Manuela Cernadas Cambotas

 ARTE MEDIEVAL

1
APRESENTAÇÃO

 Nesta disciplina serão abordados os períodos e os estilos artísticos durante a Idade Média, na área geográfica correspondente ao ocidente e sul da Europa.
A Idade Média corresponde a um grande período situado entre o Império Romano e o Renascimento, ou seja, compreendido entre duas épocas clássicas.
Duas importantes datas servem de referência aos historiadores da Idade Média. São elas 476, ano da queda do Império Romano, e 1453, ano da queda do Império Bizantino.
Apesar da especificidade destas datas, a Idade Média não se iniciou nem terminou de repente.
Pelo contrário, existiram longas fases de transição no seu começo e no seu final.
Fruto de sucessivas invasões e de disputas internas, a Europa vive um período muito conturbado (e pouco documentado) até aos sécs. XI-XII.
A arte produzida em mais de metade da Idade Média corresponde em grande parte à dos povos invasores, ou a mesclas destas com algumas heranças clássicas.
A partir dos sécs. XI-XII, deu-se um fortalecimento do Cristianismo e a definição de fronteiras das nações emergentes, assim como das suas línguas.
Criaram-se, então, condições de estabilidade suficientes para o aparecimento de importantes cidades, desenvolvimento do comércio e das artes.
Em termos programáticos, nesta disciplina vão ser estabelecidos quatro capítulos, compostos por alguns subcapítulos:
 1. A Arte da Alta Idade Média Arte Paleocristã Arte Pré-românica Arte Muçulmana Arte Bizantina
2. A Arte Românica Arquitetura Pintura Escultura
3. A Arte Gótica Arquitetura Escultura Vitral Pintura
4. A Arte Medieval em Portugal Arte Pré-românica Arte Muçulmana Arte Românica Arte Gótica


2
ARTE PALEOCRISTÃ

A Arte Paleocristã corresponde às primeiras manifestações artísticas do Cristianismo, situando-se sensivelmente entre os anos 200 e 650.
Divide-se em duas fases: uma de clandestinidade, anterior a 313; outra posterior a essa data quando, quando se torna a religião oficial do Império Romano, através do imperador Constantino.
No período de clandestinidade, as catacumbas de Roma (conjuntos subterrâneos de corredores e salas) são locais da maior relevância para o estudo da Arte Paleocristã.
São cerca de cinquenta essas catacumbas, seis delas judaicas.
Nesses espaços recônditos, praticavam as religiões perseguidas os seus rituais, incluindo cerimónias fúnebres.
Na Arte Paleocristã encontram-se influências das artes clássicas grega e romana.
Contudo, devido às perseguições e à ausência de escola, apresentam limitações técnicas.
Do Velho Testamento são comuns as representações de Adão e Eva, Noé e Moisés; do Novo Testamento passagens da vida de Cristo, da Virgem Maria dos apóstolos e outros santos.
Da fase do Cristianismo como religião legalizada destacam-se os mosaicos dos mausoléus de Santa Constança (em Roma) e de Gala Placídia (em Ravena), assim como da Basílica de Santa Maria Assunta (em Aquileia).
Ao contrário dos frescos, os mosaicos paleocristãos apresentam rigor técnico e complexidade de composição.
Aos temas adotados nos frescos, acrescentam-se nos mosaicos composições de caráter geométrico e cenas do mundo do trabalho.
A arte móvel faz também parte da produção artística paleocristã.
Consiste essencialmente em pequenos altares de marfim, livros sagrados ilustrados e outros objetos.
Os povos vindos na primeira vaga de invasões eram nómadas, mas acabaram por aderir ao Cristianismo.
Os objetos de arte de pequenas dimensões são uma caraterística dos povos nómadas.
Alguns autores incluem os primeiros séculos da Arte Copta, do Egito cristão, na Arte Paleocristã.
No que diz respeito à arquitetura, já na fase em que a religião cristã se podia manifestar livremente, destacam-se os mausoléus de algumas santas e as basílicas dedicadas ao culto em geral.
Os mausoléus têm planta centralizada; as basílicas cristãs começaram por ser adaptações das romanas, originalmente de planta retangular dividida por naves.
Contudo, a pouco e pouco as plantas das basílicas vão-se aproximando da forma da cruz, acrescentando-se uma abside semicircular na área do altar-mor e dois espaço laterais.
Esta transformação leva a que, já nos períodos românico e gótico, as naves formem o corpo principal da cruz e surja o transepto, nave ou naves perpendiculares a essas.


3
ARTE PRÉ-ROMÂNICA

 Nos séculos imediatamente após a queda do Império Romano não existe na Europa um estilo dominante a nível internacional, mas tendências com variantes e especificidades de cada povo.
As tendências e mesclas da arte produzida por esses povos antecederam e influenciaram o estilo Românico, pelo que se pode designar esse período por Pré-românico.
Enquanto povos nómadas, a sua arte manifestou-se sobretudo em objetos facilmente transportáveis: peças de ourivesaria, decoração de armas, proteções de guerra, pequenos oratórios, imagens de santos, livros, etc.
Neste vasto período, os mosteiros tiveram uma importância fundamental na conservação e produção de conhecimento.

A Arte Hiberno-Saxónica
Designa-se por Arte Hiberno-saxónica a que se produziu nos sécs. VII e VIII na Ilhas Britânicas.
 Trata-se de uma arte ao serviço da religião cristã mas com influências celtas.
Dessa arte destacam-se as ilustrações de livros, ou iluminuras, trabalhos em metal e gravações em pedra, onde são feitas elaboradas e delicadas composições à base de formas geométricas, linhas e entrançados.

A Arte Anglo-saxónica
Designa-se por Arte Anglo-saxónica a que se produziu entre finais do séc. IX e finais do séc. XI.
Contudo, há quem recue alguns séculos, fazendo desta uma expressão mais abrangente, ao ponto de nela incluir a Arte Hiberno-saxónica.
Expressa-se essencialmente através de ilustrações de livros, objetos decorativos de ouro e de marfim e tapeçaria.

Arte Merovíngia
A dinastia merovíngia tem a sua origem nos francos sálios, povo que se estabeleceu na atual Bélgica e norte de França e posteriormente se expandiu para sul.
Perdurou de 481 a 754, nos territórios que correspondem hoje a uma grande parte da França, Países Baixos, Suíça e oeste da Alemanha.
A Arte Merovíngia revela-se sobretudo em adornos, ourivesaria, pequenos objetos utilitários e arquitetura.
Da arquitetura destacam-se pequenos batistérios ou o que deles resta, onde é utilizado o arco de volta perfeita.
Os capitéis das colunas são ricamente decorados.

Arte Carolíngia
O território do Império Carolíngio correspondente sensivelmente ao dos atuais Países Baixos, Alemanha, França, Suíca, Áustria, República Checa, e centro e norte de Itália.
Perdurou entre 768 e 843, e teve Carlos Magno, Luís I e Lotario I como monarcas.
A sua dissolução levou à criação do reino da França e do Sacro Império Romano-germânico.
A Arte Carolíngia faz como que uma mescla das tendências artísticas dos povos do Império Carolíngio com a absorção de elementos clássicos romanos.
Ilustrações e capas de livros, pequenos altares e peças de ourivesaria são bons exemplos da arte móvel carolíngia.
Na arquitetura há preferência pela planta centralizada, pela aplicação do arco de volta perfeita e por ambientes de pouca luz.
Os poucos exemplares foram em grande parte absorvidos ou modificados por edifícios dos períodos românico e gótico.
O mosaico seria uma técnica aplicada na decoração de alguns interiores.


Arte Otoniana
O território do Império Otoniano correspondente sensivelmente ao dos atuais Países Baixos, Alemanha, leste de França, Suíca, Áustria, República Checa e norte de Itália.
O Império Otoniano, que perdurou entre 919 e 1024, teve os seguintes reis: Henrique I, Otão I, Otão II, Otão III e Henrique II.
Estética e cronologicamente, a Arte Otoniana situa-se entre a Arte Carolíngia e a Românica, com influências da Arte Bizantina.
Das obras de arte móvel salientam-se as ilustrações de livros, cruzes votivas, pequenos altares, peças litúrgicas, objetos decorativos e ourivesaria.
Tal como na arquitetura carolíngia, também na otoniana há preferência pela planta centralizada, o arco de volta perfeita e ambientes de pouca luz.

Arte Visigótica
A origem dos godos está envolta em controvérsia. Originalmente seriam um povo germânico instalado na zona das Balcãs, um dos primeiros a invadir o Império Romano.
No seu avanço pelo sul da Europa, os godos dividiram-se em dois ramos: ostrogodos na Península Itálica; visigodos no sul de França e Península Ibérica.
Na sua maior extensão, o Reino dos Visigodos teve capital em Toulouse, mas após perderam grande parte do território além-Pirinéus, tornou-se Toledo a sua capital.
A Arte Visigótica perdurou entre a chegada dos visigodos a esta região, do início do séc. V, e a ocupação muçulmana da Península, em 711.
As ilustrações de livros apresentam composições pouco arrojadas e com poucas cores; figuração humana é simplificada, com representação essencialmente frontal.
A ourivesaria revela uma técnica bastante apurada, atingindo algumas peças elevados níveis de requinte, tanto em peças de caráter utilitário como votivo.
As igrejas têm pequenas dimensões mas aspeto robusto, com poucas e pequenas aberturas, o que proporciona interiores pouco iluminados.
As plantas variam entre o formato retangular e o cruciforme.
É utilizado o arco em ferradura.
A decoração centra-se nos capitéis e em frisos ricamente esculpidos com baixos-relevos, com motivos geométricos e figurativos simplificados.


Pré-românico Asturiano
Numa faixa de território no norte da Península Ibérica, protegida pelos Montes Cantábricos, que corresponde sensivelmente aos atuais territórios das Astúrias e da Cantábria, existiu o Reino das Astúrias.
Formou-se após a capitulação do Reino Visigodo e foi o único território da Península nunca ocupada pelos muçulmanos.
Na arquitetura, o sub-estilo Pré-românico Asturiano é o que mais se aproxima do estilo Românico, parecendo anunciar esse importante período artístico.
Desenvolveu-se entre finais do séc. VIII a começos do séc. X, a partir de influências lombardas e carolíngias, com alguma influência visigótica.
De entre as igrejas asturianas, por norma austeras e pouco iluminadas, destacam-se algumas com uma elegância surpreendente, iluminadas por janelas maiores e tendendo para uma certa verticalidade.
O arco mais utilizado é o de volta perfeita, surgindo por vezes na variante de peraltado, sendo que o de ferradura também aparece.
Quando existem, os relevos concentram-se sobretudo em capitéis, colunas e arcadas.
Da ourivesaria destacam-se as cruzes votivas que eram propriedade de reis, sendo uma delas o símbolo das Astúrias.
Das iluminuras há que referir as do “Comentário ao Apocalipse”, obra dum monge do séc. VIII, de que se conhecem ilustrações feitas por beatos do séc. X.



4
A ARTE MUÇULMANA

 Num curto período de tempo, entre 711 e 718, deu-se a conquista muçulmana da Península Ibérica, passando esta a ser uma província do Califado Omíada, com capital em Damasco.
Contudo, após um conturbado período de sucessão no seio do califado, forma-se na Península, em 756, o independente Emirado de Córdova, com capital nessa cidade.
Dado o forte domínio muçulmano instalado neste relevante território, o mesmo passou a Califado de Córdova, em 929.
Mas, em 1009, um golpe de estado deu início a um período de sangrentos conflitos, com deposições dos sucessivos califas.
No decorrer de tais conflitos, o califado acabou por ser abolido, em 1031, ficando o território dividido em vários reinos, as Taifas, que duraram até ao séc. XIII, chegando a ser trinta e nove.
Contudo, eram também frequentes as lutas de poder entre taifas e no interior das mesmas, a que não são alheias as questões familiares e étnicas, já que os muçulmanos ibéricos eram de diferentes origens: árabes, berberes, sírios, etc.
Em 1056, as taifas foram assimiladas pelo Califado Almorávida, composto pelos atuais Marrocos, Saara Ocidental e Mauritânia.
Voltaram a formar-se e de novo foram assimiladas, em 1147, desta vez pelo Califado Almóada, estendendo-se por territórios dos atuais Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia.
 Fruto das conquistas cristãs, o Al-Andalus (designação dada pelos historiadores árabes ao território muçulmano da Península) acabou por ficar reduzido a uma pequena área geográfica situada a sul, na atual Andaluzia.
Em 1238, aí se formou o Reino Nazarí de Granada, com capital nessa cidade, que perdurou até 1492, ano em que Castela conquistou esse último reduto muçulmano na Península Ibérica.
Durou quase oito séculos o domínio dos muçulmanos no sul da Península.
A sua arte é estudada em função dos diferentes períodos históricos: Califados, Emirado, Taifas, Almorávida, Almóada e Nazarí.
A arquitetura é a grande arte do mundo muçulmano, para ela convergindo as artes aplicadas e decorativas, como a azulejaria, a cerâmica, o estuque, a tapeçaria, etc.
A representação figurativa é proibida em contexto religioso, surgindo em peças cerâmicas e na ilustração de livros que versem outras temáticas.
Algumas caraterísticas da arquitetura são transversais a épocas, regiões e gostos:
 - Utilização de arcos em ferradura (simples, apontado e peraltado), polilobados e entrecruzados;
 - Decoração com motivos essencialmente geométricos, em azulejo e estuque, em torno de portas, janelas, arcadas, cúpulas e mirabe (ou mihrab).
Pelas suas dimensões, beleza ou estado de conservação, destacam-se as seguintes construções:
 - Grande Mesquita, em Córdova: dos períodos do Emirado e do Califado, que foi até ao século XVI a 2.ª maior mesquita do mundo, e a 3.ª até finais do séc. XX; começou a ser construída em 786, no local onde existia uma basílica visigótica; teve uma ampliação em meados do séc. IX e duas no séc. X; no 2.º quartel do séc. XIII, após a reconquista, foi construída no seu interior a Capela-Mor (atual Capela de Villaviciosa), em estilo romano-gótico; um século depois foi construída a Capela Real, em estilo mudéjar; no final do séc. XV e ao longo do séc. XVI foi aberta uma grande nave no seu interior e construída uma catedral em estilo renascentista / maneirista, com detalhes que anunciam o estilo barroco.
 - Aljafería, em Saragoça: palácio real fortificado, construído na 2.ª metade do séc. XI, durante um período Taifa; trata-se de uma construção de recreio, então chamado “Palácio da Alegria”; no interior duma cintura de muralhas, tem aposentos, espaços de lazer e uma pequena mesquita; em finais do séc. XV, os Reis Católicos mandaram construir nele um palácio, em estilo mudéjar, que foi acrescentado num 2.º piso; teve importantes obras de restauro no séc. XIX; nela nasceu a infanta Isabel de Aragão, futura rainha Santa Isabel, de Portugal.
 - Giralda de Sevilha: torre-campanário da Catedral de Sevilha, originalmente era o minarete da mesquita que existia no mesmo local; foi construída em finais do séc. XII; o seu último terço foi acrescentado após a reconquista, em estilo renascentista; tem 95 metros de altura.
 - Torre do Ouro, em Sevilha: era a torre-albarrã das muralhas defensivas da cidade, no período Almóada; o seu corpo principal, dodecagonal, foi construído em 1220-21; após a reconquista, no séc. XIV, foi-lhe acrescentado um segundo corpo, em estilo gótico; por fim foi-lhe acrescentado um corpo cilíndrico com cúpula, em 1760, cinco anos após o grande terramoto.
 - Reais Alcazares, em Sevilha: conjunto fortificado de palácios, pátios e jardins, que começou a ser construído em 713; o primeiro dos seus palácios serviu de residência de líderes muçulmanos, a partir de 720; posteriormente, ao núcleo inicial foram acrescentados outros palácios e residências; após a reconquista cristã, o conjunto sofreu alterações, ficando também com exemplos de arte mudéjar, gótica, renascentista e barroca; atualmente, além de ser um agradável espaço de lazer aberto ao público, constitui uma das residências da família real e nele ficam hospedados convidados ilustres.
 - Alcazaba de Badajoz: grandioso conjunto de muralhas em torno da antiga cidadela, ou alcáçova, do período Almóada; começou a ser construída no séc. IX mas a sua configuração definitiva é do séc. XII; nela residiram os monarcas da Taifa de Badajoz; com cerca de 400 x 200m, é a maior alcáçova da Europa.
 - Alhambra, em Granada: cidadela e palácios do período Nazarí: cidadela fortificada, com palácios, pátios e jardins do período Nazarí; construída entre meados do séc. XIII e meados do séc. XIV; servia de residência do monarca do Reino de Granada; era também local de refúgio de artistas e intelectuais; após a reconquista cristã sofreu algumas alterações, mas grande parte do património muçulmano foi preservado; a sua beleza está sobretudo na relação entre os interiores e exteriores, e nas sumptuosas decorações de estuque; os espaços jardinados são intervenções mais recentes.
 - Generalife, em Granada: palácio vizinho da Alhambra, construído entre 1302 e 1324, no período Nazarí, como residência de verão; a localização e a simplicidade das suas formas conferem-lhe uma elegância muito peculiar; é também rico em estuques decorativos; os jardins atuais são dos sécs. XIX e XX.
 Para estudos mais específicos ou aprofundados, convém saber que a Arte Muçulmana da Península (e suas derivações) não é, contudo, tão estanque como possa aparentar. Vejamos as designações que se seguem.
- Arte Muçulmana (ou Islâmica): Produzida pelos povos praticantes dessa religião; é também o termo que utilizamos para a arte por eles produzida na Península Ibérica.
- Arte Hispano-árabe (Hispano-muçulmana ou Mourisca): Produzida pelos árabes e outros muçulmanos em território espanhol ou ibérico.
 - Arte Árabe: Produzida pelo povo árabe e outros sob sua influência direta.
 - Arte Moçárabe: Produzida pelos cristãos em território ibérico dominado pelos muçulmanos, com influência formal e estética muçulmana.
 - Arte Mudéjar: Produzida pelos cristãos após a reconquista, também com influência formal e estética muçulmana.
 - Arte Neo-árabe: Revivalismo artístico de finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, integrado na fase final do Romantismo, com influência formal e estética muçulmana.



5
 A ARTE BIZANTINA

Na fase final do Império Romano, Roma foi perdendo destaque como capital.
Ao invés, Bizâncio (que chegou a ter o nome de Nova Roma) engrandeceu o seu poderio e conseguiu resistir às vagas de invasões que fizeram tombar a metade ocidental do império, no ano 476.
No ano 313, Constantino autorizou que o cristianismo fosse praticado livremente, tendo ordenado a construção das basílicas de São Pedro, em Roma, do Santo Sepulcro, em Jerusalém, e da Natividade, em Belém.
Em 392, Teodósio I tornou o cristianismo a religião oficial do Império, e combateu todo o tipo de paganismos.
A partir de 330, Bizâncio passaria a designar-se Constantinopla, contudo, o império manteve a designação de Império Bizantino.
 Sobretudo através de Justiniano houve conquista de territórios a ocidente; mas o império sofreu diversas perdas sob a pressão dos muçulmanos, que avançaram de leste, e de povos que avançavam do norte.
Em 1453, data que marca o fim da Idade Média, Constantinopla foi tomada pelos muçulmanos, passando a ser a capital do Império Otomano, sob a designação de Istambul.
Entretanto, O Grande Cisma, ocorrido em 1054, havia levado à criação da Igreja Ortodoxa, separando-se da Igreja Católica.
A partir dessa data, a Arte Bizantina tornou-se representante do cristianismo ortodoxo.
A Arte Bizantina é herdeira dum passado rico, que vai juntar às heranças greco-romanas elementos estilísticos do Egito e da Pérsia.
Nela, a técnica do mosaico atinge o seu mais alto esplendor, com painéis cobrindo paredes, tetos, abóbadas e arcadas, com coloridos intensos e composições surpreendentes.
A representação da figura humana não é realista mas algo estilizada, obedecendo a rigorosos cânones.
Por norma, surge estática e frontal, em poses algo rígidas e austeras.
As bocas são pequenas, os narizes longos e os olhos grandes, com olhar fixo.
As pregas do vestuário são bem vincadas, apesar de os volumes serem, em geral, pouco acentuados.
Existem também excelentes exemplares de frescos, quer cobrindo paredes e abóbadas num contínuo, quer em pequenas composições ou representações de santos.
Formalmente, os frescos apresentam caraterísticas idênticas às dos mosaicos.
Na arte móvel destacam-se: os ícones, pinturas sobre madeira onde os temas mais comuns são os de Cristo Entronizado e da Virgem com o Menino; os relevos em marfim, quer em placas votivas, quer aplicados a caixas ou pequenos cofres.
Os frescos e os ícones bizantinos exerceram forte influência na pintura românica, assim como na fase inicial da pintura gótica.
Na arquitetura, construídas de raiz, destacam-se, pelas dimensões e complexidade formal, a grande basílica de Santa Sofia, em Constantinopla, e a catedral de São Marcos, em Veneza.
A primeira, de planta retangular, possui uma complexa estrutura de colunas, pilares, arcos e abóbadas; da segunda, em planta de cruz grega, destacam-se as diversas abóbadas semiesféricas.
As estruturas assentes em sistemas de arcos de volta perfeita e de cúpulas semiesféricas, entre outras, são como que uma imagem de marca da arquitetura bizantina, assim como os seus interiores cobertos por mosaico.




6
A ARTE ROMÂNICA
Apresentação

Muitos crentes receavam que acabasse o mundo no ano 1000.
Este fator contribuiu para que aumentasse o fervor religioso e se intensificassem as peregrinações aos locais sagrados mais importantes do mundo cristão.
A partir do séc. X surge na Europa um grande número de mosteiros, situados sobretudo nas rotas para Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela.
A construção de mosteiros a bom ritmo perdurou pelos séculos XI, XII e XIII.
Nesse período, as ordens religiosas já existentes ganharam influência e poder, e outras foram surgindo.
Com as suas regras e hábitos específicos, algumas desempenharam um papel relevante na sociedade e no preservação do conhecimento.
O feudalismo impõe-se como sistema de organização da sociedade, onde camponeses e artesãos são servos de um senhor nobre, proprietário do feudo.
Os servos, contudo, têm alguma proteção do seu senhor, por viverem nas suas terras.
Entre 1096 e 1272 houve uma dezena de Cruzadas.
Estas consistiram em guerras, invasões ou movimentações militares com vista a conquistar a Terra Santa para o domínio dos cristãos e a expulsar os muçulmanos do território europeu.
Nas Cruzadas participaram as ordens religiosas que eram simultaneamente ordens militares, com os seus monges cavaleiros: Ordem Cisterciense, Ordem dos Templários e Ordem de Malta (ou dos Cavaleiros Hospitalários
Neste cenário surge e instala-se o estilo Românico, que tem o seu apogeu entre 1050 e 1200.
É o primeiro estilo internacional da Idade Média, espalhando-se por grande parte da Europa e estando representado por diversas variantes regionais.
O estilo Românico recebeu esse nome por alguns historiadores antigos terem visto na arquitetura semelhanças com a romana, na utilização do arco de volta perfeita e das abóbadas que dele derivam.
Além da influência romana, a arte românica apresenta evidentes influências das artes pré-românica e bizantina; nuns casos mais ao nível da arquitetura, noutros mais da escultura, da pintura, da ilustração de livros ou da ourivesaria.
Neste período, os mosteiros são importantíssimos centros de cultura e de produção de arte, sendo os monges os detentores do saber.
Mas também os castelos e algumas residências feudais tiveram um papel importante na divulgação e produção artística.
No período românico há uma fecunda produção literária, poética e musical.
Surgem os trovadores, poetas líricos de cariz popular, cujos poemas eram musicados e cantados nas cortes e em festividades.
Uma parte muito significativa da arte românica tem a religião como tema e motivação.
A arte românica glorifica a religião cristã, mas também o poder dos reis e dos nobres.
No mundo românico tudo gira em torno da religião cristã.



7
ARTE ROMÂNICA
Arquitetura

Arquitetura religiosa
 Da arquitetura religiosa destacam-se os mosteiros e as igrejas.
Muitos dos mosteiros são estrategicamente construídos em locais de refúgio, algo isolados, na natureza, na presença de água e de terrenos férteis.
Os mosteiros são estruturas complexas, apetrechadas de espaços de trabalho, oração e descanso: igreja, sacristia, claustro, sala do capítulo, dormitório, cozinha, refeitório, adega, granja, celeiro, despensas, oficinas, estábulos, enfermaria.
Alguns mosteiros de França serviram de modelo a muitos outros que foram construídos pela Europa, nomeadamente os de Fleury-sur-Loire e Saint-German-des-Prés, e Cluny, entre outros.
Por norma, as igrejas e as catedrais românicas têm planta em cruz latina.
O corpo principal é composto por três ou cinco naves, por vezes muito longas.
O transepto pode ter uma ou três naves.
Estes espaços intersetam-se no cruzeiro, sobre o qual está a torre-lanterna, ou zimbório.
 Algumas igrejas de grandes dimensões têm dois transeptos.
Para lá do transepto situa-se a cabeceira, no centro da qual está a abside, onde se situa o altar-mor.
No prolongamento das naves laterais pode haver deambulatório, ou charola, que contorna a abside.
É frequente haver absidíoles, ou capelas, no transepto e no deambulatório.
As naves estão separadas por robustas pilastras, que são pilares cruciformes compostos por diversos colunelos adossados.
Os tetos das naves laterais são abóbadas de berço, ou de canhão; os das naves laterais são abóbadas de arestas.
O arco utilizado é o de volta perfeita, ou semicircular, e surge em diversos locais da igreja: entre pilastras (arcos formeiros), suportando abóbadas (arcos torais), em pórticos, portas, janelas, janelas cegas, seteiras, torres sineiras, tribunas, clerestórios e trifórios.
As tribunas são espaços de circulação sobre as naves laterais, dando para a nave central.
Sobre as naves laterais, eventualmente sobre as tribunas, pode também haver clerestórios, que são conjuntos de janelas; ou trifórios, que são estreitas galerias ou arcadas cegas dispostas em conjuntos de três.
Os claustros, de formato quadrado, são contornados por uma galeria de circulação que comunica com o pátio através de arcadas, apoiadas em finos colunelos, que se apresentam aos pares.
As igrejas românicas são pouco iluminadas, entrando a luz por janelas altas, pela rosácea (que nem sempre existe) e pela torre-lanterna, que ilumina a zona do altarmor através das janelas que nela existem.
Exteriormente, em igrejas de grandes dimensões, a fachada principal é muitas vezes composta por um pórtico encimado por um ou mais janelões ou por uma rosácea, sendo ladeada por duas robustas torres sineiras.
Existem outras tipologias de fachadas, sobretudo em igrejas de médias e pequenas dimensões.
 Em Itália é frequente haver apenas uma torre sineira, que pode estar afastada do corpo da igreja e ter formato cilíndrico.
No exterior, os contrafortes têm uma presença muito evidente, estando visivelmente destacados da parede.
Parecem pilares exteriores, mas na realidade são o prolongamento dos pilares para o exterior.
A sua função é suportar a enorme pressão exercida lateralmente pelas abóbadas.
Algumas igrejas românicas são igrejas-fortaleza.
Trata-se de construções especialmente robustas com o propósito de defender, encimadas por ameias e merlões, como sucede nas torres e muralhas dos castelos; possuem também seteiras, frestas utilizadas para o disparo de setas.
Nalguns casos existem três pórticos na fachada principal, comunicando os três com a nave central ou cada um com uma nave.
É também comum haver um ou dois pórticos nas fachadas laterais, por vezes nos topos do transepto.
Os pórticos são rematados por um conjunto de arquivoltas em torno do tímpano, e assentam lateralmente numa série de colunelos.
É comum nos pórticos mais largos haver uma coluna a meio, designada por mainel.

Arquitetura civil e militar
A arquitetura civil e militar românica tem um cariz marcadamente defensivo.
Parte das construções foi feita em madeira e colmo, acabando muitas delas por desaparecer por ação de incêndios e do tempo.
O que ficou foi a construção em pedra. As casas dos nobres eram, muitas das vezes, torres de planta quadrangular, nalguns casos circular, com três ou quatro pisos, com robustas paredes exteriores de pedra.
Paredes interiores e chãos eram de madeira.
O primeiro piso possuía loja ou oficina, o segundo era composto por uma grande sala, no último estavam os aposentos privados.
O acesso para o segundo piso era feito por uma escada de madeira, que se retirava por razões de defesa.
Os castelos são as construções fortificadas por excelência, por norma situados em pontos altos, protegidos pela própria geografia dos terrenos.
Possuíam uma ou duas muralhas com várias torres. No interior das muralhas existiam instalações militares ou aposentos de nobres.
As muralhas são rematadas por ameias e merlões, servindo para proteger quem está em ação de vigilância ou de ataque.
A torre de menagem é a mais central e de maiores dimensões.
Esses espaços protegidos deram guarida aos cavaleiros das cruzadas. Foi também neles que se desenvolveram a música e a literatura medievais, assim como a poesia trovadoresca.
As povoações medievais não possuem uma malha urbana geométrica nem regular.
São protegidas por uma muralha, que nuns casos se aproxima da forma retangular, noutros da circular.
A malha urbana é orgânica, adaptando-se à presença de poços e irregularidades do terreno (colinas, rochedos, etc.), assim como aos ventos dominantes e à incidência do Sol.
Das portas das muralhas partem as ruas principais, de onde derivam as secundárias e um emaranhado de ruelas e becos.
No centro da povoação situa-se a igreja principal, ou a catedral.
Ao longo das vias de comunicação, finalmente renovadas e criadas após a queda do Império Romano, são construídas pontes para se encurtarem distâncias.
Essas pontes possuem arcos de volta perfeita, assentes em robustos pilares.



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ARTE ROMÂNICA
Escultura

O relevo tem um destaque especial na escultura românica, apresentando influências algo remotas das esculturas grega e romana, acrescidas de contribuições germânicas, escandinavas e muçulmanas.
Essas influências, algo díspares e aparentemente incompatíveis, fizeram ressurgir por toda a Europa um tipo de escultura com uma grande coerência temática, formal e técnica, conduzindo a um estilo próprio.
A escultura de cariz decorativo e com pendor marcadamente religioso, vai ressurgir a partir de meados do séc. XII no sudoeste de França e no norte de Espanha, ligada à ação das ordens religiosas e ao espírito de peregrinação.
Num período de grande controlo por parte da Igreja, os relevos apresentam relatos de histórias sagradas e de cenas bíblicas, mas também de cenas da vida quotidiana, neste caso sobretudo relacionadas com o trabalho rural.
A escultura em relevo, essencialmente vinculada à arquitetura, tinha um papel pedagógico, já que apresentava narrativas bíblicas acessíveis a quem não sabia ler, que era a população em geral. Assim, os relevos, juntamente com os frescos, eram como que a Bíblia dos analfabetos.
Os relevos apresentam-se como “evangelhos de pedra”, muitas vezes talhados com alguma ingenuidade, mas também pejados de fantasia.
Mais do que ilustrar cenas bíblicas e o quotidiano, eles pretendem facilitar o diálogo entre os fiéis e o pensamento religioso.
Fora dos universos paleocristão e bizantino, com as suas igrejas cobertas de mosaicos (nalguns casos também de frescos), a decoração arquitetónica do período préromânico foi muito austera, cingindo-se a pouco mais do que à decoração de capitéis.
Embora as igrejas românicas sejam sóbrias em termos de decoração, os relevos, originalmente pintados, podem surgir em diversos locais: capitéis, fustes de colunas e de colunelos, arcadas e arquivoltas, tímpanos, cornijas, mísulas, cachorradas, frisos, rosáceas e pias batismais.
O capitel românico é redondo em baixo, onde se apoia no fuste, e quadrado em cima. Adaptados a essa forma, os capitéis contêm composições vegetalistas, animalistas e geométricas, assim como cenas bíblicas, alegorias e detalhes do quotidiano.
O portal, no seu todo, simboliza o acesso à casa de Deus, à proteção divina.
O tímpano é muitas vezes um elemento ricamente decorado, sendo comum a representação de Cristo entronizado, envolto pela mandorla, ou amêndoa mística.
É curioso observar que, apesar de os relevos estarem subordinados aos elementos arquitetónicos já referidos, existem engenhosos processos para o seu enquadramento.
Em tímpanos, frisos e até nos capitéis conseguem-se elaboradas composições, inclusive com narrativas.
As formas e as figuras eram muitas vezes inspirados ou copiados das ilustrações de livros, de padrões de tecidos orientais, de marfins bizantinos e de referências dos vários povos bárbaros que invadiram a Europa nos séculos anteriores.
As temáticas religiosas mais frequentes são retiradas do “Apocalipse” e do “Juízo Final”.
A representação de Cristo surge essencialmente em majestade, junto dos quatro apóstolos ou dos seus símbolos.
Também é frequente a representação do Agnus Dei.
O medo do fim do mundo e dos poderes demoníacos foi também muito explorado, sobretudo com base em lendas, mitologia pagã e imaginário popular.
Daí surgiram autênticos bestiários que incluíam figuras híbridas e grotescas, algumas em posições obscenas.
Figuras humanas e outras são comummente representadas dum modo hierático, em poses frontais e rígidas, sendo frequentes as desproporções entre os diferentes elementos, assim como as incorreções anatómicas.
Após a queda do Império Romano, com a vinda dos povos invasores criou-se uma espiritualidade que recusava a estatuária de vulto completo.
Só a partir do séc. X, a estatuária foi ressurgindo, a partir do sul de França. Contudo, esteve longe de ter a importância do relevo.
Da estatuária românica destacam-se imagens da Virgem, entronizada ou com o Menino, por norma de cariz popular e adoradas sobretudo no meio rural.
Também em poses rígidas e com incorreções anatómicas, são feitas em metal, pedra, madeira e gesso, sempre pintadas.
A partir de meados do séc. XII, no sul de França e na Itália, as figuras libertam-se dos cânones rígidos e adquirem um toque clássico, sendo mais naturalistas e apresentando algum movimento.
Na transição para o período gótico, as imagens começam a evidenciar sentimentos humanos.
Cristo no calvário ou na cruz revela drama e sofrimento; a Virgem mostrase dorida.
Importa referir que a escultura românica de vulto completo é concebida para ser vista de frente, sendo que o lado de trás das figuras não apresenta qualquer motivo de interesse.
Nos túmulos românicos junta-se o relevo e a estatuária; o primeiro nas paredes da urna, a segunda na tampa, com a representação da figura jazente.
Num caso e noutro observam-se as caraterísticas formais e técnicas já referidas.
Das artes do metal destacam-se pequenas peças feitas em bronze fundido, e outras em metais preciosos, algumas contendo esmaltes ou gemas.
Existem também os cofres-relicário, com estrutura em madeira coberta por placas de ouro e prata com pedras preciosas.
A escultura em marfim, tradição vinda dos séculos anteriores, e de diferentes povos, tem também alguma relevância, sobretudo em crucifixos.

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ROMÂNICO
Pintura

 Embora a pintura tenha tido uma grande importância no período românico, não chegaram aos nossos dias tantas obras como no caso da escultura, fruto da ação humana, do tempo e de alguns incidentes.
A pintura românica apresenta-se sobretudo em duas modalidades: o fresco, na decoração de espaços arquitetónicos interiores, principalmente igrejas; a iluminura, na ilustração de livros.
Em ambas, a temática dominante é a religiosa.
Apesar das variantes estéticas e formais, no essencial vamos encontrar na pintura caraterísticas idênticas às da escultura, sendo nela evidentes as influências bizantina, carolíngia e otoniana.
Embora pelos modos de fazer seja possível identificar algumas escolas ou oficinas regionais ou locais, raramente se conhecem os nomes dos autores dessas obras, tal como sucede com a escultura.
Aliás, sabe-se que muitas das obras eram de execução coletiva.
Muitos dos pintores e escultores eram artesãos e monges que se especializaram numa ou noutra área, devido a um jeito especial ou a uma dedicação persistente.
A aprendizagem não era formal, feita em escolas especializadas, mas adquiria-se na prática, sobretudo copiando.
No caso da iluminura, sabe-se que a aprendizagem era feita nas oficinas conventuais, entre os monges copistas.
No caso do fresco, era feita na prática da decoração das igrejas, quando os edifícios eram dados por concluídos.
No fresco, pouco ou nenhum espaço de liberdade era deixado aos pintores, já que tanto os temas como as composições eram definidas pelo patrono ou encomendador da obra.
Os pintores eram pouco mais do que executantes de um plano estabelecido.
Muita da pintura românica conta histórias do Velho e do Novo Testamento, destacando-se cenas apocalípticas, passagens da vida de Cristo e de santos.
As principais caraterísticas da pintura românica são:
 - Uma forte presença do desenho, destacando-se a linha como elemento estruturante;
 - Falta de rigor anatómico, sendo frequentes os corpos em posições algo desarticuladas;
 - Tendência para a estilização e geometrização; utilização quase exclusiva de cores planas;
 - Cenários inexistentes, abstratos ou simbólicos;
 - Composições ora algo desordenadas, ora assentes em esquemas repetitivos.
Comparativamente com os relevos, existe na pintura uma maior dinâmica e algum sentido de ritmo.
 Contuso, também a pintura assume um poder simbólico, sobrenatural e doutrinário.
 A nudez e a sobriedade que hoje existe em muitas igrejas românicas era uma caraterística apenas das igrejas cistercienses.
Nas restantes predominava uma extensa policromia que revestia paredes, abóbadas, pilastras e relevos, numa ambiência de encantamento e transcendência
Menos frequentes mas igualmente significativos foram os retábulos pintados sobre madeira, usados principalmente na decoração de altares.
Esses retábulos foram comuns na Catalunha.
Também chegaram aos nossos dias alguns tetos de madeira pintados com cenas ou figuras religiosas.
Na Itália, devido à tradição romana e bizantina, continua a ser frequente a decoração das igrejas com riquíssimos painéis de mosaicos, que tanto podem cobrir abóbadas como paredes, o chão ou arcadas.
No início da Idade Média enraizou-se o hábito de copiar manuscritos, nos scriptoriae das catedrais e dos mosteiros.
Tal hábito deu origem a uma tradição que se manteve até ao advento da imprensa.
Copiavam-se bíblias, manuais litúrgicos, crónicas históricas, tratados filosóficos, etc.
Tais livros eram produtos raros e preciosos, destinados a consumo interno ou a uma reduzida clientela de eruditos que os valorizavam.
E mais preciosos se tornavam se ricamente ilustrados com imagens fantasiosas e cheias de cor: as iluminuras.
Oscilando entre a figuração e os ornamentos estilizados e geométricos, essas ilustrações tanto podiam ocupar uma página inteira, como partilhá-la com a escrita, ou reduzirem-se à decoração das iniciais de cada capítulo ou parágrafo.
Se bem que algumas iluminuras apresentem desenhos e composições algo primárias, outras revelam uma enorme destreza técnica e uma grande criatividade, levando a supor que provavelmente haveria monges que se dedicavam em exclusividade a essa tarefa.
Executadas em ambiente pacato e intimista, em geral as iluminuras apresentam um imaginário e uma diversidade estética superiores às que se encontram nos frescos e nos relevos, sendo provável que os seus motivos tivessem servido de referência a estas técnicas.
Consoante as regiões, as iluminuras revelam influências específicas: na Alemanha, do período carolíngio; nas Ilhas Britânicas, dos anglo-saxões e irlandeses; na Itália, da estética bizantina; em Espanha, da arte muçulmana

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 A ARTE GÓTICA
 Apresentação

 A arte gótica surgiu na Íle-de-France, região em torno de Paris, a partir de meados do séc. XII, tendo perdurando até finais do séc. XV em França e na Península Ibérica, até mais tarde nos países mais a norte.
 O Gótico é o último estilo da Idade Média, tendo surgido na sequência do desenvolvimento e da estabilidade que decorreram durante o período românico.
É referido por alguns como a bela Idade Média. Este foi um período de grande desenvolvimento económico, ligado à atividade comercial, mercantil e agrícola.
A multiplicação das feiras foi um dos fatores que permitiram a instalação de uma economia monetária.
Uma nova dinâmica produtiva, sobretudo em Itália e na Flandres, associada ao comércio marítimo, levou à desagregação do sistema feudal-senhorial e ao início de uma nova era.
Deu-se um crescimento e enriquecimento das cidades, onde se instalavam os centros de negócios. E um movimento comunal surgido a partir daí levou a uma emancipação administrativa das cidades.
Perante uma série de condições favoráveis, bispos e reis incrementaram a construção de grandes catedrais um pouco por toda a Europa, como forma de marcar a sua religiosidade e de exibir o seu poder
As mudanças sociais mais relevantes tiveram a ver com o aparecimento da burguesia, classe impulsionadora e dinamizadora da atividade económico-financeira.
Burgueses, mercadores e artesãos formaram guildas e corporações, que garantiam o sucesso e a prosperidade da sua atividade.
Estas organizações profissionais eram reconhecidas pelos reis e tinham estatutos jurídicos próprios.
Além dos burgueses, os nobres e os eclesiásticos tornaram-se também apreciadores de um estilo de vida mais pacífico, urbano e cortesão.
Surgiu o gosto pelos romances de cavalaria, livros de linhagens e sagas, assim como o mercantilismo artístico, e mecenas das artes e das letras.
Empenhados numa centralização político-administrativa, os monarcas afirmarem os seus reinos como estados.
Contudo, tais mudanças passaram por crises, rivalidades, contrariedades e conflitos, como a Peste Negra (1343-1353) e a Guerra dos Cem Anos (1337-1453).
A partir do séc. XII surgem universidades por toda a Europa.
Nelas se estudam os filósofos racionalistas gregos e os místicos e naturalistas medievais, procurando a união entre a razão e a fé.
São Tomás de Aquino escreveu O domínio da Teologia é a inteligência (conhecimento) das coisas de Deus, que se pode ter pelo bom uso das inteligíveis (coisas do mundo físico).
Esta postura humaniza a religião e propõe a observação da natureza.
“A arte gótica, fruto de uma notável evolução nos saberes e nas técnicas, foi a melhor expressão material da religiosidade e da mística do final da Idade Média, uma ponte de ligação entre a luz da razão natural e da revelação divina; entre os homens, na Terra, e Deus, nos Céus.”



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A ARTE GÓTICA
Arquitetura

 Em grande medida, a arquitetura gótica vai continuar os aperfeiçoamentos havidos com a arquitetura românica, já que as plantas, as fachadas e as estruturas são basicamente as mesmas ou muito parecidas.
Muitos são os edifícios que, por terem sido construídos no período de transição ou por não apresentarem diferenças significativas, são designados por romano-góticos.
Contudo, à medida que os edifícios reduzem as áreas de parede e aumentam as de janela, ou se dá uma predominância de linhas verticais em relação às horizontais, ou os espaços ganham altura e se enchem de luz e de cor (através dos vitrais), estamos perante algo extremamente inovador e surpreendente.
Além disso, a evolução da arquitetura gótica vai revelar uma curiosa particularidade: afasta-se notoriamente das influências greco-romanas e bizantinas, presentes no românico e antes dele.
No entanto, antes dessa evolução, a arquitetura gótica havia surgido com uma inovação técnica que passou a constituir um dos seus principais distintivos: o arco em ogiva (também designado por ogival, quebrado ou apontado).
Tal arco foi utilizado pontualmente a partir de 1100, no contexto do românico cisterciense da Borgonha, em França. Surgiu da necessidade de elevar os quatro arcos dum tramo retangular à mesma altura
Mais tarde, quando generalizada a sua aplicação, o arco em ogiva permite dinâmicas espaciais e estéticas nunca antes vistas, dada a diversidade formal que surge nas novas aberturas e abóbadas.
Antes, do cruzamento de dois tramos circulares surgia a abóbada de arestas, com quatro panos que pouco destaque tinham num teto.
Agora, do cruzamento de tramos ogivais surge a abóbada de cruzaria (ou cruzata de ogivas), cujos oito panos, muitas vezes rematados por nervuras, marcam uma forte presença.
Com o passar do tempo, as tetos enchem-se de nervuras, com uma função simultaneamente estrutural e decorativa.
São as abóbadas de terceletes, com as variantes reticulada, estrelada, em leque ou com pingentes, consoante as formas que as nervuras apresentam.
Os novos arcos e abóbadas dirigem a pressão de forma mais eficaz para as pilastras e os contrafortes.
 Este aspeto vai permitir que se construam espaços mais amplos e, sobretudo, mais altos.
No entanto, com abóbadas construídas em níveis mais altos e com menos volume de parede, para sustentar a pressão exercida para o exterior, surge um novo contraforte, formado por botaréus e arcobotantes.
Botaréus são contrafortes destacados das paredes, mas a estas adossados parcialmente.
 Arcobotantes são como que meios-arcos que transferem a pressão das abóbadas para os botaréus.
Existem botaréus sem arcobotantes, mas outros há com um ou dois níveis de arcobotantes.
Contudo, em enormes catedrais, chega a haver uma segunda fila de botaréus e arcobotantes que reforça a primeira, num elaborado conjunto de muletas de apoio.
Construir um esqueleto tão complexo só foi possível com técnicas que envolviam sofisticados sistemas de guindastes e roldanas.
Isso, juntamente com dinheiro, rigorosas logísticas e planificações, foram a chave do sucesso destas construções.

Arquitetura religiosa
Entre os edifícios da arquitetura religiosa gótica destacam-se as catedrais, igrejas da sede de uma diocese.
Estas ostentam orgulho, pela capacidade que as suas formas e dimensões têm de se afirmar e surpreender.
O orgulho era de todos: dos mais pobres, por nelas trabalharem; dos mais ricos, porque para elas contribuíam com donativos; dos religiosos, por verem as casas de Deus plenas de espiritualidade; do rei, por ver o seu reino engrandecido com estes edifícios.
As catedrais eram erguidas nos centros urbanos, sendo que as suas dimensões se sobrepunham às das restantes construções.
Em torno desse centro religioso posicionavam-se os edifícios de cariz político e económico que, no seu conjunto, eram responsáveis pela dinâmica social da cidade.
A ideia inicial, ou projeto genérico, partia do bispo ou do rei, que logo se fazia rodear de experientes mestres-pedreiros, que eram simultaneamente arquitetos e engenheiros da obra.
De tal modo esses mestres-pedreiros foram relevantes, que os nomes de muitos deles ficaram para a história.
Esse aspeto mostra o reconhecimento do mérito que, gradualmente, se começa a dar a indivíduos exteriores ao clero e à nobreza.
A construção de uma catedral gótica obedecia a rigorosos cálculos matemáticos e geométricos, passados de forma exemplar para a pedra, sendo que tal trabalho só era possível por indivíduos cultos e muito bem preparados.
Tal como sucede com as grandes igrejas românicas, as catedrais góticas apresentam uma planta basilical em cruz latina, com a entrada virada para poente e a cabeceira para nascente.
Formada por três ou cinco naves, apresenta um transepto normalmente pouco extenso.
Por norma, a abside é longa, dando continuidade às naves, podendo apresentar duplo deambulatório.
As pilastras tornaram-se mais finas e mais altas, dando a ideia de continuidade entre as naves.
A proporção entre a largura e a altura destas foi-se acentuando em favor da altura, o que acentuou a verticalidade dos espaços.
Também a altura da nave central se tornou bem maior do que a das laterais, de modo a permitir a abertura de janelas mais altas. Os interiores ganharam espaço e luz, mas também cor, através dos vitrais.
No exterior, é evidente a presença das muitas e grandes janelas e enormes rosáceas, na fachada principal e nos topos do transepto.
Mais evidente é a presença de torres sineiras pontiagudas, assim como dos botaréus e arcobotantes.
Entre as muitas linhas verticais e as formas ascendentes, outras particularidades se encontram, como os remates com pináculos, sobre os contrafortes ou nos cantos das torres sineiras, e as gárgulas esculpidas com animais fantásticos.
As caraterísticas atrás descritas são mais notórias em França, onde o gótico nasceu, sendo estas as que mais influenciaram a Península Ibérica.
Contudo, algumas curiosas caraterísticas surgem noutras paragens.
Em Inglaterra (onde o gótico se prolonga até ao séc. XIX) surge no séc. XIV o chamado estilo perpendicular, dado o equilíbrio entre linhas verticais e horizontais.
As catedrais têm plantas mais alongadas, cabeceiras quadradas, por vezes um duplo transepto.
Esse é o formato da cruz de Lorena.
Na Alemanha o estilo gótico impôs-se tardiamente mas apresenta algumas novidades.
Uma delas, surgida também no séc. XIV, consiste nas hallenkierchen, ou igrejas-salão, que possuem naves da mesma altura e colunas esguias em vez de pilastras; outra novidade é a fachada de torre única
Em Itália o gótico também chegou tarde, e em geral também não apresentando tendência para a verticalidade nem espaços muito iluminados.
O estilo não se prolongou por muito tempo já que o Renascimento, surgido no princípio do séc. XIV, se impõe. Outras construções, como igrejas de menores dimensões ou abadias conventuais, também não apresentam uma acentuada verticalidade.
Mais sóbrias, não mostram diferenças tão significativas em relação às suas congéneres românicas.
Tendo novamente a França como referência, a evolução da arquitetura gótica deu-se de forma progressiva ao longo da sua duração de três séculos.
No início mal se diferenciando da românica, depois ganhando notórias caraterísticas próprias.
O gótico primitivo era despido de decoração, expressando-se apenas pelos seus arcos e abóbadas ogivais.
Numa segunda fase, designada por gótico lanceolado, surgem aberturas tri, tetra e polilobadas como decoração em janelas e rosáceas.
Um período intermédio chama-se gótico radiante, pelas formas que lembram raios de roda, presentes em rosáceas e janelas.
O último período designa-se por gótico flamejante, por apresentar elementos decorativos com formas semelhantes a chamas.
Arquitetura civil e militar No séc. XIII, nobres e aristocratas habitam em castelos senhoriais em espaços rurais.
São fortalezas de planta irregular que se adaptam aos desníveis do terreno e possuem torres redondas, rematadas por telhados cónicos.
Têm amplas salas abobadadas, onde se comia e convivia, assim como aposentos recatados para se dormir.
Tinham também dependências próprias para o castelão e sua família, assim como para a criadagem.
Por fora, as aberturas são poucas e pequenas.
A maior parte das aberturas, assim como balcões, dão para um pátio interior.
Neste conjunto existe uma área destinada a jardim, pomar e horta, o que aligeira o ar algo austero da construção.
Devido ao crescimento e prosperidade das cidades, a partir do séc. XIV os nobres vão preferir habitar nelas, onde se instalara já a bem sucedida burguesia mercantil em palácios urbanos.
Tais palácios, de dois ou três pisos, são como casas-fortes, mas menos austeros do que as fortalezas de meio rural.
E à medida que se instala uma sociedade mais cortês e pacífica, ganham requinte, elegância e conforto.
De planta retangular, estes palácios contornam um pátio interior semelhante aos claustros duma catedral ou abadia, o que constituiu um espaço de lazer e convívio, agradável em qualquer altura do ano.
Outras construções apalaçadas, e por norma de maiores dimensões, são dignas de referência, como as casas comunais e as casas das corporações ou ofícios.
Nas primeiras, com altas torres de vigia, funcionam as administrações das cidades; as segundas (raras na atualidade) são sedes de gestão e espaços de negócios.
Os maiores palácios, e também mais requintados e elegantes deste período, situamse nas cidades flamengas e italianas que mais prosperaram com o comércio, como Bruges, Ypres, Veneza e Florença.
Das construções militares destaca-se o castelo-fortaleza, que devido à sua função de defesa, poucas diferenças tem dos românicos, além dos arcos ogivais e respetivas abóbadas, e da presença de ameias e merlões.


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A ARTE GÓTICA
Escultura

No final do período românico, a escultura já se havia afirmado em convivência com a arquitetura, por norma colocada em espaços a ela reservada.
 Contudo, no período gótico, a escultura surge justaposta à arquitetura, ganhando outra proeminência.
 Neste período, a escultura continua a cumprir o seu papel pedagógico, como Bíblia de pedra, com a representação de santos e de cenas do Antigo e do Novo Testamento.
 A escultura, antes tosca e pejada de falhas anatómicas, ganha realismo formal e enriquece o seu lado espiritual. Da anatomia às roupagens e objetos, tudo passa a ser tratado ao pormenor, com mais sensibilidade e delicadeza.
As poses e os gestos ganham alguma dinâmica. As expressões do rosto humanizam-se e frequentemente apresentam leves sorrisos e revelam ternura.
 As figuras, antes tantas vezes de aspeto castigador, dão lugar a outras com papel evangelizador.
 À medida que o tempo passa, o realismo, o idealismo e até uma certa teatralidade, que advém das peças de teatro religiosas, refletem uma mudança de pensamento que anuncia o Renascimento.
 A condizer com esse espírito está o facto de se conhecer os nomes de alguns artistas, e de as suas obras terem caraterísticas de tal modo próprias que se tornam reconhecíveis.
 Algumas regras básicas se podem observar nas representações escultóricas: anjos e apóstolos estão sempre descalços, outras figuras não; a presença da auréola simboliza santidade; uma torre com uma porta designa uma cidade, se sobre esta estiver um anjo refere-se a Jerusalém.
 Nas igrejas, a maior incidência de escultura continua a ser nos pórticos.
Contudo, surge em vários outros locais: balaustradas, nichos, gabletes, janelas, rosáceas, medalhões, mísulas, pináculos, flechas, arcobotantes, gárgulas e quimeras.
 Situadas sobretudo em catedrais, representando animais grotescos ou fantásticos e de aspeto assustador, as gárgulas e as quimeras são uma novidade do estilo gótico.
Pelas primeiras é expelida a água dos telhados; as segundas servem para vigiar os demónios à distância, impedindo a sua aproximação.
 Enquanto no exterior a escultura vai ganhando cada vez mais destaque, a sua presença no interior é discreta, resumindo-se a capitéis, púlpitos, consolas, medalhões e rosetas (os dois últimos situados no cruzamento das nervuras das abóbadas).
 Em França e em Espanha a escultura tende para uma certa monumentalidade, sendo comum espalhar-se por grande parte da fachada principal.
 Na Alemanha é particularmente expressiva, dramática e teatral. Na Inglaterra destacam-se os efeitos decorativos geométricos trabalhados em intrincadas abóbadas.
 Devido às influências greco-romana e bizantina, na Itália preserva-se um espírito clássico na escultura gótica. Esse mesmo espírito faz sobressair nomes sonantes, como Nicola Pisano, Giovanni Pisano, Andrea Pisano e Jacopo della Quercia.
A partir do séc. XIV, a escultura de vulto redondo torna-se mais abundante, sobretudo em imagens de devoção separadas dum contexto arquitetónico.
 Colocadas em igrejas, capelas e casas particulares, serviam o culto individual e a oração privada.
Trata-se de imagens da Virgem, de santos, pietás e crucifixos de dimensões variadas, feitas em madeira, marfim, bronze ou pedra, muitas vezes impregnadas de realismo e contagiante emoção.
 Era comum o enterro de nobres e eclesiásticos ser feito no interior das igrejas.
 Mas a partir de 1200 tornou-se frequente fazer túmulos com estátua jacente, sobretudo quando se tratava de reis, príncipes, nobres e elementos do clero.
 De início, essas estátuas evocam o falecido sem rigor nos traços físicos.
 A partir de meados do séc. XIII, esses traços tornam-se realistas e até idealizados. E a partir de meados do séc. XIV muitas dessas estátuas passam a ser feitas em vida.

ARTE MEDIEVAL 1 APRESENTAÇÃO



UNISETI Universidade Sénior de Setúbal



 ARTE MEDIEVAL


1
APRESENTAÇÃO

 Nesta disciplina serão abordados os períodos e os estilos artísticos durante a Idade Média, na área geográfica correspondente ao ocidente e sul da Europa.
A Idade Média corresponde a um grande período situado entre o Império Romano e o Renascimento, ou seja, compreendido entre duas épocas clássicas.
Duas importantes datas servem de referência aos historiadores da Idade Média. São elas 476, ano da queda do Império Romano, e 1453, ano da queda do Império Bizantino.
Apesar da especificidade destas datas, a Idade Média não se iniciou nem terminou de repente.
Pelo contrário, existiram longas fases de transição no seu começo e no seu final.
Fruto de sucessivas invasões e de disputas internas, a Europa vive um período muito conturbado (e pouco documentado) até aos sécs. XI-XII.
A arte produzida em mais de metade da Idade Média corresponde em grande parte à dos povos invasores, ou a mesclas destas com algumas heranças clássicas.
A partir dos sécs. XI-XII, deu-se um fortalecimento do Cristianismo e a definição de fronteiras das nações emergentes, assim como das suas línguas.
Criaram-se, então, condições de estabilidade suficientes para o aparecimento de importantes cidades, desenvolvimento do comércio e das artes.
Em termos programáticos, nesta disciplina vão ser estabelecidos quatro capítulos, compostos por alguns subcapítulos:
 1. A Arte da Alta Idade Média Arte Paleocristã Arte Pré-românica Arte Muçulmana Arte Bizantina
2. A Arte Românica Arquitetura Pintura Escultura
3. A Arte Gótica Arquitetura Escultura Vitral Pintura
4. A Arte Medieval em Portugal Arte Pré-românica Arte Muçulmana Arte Românica Arte Gótica